Mundo rural “ocupa” Lisboa. “Aqui não há confederações, que têm o poder político por trás”

Mundo rural “ocupa” Lisboa. “Aqui não há confederações, que têm o poder político por trás”

[Fonte: Rádio Renascença]

Numa estimativa conservadora, pode falar-se em centenas de pessoas. Talvez seja atrevido apontar para um milhar. Mas certamente eram suficientes homens e mulheres ligadas à terra, para encher um quarto da Praça do Comércio, como fizeram esta sexta-feira numa mobilização pelo “mundo rural”.

Ninguém podia fazer uma estimativa, a organização era “desorganizada”. À Renascença, o mentor da concentração, André Grácio, lembrou que “foi tudo preparado há quatro meses nas redes sociais” e confessa que perdeu uma aposta – não esperava tanta gente.

Advogado de profissão, caçador por vocação, saiu de Abrantes rumo a Lisboa para se espantar com a união. “O mundo rural é isto, as pessoas abraçam-se, estamos todos juntos.”

André Grácio não se compromete com novos passos. “Não me posso comprometer perante estas pessoas que isto irá dar origem a um movimento, isso implica uma estrutura, não é isso o que se pretende.” E de estruturas está cansado, por isso desabafa: “Aqui não há confederações, porque essas têm sempre o poder político por trás.”

Os tempos são outros e não faltam exemplos de ações preparadas e divulgadas através das redes socais, algumas de origem duvidosa, outras nem tanto, como foi o caso da concentração desta tarde.

Não é difícil acreditar que esta tenha tido mesmo origem espontânea. Afinal de contas, qual a concentração, manifestação ou protesto organizado à porta de um Ministério que não termine entregando ao poder político uma carta reivindicativa ou de intenções?

Não o fizeram. Mas os assessores da ministra da Agricultura desceram as escadas para apurar o que se passava. Ficaram a saber de boca o que levou tanta gente a Lisboa.

Os alvos

Os manifestantes não toleram os que tentam atacar o mundo rural. “Nós gostamos das botas com lama, nenhum criador sustenta um touro quatro anos para o mandar para uma tourada se não gostar do que faz”, diz André Grácio, entusiasmado com a representação do mundo rural no Terreiro do Paço.

Houve gente que acordou de madrugada para sair de Bragança a tempo da concentração. Outros saíram igualmente cedo do Algarve. De Lisboa saíram os políticos, da esquerda à direita e, entre eles, um veterano: Santana Lopes.

O antigo primeiro-ministro, candidato que falhou a eleição para a Assembleia da República nas últimas legislativas, diz que, no passado como hoje, sempre defendeu o mundo rural. “Quando integrei o Governo de Cavaco Silva na década de 90, critiquei o próprio Governo, por exemplo quanto à PAC e quanto ao desmantelamento das frotas de pesca, o que foi um risco. Era um jovem. Mas hoje faria isso de novo”, confessa à Renascença.

Não apareceu ninguém do Pessoas Animais Natureza (PAN). Mas o partido de André Silva não seria provavelmente bem-vindo. “Eles vão fazer um referendo contra as touradas, contra a caça, contra o mundo rural. Mas se me perguntar se o problema é o PAN, eu digo que não. É qualquer partido que venha contra nós.”

As declarações de André Grácio tiveram eco logo ali ao lado. “É tudo muito giro, não comem carne e nem querem matar animais, mas andam com sapatos e casacos de bom cabedal. Deve ter saído das couves ou dos pepinos, queres ver”, largou um dos manifestantes.

Os avisos

Nada será como dantes, prometem. Unidos, sem correias de transmissão a puxar por eles, acreditam que vão conseguir levar a sua voz mais longe. “Se em quatro meses organizámos isto, em poucos dias podemos voltar a fazer ouvir a nossa voz”, garante André Grácio, em jeito de resumo desta jornada.

Se falhar, há quem adiante uma alternativa. “Nas cidades, vocês comem o que nós não queremos. Um dia, se quisermos, passam a comer as pedras da calçada que aguentam muito tempo no estômago.”

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