Durante muitos anos, parecia que na engorda de bovinos trabalhar bem era suficiente para garantir rentabilidade. Quem fazia um bom trabalho técnico conseguia, de forma relativamente previsível, obter margem económica.
Hoje, essa realidade mudou. A produção de bovinos de carne enfrenta um contexto cada vez mais complexo e desafiante, marcado pela volatilidade dos mercados, pelo aumento dos custos de produção e por uma crescente pressão competitiva à escala global. Produzir bem continua a ser indispensável, mas já não é suficiente. O sucesso depende cada vez mais da capacidade de antecipar cenários, tomar decisões estratégicas e gerir o risco.
O produtor enfrenta atualmente um cenário marcado pela incerteza. Os custos aumentam constantemente, a evolução do mercado é difícil de prever e o preço de venda permanece uma incógnita até ao final do ciclo produtivo. Na engorda de bovinos, esta realidade torna-se ainda mais desafiante porque as decisões são tomadas vários meses antes da venda. Compra-se hoje, engorda-se durante meses e vende-se num contexto económico impossível de antecipar com total segurança.
Ao mesmo tempo, existe ainda uma realidade que nenhum produtor pode ignorar: controlamos praticamente todo o processo produtivo, mas não controlamos o preço de venda. Na produção animal, é frequentemente o mercado que determina o valor final do produto, independentemente do esforço, da competência ou da eficiência de quem produz.
Esta situação tornou mais evidente aquilo a que frequentemente se chama o “efeito tesoura”. Durante anos, os preços dos vitelos e da carne evoluíam de forma relativamente equilibrada. Atualmente, o custo dos animais aumentou muito mais rapidamente do que o preço da carne, comprimindo margens e aumentando a pressão sobre a sustentabilidade económica das explorações.
Perante esta realidade, a eficiência tornou-se determinante. Maximizar o ganho médio diário, reduzir dias de permanência na engorda, melhorar a conversão alimentar e minimizar desperdícios são hoje fatores essenciais para controlar custos e proteger a rentabilidade.
A compra dos animais continua a ser um dos momentos mais importantes do processo. Costuma dizer-se que “o lucro está na compra”, e essa lógica mantém-se atual. Comprar bem não significa apenas adquirir animais a um preço competitivo, mas significa conhecer a origem, avaliar o potencial de crescimento, garantir estabilidade sanitária e perceber se o investimento faz sentido no contexto de mercado.
Também o fator tempo assume um papel decisivo. Mais dias de engorda nem sempre significam maior rentabilidade. Existe um ponto em que os animais continuam a consumir recursos, mas a eficiência diminui e os custos acumulados deixam de compensar o retorno económico. Fazer contas e tomar decisões no momento certo tornou-se indispensável.
Outro desafio incontornável é a pressão internacional, particularmente do Mercosul. Estes países apresentam custos de produção significativamente inferiores, beneficiam de matérias-primas mais acessíveis e possuem elevada capacidade exportadora, tornando pouco realista competir pelo preço. Neste contexto, o caminho terá de passar pela diferenciação e pela criação de valor, apostando numa carne de maior qualidade e melhor posicionada no mercado.
Hoje, o produtor precisa de ser mais do que técnico: tem de ser também gestor e estratega. Trabalhar com dados, controlar custos e compreender o mercado deixou de ser opcional.
No fundo, a realidade resume-se a três ideias essenciais: comprar bem, produzir com eficiência e vender com estratégia. Num mercado cada vez mais exigente e competitivo, o verdadeiro desafio está em transformar eficiência em resultado.
Vítor Santos
Grupo Nanta













































