Os agricultores conhecem bem o valor da disponibilidade de água, da fertilidade do solo ou da estabilidade climática. Ainda assim, estes elementos são tratados como condições de contexto e não como ativos produtivos, permanecendo fora dos balanços económicos das explorações.
A contradição é evidente: sendo uma das atividades económicas mais dependentes do bom funcionamento dos sistemas naturais, a agricultura raramente reconheceu nas suas contas o valor económico dos recursos ecológicos que sustentam a sua própria produtividade.
Talvez uma das transformações mais relevantes para a economia agrícola resulte precisamente da correção desta omissão. À medida que aumentam os riscos relacionados com as alterações climáticas e a degradação dos ecossistemas, torna-se cada vez mais evidente que recursos como o solo, a água ou a biodiversidade não são apenas condições produtivas. São ativos económicos determinantes.
Foram divulgadas recentemente as primeiras conclusões de um estudo pioneiro realizado em França que envolveu 1.262 explorações agrícolas e cerca de 331 mil hectares1. Entre 2021 e 2024, os investigadores procuraram compreender a relação entre determinadas práticas de gestão do solo e a capacidade das explorações responderem a eventos climáticos adversos. Embora o estudo ainda esteja em validação, a conclusão preliminar mais citada foi também a mais expressiva: após as secas de 2023, as explorações que adotam práticas de agricultura regenerativa registaram perdas médias de produtividade na ordem dos 8%, enquanto que nas mais convencionais as perdas atingiram aproximadamente 22%.
É referido que, no conjunto dos dados, a relação entre a adoção de práticas regenerativas e a estabilidade do rendimento e lucro durante períodos de seca se revelou estatisticamente significativa em todas as regiões, culturas2 e épocas do ano, embora a magnitude e a direção dos efeitos variassem consoante o tipo de cultura e o contexto do solo.
As conclusões preliminares deste estudo remetem para uma discussão em torno da agricultura regenerativa que extravasa as práticas e os dados.
Discute-se a mobilização do solo, as culturas de cobertura, a biodiversidade ou o teor de matéria orgânica. Esta discussão, sendo muito importante, é insuficiente. O verdadeiro interesse não reside nas práticas em si mesmas, mas nos resultados obtidos. Até porque a agricultura regenerativa não preconiza receitas. Existe sim uma combinação de práticas adequadas à especificidade do contexto.
Não estamos apenas perante uma nova forma de produzir. É uma nova forma de compreender onde reside o valor: no solo e num ecossistema funcional que possui valor ecológico e económico mensuráveis. Não se trata de uma agenda ambiental, mas sim de uma estratégia de gestão de ativos.
A agricultura tem enfrentado uma sucessão de fenómenos extremos que, dificilmente, podem ser considerados excecionais. Tempestades severas, como a do início deste ano, secas prolongadas, ondas de calor persistentes e uma crescente instabilidade meteorológica passaram a integrar a realidade produtiva. Ao mesmo tempo, surgem previsões que apontam para a possibilidade de novos episódios climáticos globais capazes de amplificar ainda mais essa volatilidade, como o esperado novo ciclo de El Niño de elevada intensidade em 2026 e 2027.
Perante este cenário, a questão económica central deixa de se circunscrever apenas ao nível de produção de uma exploração agrícola em anos ditos normais, passando a abranger também a sua capacidade de continuar a produzir quando as condições se deterioram.
Esta questão conduz inevitavelmente ao valor do capital natural. A expressão continua a gerar alguma resistência, talvez por parecer excessivamente académica ou distante da realidade produtiva. No entanto, a ideia é simples. Se um ativo é um recurso capaz de gerar valor económico futuro, então um solo que retém água, reduz perdas de nutrientes, limita a erosão e contribui para a estabilidade produtiva possui características inequívocas de um ativo.
A diferença é que esse ativo raramente aparece refletido em qualquer balanço (contabilisticamente falando).
Talvez essa seja uma das mudanças significativas que se desenham para um futuro próximo.
Durante muito tempo, o solo foi visto apenas como suporte da produção. Os desafios atuais obrigam-nos a reconhecê-lo como um dos principais ativos económicos da exploração agrícola. Se um solo saudável consegue manter a produtividade em condições climáticas adversas, então gera resiliência. E a resiliência tem valor.
Quanto maior for a relevância económica do capital natural, maior terá de ser a exigência na validação dos resultados reais das práticas. O risco de greenwashing existe e aumentará à medida que estes ativos ganham visibilidade junto dos mercados, dos investidores e das cadeias de valor.
Nada disto altera uma evidência fundamental: a natureza tem de passar a integrar a lógica económica e financeira do setor agroalimentar. Não numa perspetiva extrativista, mas como um ativo estratégico cuja preservação determina a capacidade futura de criar valor.
1 https://www.soilcapital.com/news/drought-resilience—farming-risk-measurable-outcomes
2 O estudo incidiu nas culturas arvenses europeias mais comuns, incluindo o trigo de Inverno, a cevada de Inverno, a colza de Inverno, a cevada de Primavera, o milho para grão e a batata.
Georgete Félix
Consultora na área de sustentabilidade e ESG. Doutoranda em Ciências da Sustentabilidade, com Mestrado em Gestão.










































