Um ano depois do incêndio que atingiu a serra do Alvão, entre Vila Real e Mondim de Basto, os pastos renascem, há mais visitantes, há floresta vigiada por câmaras de vigilância, mas há também cicatrizes negras que permanecem.
Carlos Peixoto chama as cabras. É um rebanho de 75 animais que sai da corte pelas 11:00 para calcorrear a serra debaixo de um calor intenso.
“Nem sábados, nem domingos, tem que se andar sempre ao pé delas”, contou o pastor à agência Lusa.
As cabras seguem à frente à procura de alimento, Carlos procura uma sombra para se proteger antes de seguir atrás.
Há um ano o fogo aproximou-se da sua aldeia, Arnal. Salvaram-se carvalhos, mas perdeu-se o pasto dos animais.
“Na serra, as cabras não tinham nada que comer”, recordou.
Um ano depois, o Alvão parece estar a despertar e o verde vai roubando espaço ao negro que manchou esta paisagem.
“Agora já comem, mas à noite o gado ainda vem cheio de cinza”, disse.
A 02 de agosto de 2025 deflagrou um incêndio em Sirarelhos, Vila Real, que se estendeu a Mondim de Basto e, até 13 de agosto, queimou 5.947 hectares da serra do Alvão, dos quais 1.669 na área do Parque Natural do Alvão (PNA), afetando habitats naturais, pinhal, bosques de folhosas, mato, pastos e terrenos agrícolas.
Carlos Peixoto recordou os dias de menino em que espalhadas pela serra andavam à volta de 1.500 cabras que mantinham os matos limpos e ajudavam a prevenir fogos. Hoje, Arnal tem menos de 10 habitantes e também as aldeias à volta perderam residentes.
Cerca de um mês depois do incêndio, Diogo Oliveira, de Galegos da Serra, vendeu as 25 cabras que tinha e ficou com algumas ovelhas e três burros.
“Só sobrou um bocadinho de monte aqui por baixo e não dava para todos”, referiu.
Descreveu que o fogo mudou a paisagem e alguns hábitos, como a ida ao monte buscar mato para fazer a cama dos animais, realçando que agora, por aqui, “não há onde ir”.
“Até isso muda”, frisou, salientando que este fogo ameaçou a sua aldeia “como nunca antes tinha acontecido”.
Poucos quilómetros à frente, o alojamento local “Refúgio Muas Nature” recupera clientes.
“Passado um ano, a situação já está melhor, já vamos recebendo clientes com alguma frequência, a paisagem já está em tons de verde de novo”, afirmou Eduardo Carvalho, proprietário do espaço que tem 12 quartos e capacidade para mais de 40 pessoas.
O fogo aproximou-se de Muas e, em consequência, os clientes deste espaço desmarcaram reservas. Eduardo Carvalho destacou agora o muito que há para fazer neste território para atrair visitantes, desde caminhadas aos banhos nas lagoas e cascatas encaixadas na serra.
A piscina de Lordelo abriu ao público no verão de 2025, fechou cerca de um mês e meio depois por causa do incêndio, teve que ser intervencionada e neste verão de calor intenso está a ser muito procurada.
“Tem sido um sucesso”, afirmou o presidente da Junta de Lordelo, João Monteiro, que adiantou que ali estão acolher campos de férias.
Segundo contou, a água da piscina do “Vintage Camping Alvão” foi usada para o combate ao fogo, mas salvou-se o espaço.
Pela serra, após o incêndio, foram implementadas medidas de proteção contra a erosão dos solos, das linhas de água e das áreas com maior inclinação do terreno. Foram também retiradas árvores queimadas, principalmente pelos baldios e privados.
O presidente da Câmara de Vila Real, Alexandre Favaios, apontou para ações feitas como limpeza e gestão de combustível, melhoria de acessos e de pontos de água, fogo controlado, ações de sensibilização junto da população e iniciativas de recuperação dos ecossistemas afetados.
O município adquiriu 125 câmaras, que já foram instaladas na floresta e são controladas pela Polícia Judiciária, para vigilância, redução de ignições, reforço da prevenção e deteção de comportamentos dolosos e negligentes.
Do lado de Mondim de Basto, o presidente Bruno Ferreira, acrescentou a realização de sementeiras com recurso a um drone, a beneficiação de linhas de água, a retirada de material lenhoso e a colocação de feno para alimentação dos animais.
Durante o inverno, foram também intervencionados 22 hectares com recurso a fogo controlado e, no âmbito do programa “Condomínio de Aldeia”, em Bobal foi feito o controlo das faixas de gestão de combustível e beneficiadas pastagens
“A recuperação de todo o ecossistema demorará muito mais do que um ano (…). Aquilo que é possível fazer globalmente foi feito”, salientou Alexandre Favaios, que acrescentou que “nem sempre a celeridade é a desejável”.
O autarca defendeu uma revisão do plano de ordenamento do PNA.
“Há aqui uma emergência nacional, precisamos de rever a legislação indexada à limpeza dos terrenos”, afirmou.
Foram ainda realizadas ações de reflorestação em Lordelo, Vila Marim e Vila Cova, privilegiando-se espécies autóctones.
O presidente da Junta de Vila Marim, Diogo Nóbrega, disse que o fogo se traduziu em muitos dias de luta da comunidade e em prejuízos que ainda hoje estão a ser calculados.
Nesta freguesia, está a ser preparada uma ação de reflorestação para outono, mas o autarca defendeu uma maior aposta na prevenção e anunciou a criação de uma Unidade Local de Proteção Civil, que consistirá numa equipa de voluntários com formação e que estará operacional em 2027.
“Vai funcionar como a primeira unidade de combate a incêndios, mas também a outro tipo de calamidades”, explicou.
Entre Vila Real e Mondim de Basto há muito Alvão para descobrir e há novidades, como o novo miradouro das Fisgas de Ermelo, de onde se observa uma cascata com 400 metros de desnível.
Foi ali que a Lusa encontrou os espanhóis Henrique e Nádia Carrera, que estão a percorrer o Norte de Portugal de mota. “É tudo muito bonito, precioso”, afirmou Henrique.
Em abril, Mondim de Basto lançou a campanha “Há mais para explorar”.
“O objetivo é convidar as pessoas a virem ao concelho porque ainda há muito verde para conhecer e explorar”, afirmou Bruno Ferreira.
A Lusa pediu também um comentário ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que gere o PNA, mas não obteve resposta até ao momento.












































