Nos últimos anos, o debate sobre o azeite tem sido dominado por uma pergunta simples: “Porque está tão caro?”.
A resposta, mais imediata, aponta para a seca em Espanha. E é verdade, porque os anos, extremamente, secos na Andaluzia, reduziram a produção, pressionaram a oferta mundial e provocaram aumentos históricos do preço. O azeite em Portugal vai a reboque.
Mas, para além da escassez, o setor é afetado pela volatilidade, que costuma acontecer por esta altura, e que acaba por expor fragilidades profundas que vão muito além das alterações climáticas.
No último mês, começaram a surgir, em Espanha, alertas de organizações do setor para o risco de quedas prematuras dos preços, com base em previsões, ainda incertas, sobre colheitas futuras. A associação Olivérica, por exemplo, apelou mesmo a uma maior coordenação entre operadores para evitar movimentos especulativos e decisões comerciais baseadas em estimativas ainda não confirmadas da campanha 2026/27. A organização defende que os preços devem refletir os custos reais de produção e não apenas expectativas de mercado.
A preocupação não é irrelevante pois o mercado do azeite tornou-se, extremamente, sensível à informação. Uma previsão de chuva, uma indicação de colheita abundante ou um alerta de acumulação de stocks podem desencadear reações imediatas nas cotações.
Quando existe pouca transparência sobre o que está, realmente, a acontecer, cresce a especulação. O consumidor português vê o preço subir, rapidamente, quando há notícias de seca. Mas tem dificuldade em perceber porque nem sempre desce com a mesma velocidade quando as perspetivas são de uma boa produção em Portugal.
A verdade é que Portugal continua, fortemente, dependente das cotações estabelecidas em Espanha. Quando os preços sobem em Espanha, sobem em Portugal. Quando descem em Espanha, descem em Portugal. Poucos setores agrícolas nacionais vivem uma dependência tão grande de um mercado externo.
Ao mesmo tempo, os produtores também sentem insegurança pois, paradoxalmente, depois de anos a lutar contra preços demasiado baixos, muitos olivicultores receiam, mais uma vez, regressar a um cenário em que o mercado volta a pressionar as cotações para níveis incompatíveis com a viabilidade económica de muitas explorações.
O olival tradicional é, provavelmente, o exemplo mais evidente desta fragilidade. Grande parte destes olivais tem custos de produção superiores, menor mecanização e uma forte dependência de mão de obra. Quando os preços caem abaixo de determinados níveis, a sustentabilidade económica destas explorações fica em risco.
E quando desaparece um olival tradicional, perde-se muito mais do que produção, perde-se a paisagem, a enorme biodiversidade, o património cultural e afasta-se a população dos territórios rurais.
Não é por acaso, que a recente Declaração de Córdoba, subscrita pelo Conselho Oleícola Internacional e por dezenas de países, reconhece o papel estratégico do setor olivícola na sustentabilidade ambiental e na resiliência dos territórios produtores.
Mas existe uma contradição que Portugal continua por resolver. O país tornou-se uma potência produtora, produz mais, exporta mais, tem tecnologia, conhecimento e eficiência e, no entanto, não consegue reter o valor gerado pelo setor.
Uma fatia muito significativa do azeite português continua a sair para exportação, a granel, sendo, posteriormente, embalado e comercializado por operadores espanhóis e italianos.
Portugal produz (extrai) azeite, mas não produz marca e sem marca não existe diferenciação. E sem diferenciação, o mercado acaba, inevitavelmente, por regressar ao mesmo ponto: a guerra do preço! Num trabalho que elaborei sobre marcas encontrei perto de 400 marcas nacionais de produtores de azeite, com olival. Quantas conseguimos dizer que conhecemos?
Durante décadas, Espanha investiu na internacionalização do setor e na valorização das suas regiões produtoras e Itália transformou a origem e a sua identidade em valor económico. Portugal continua a ter uma enorme dificuldade em afirmar uma estratégia consistente para o “Azeite de Portugal”.
Talvez por isso o debate nacional continue, excessivamente, focado no preço e, insuficientemente, focado no valor, uma vez que, o verdadeiro desafio não é apenas vender mais azeite, mas vender mais azeite reconhecido como português. É fazer com que o consumidor possa associar a qualidade do azeite que consome ao país que o produz.
Continuo a insistir que, é necessário garantir que a maior parte da riqueza gerada pelo setor do azeite permaneça nos territórios onde o azeite nasce e que não estejamos tão dependentes do preço do azeite dos nossos vizinhos.
As alterações climáticas vão continuar a criar incerteza, os mercados vão continuar a oscilar, as colheitas continuarão a variar, mas o futuro do setor não pode depender, apenas, da quantidade de azeite produzida e da chuva que cai em Espanha, nem das expectativas que circulam nos mercados,
O azeite não pode continuar a viver, permanentemente, entre dois extremos: anos em que os preços são demasiado baixos para alguns produtores sobreviverem e anos em que os preços são demasiado altos para os consumidores terem que se questionar que categoria de azeite comprar.
O setor precisa de mais estabilidade, maior transparência e de ser capaz de diferenciar e valorizar a marca Azeite de Portugal.
Porque, no fim, o azeite português vale muito mais do que o preço que aparece na prateleira.
Susana Sassetti













































