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Vida selvagem substitui presença humana na paisagem radiativa de Chernobyl 40 anos depois

por Lusa
23-04-2026 | 07:25
em Últimas, Internacional
Tempo De Leitura: 5 mins
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Quatro décadas depois do desastre nuclear de Chernobyl, a região no norte da Ucrânia, continua demasiado perigosa para os humanos, mas a vida selvagem regressou e tornou-se num laboratório da resistência da natureza.

Após a explosão do reator 4 da antiga central nuclear soviética, em 26 de abril de 1986, a cidade vizinha de Pripyat, com uma população de 49.360 habitantes, foi evacuada, e, nas semanas seguintes, outras 67 mil pessoas foram retiradas de zonas contaminadas pela radiação.

As 187 pequenas aldeias e quintas na Zona de Exclusão de Chernobyl (ZEC), criada após o desastre ao longo de 2.800 quilómetros quadrados em redor da central, permanecem praticamente abandonadas até hoje e o acesso é limitado e vedado por exemplo a crianças. Mas enquanto os humanos se afastavam, a vida selvagem regressou.

Cavalos-de-Przewalski, espécie nativa das estepes da Mongólia e introduzidos na região em 1998, vagueiam agora livremente nos solos contaminados e não estão sozinhos.

Os ursos pardos regressaram passado mais de um século e as populações de linces, alces, veados-vermelhos e até de matilhas de cães recuperaram, após um massacre em grande escala de animais abatidos no rescaldo da catástrofe.

“O facto de a Ucrânia ter agora uma população de cavalos selvagens é quase um milagre”, comentou à agência de notícias Associated Press (AP) o cientista ambiental Denys Vyshnevskyi. Muitos morreram após a introdução, mas outros adaptaram-se, à semelhança de outras espécies de mamíferos, aves, peixes, anfíbios e insetos registadas na região.

A cadeia britânica BBC relatou que os cientistas encontraram um número significativo de insetos assimétricos, andorinhas-das-chaminés albinas e ratos-do-campo e aves com cataratas.

Alguns sapos, por exemplo, desenvolveram pele mais escura para se protegerem da radiação, o que leva especialistas a suspeitarem que “quaisquer efeitos negativos são compensados, e talvez até ultrapassados, pelo puro alívio de não haver humanos por perto”.

A BBC referiu ainda que, no interior dos edifícios do reator destruído e em partes da zona de exclusão, foram encontrados fungos escuros, ricos em melanina.

“Revestem paredes, espalham-se pelos escombros e colonizam ambientes saturados de radiação ionizante, mesmo em locais que deviam ser extremamente hostis à vida” e crescem “onde quase nada mais consegue sobreviver”.

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) confirmou que, dentro da ZEC, “ocorreram mutações em plantas e animais após o acidente”, em que as folhas mudaram de forma e alguns animais nasceram com deformidades físicas.

“Até hoje, apesar do aumento dos níveis de radiação, especialmente no solo da floresta, espécies raras estão a regressar em grande número”, de acordo com a AIEA, numa lista que inclui ainda castores, lobos, javalis e até bisontes-europeus, bem como numerosas espécies de aves.

Além disso, com o fim da pressão humana, partes da zona radiativa de exclusão assemelham-se agora a paisagens europeias de séculos passados, segundo Denys Vyshnevskyi, o que o leva a confirmar que “a natureza recupera de forma relativamente rápida e eficaz”.

A AIEA recordou que, na fase inicial de emergência após o desastre, os enormes níveis de contaminação levaram a doses letais para a floresta num raio de sete quilómetros a partir do reator que explodiu.

A radiação gama foi tão grande, nos dias e semanas seguintes, que esta pequena área ficou conhecida como “floresta vermelha”, uma vez que “as árvores morreram e adquiriram uma coloração avermelhada”.

Mas a maior parte da radioatividade libertada pelo reator, entretanto selado numa estrutura de emergência que ficou conhecida como “sarcófago”, dissipou-se rapidamente, de acordo com um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) divulgado em 2020.

Num mês, restava apenas uma pequena percentagem da contaminação inicial, que, passado um ano, desceu para menos de 1%.

Hoje, a transformação é visível em todo o lado, relatou esta semana a AP no local. Árvores atravessam edifícios abandonados, estradas dissolvem-se na floresta e placas desgastadas da era soviética estão ao lado de cruzes de madeira inclinadas em cemitérios tomados pela vegetação.

Pesquisas realizadas no setor bielorrusso da zona de exclusão constataram que as populações de javalis, alces e corços explodiram na década seguinte à catástrofe, segundo o PNUA

Fora da ZEP, uma área colossal de 150 mil quilómetros quadrados ao longo da Ucrânia, da Bielorrússia e da Rússia, não foram registados danos significativos na biota.

Os lobos patrulham agora uma vasta terra de ninguém entre os territórios ucraniano e bielorrusso e chegaram a ser tão numerosos que, em meados dos anos 90, passaram a ser vistos como uma ameaça para os agricultores.

“Muitas pessoas pensam que a área em redor da central nuclear de Chernobyl é um lugar de desolação pós-apocalíptica”, já observava o programa das Nações Unidas em 2020, acrescentando que “a ciência mostra-nos algo bem diferente” e a ZEC “tornou-se numa experiência icónica – ainda que acidental – de recuperação da vida selvagem”.

A invasão russa da Ucrânia colocou Chernobyl de novo no palco mediático desde fevereiro de 2022, quando nas primeiras semanas de guerra, foram registados combates nas imediações das instalações da central, que foram temporariamente ocupadas, pilhadas e vandalizadas.

Autoridades ucranianas indicaram que soldados russos chegaram a cavar trincheiras em solos contaminados e morreram de doença nos meses seguintes, mas estes relatos nunca foram confirmados.

Em tempos de guerra, a zona já não é apenas um refúgio acidental para a vida selvagem e tornou-se também num corredor militar fortemente vigiado, marcado por barreiras de betão, arame farpado e campos minados.

O conflito provocou também restrições às atividades nas zonas habitadas mais próximas, devido aos apagões prolongados em pleno inverno rigoroso, causados pelos ataques aéreos russos contra instalações energéticas ucranianas, afetando também a antiga central de Chernobyl, que passou de produtor a recetor de eletricidade, para se manter em segurança.

Apesar de os incêndios serem parte dos ciclos florestais, os fogos ligados ao conflito alastraram pelas florestas da região e os cientistas relatam aumentos no número de árvores caídas e de animais mortos.

“A maioria dos fogos florestais é causada por drones abatidos”, disse à AP Oleksandr Polischuk, que lidera uma unidade de combate a incêndios na zona, alertando que podem provocar o regresso de partículas radioativas na atmosfera.

O pessoal reveza-se para limitar a exposição à radiação e é provável que Chernobyl permaneça numa espécie de zona proibida durante gerações, depois de ter “muito utilizada em agricultura, por cidades e infraestruturas”, segundo Polischuk, agora substituídas por “um ‘reset’ de origem” por parte da natureza.

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