“Faz parte da génese da Ovibeja, do seu ADN, a sua postura reivindicativa e de colocação em cima da mesa das grandes preocupações acerca do setor e também da região”. É o que vai voltar a acontecer este ano com assuntos relacionados com a nova Política Agrícola Comum, com o acordo Mercosul, a Estratégia Água que Une, situações relacionadas com a interioridade da região. Quem o afirma é Rui Garrido, Presidente da ACOS, Associação de Agricultores do Sul, a entidade organizadora do evento.
Em entrevista, Rui Garrido faz referência a muitas novidades nesta edição. “Vinho à Prova” é o tema central que, juntamente com o azeite, dão nome a um pavilhão. Provas comentadas, abertas ao público, apresentação de marcas, showcookings, são algumas das muitas iniciativas dirigidas ao setor agroalimentar e a estes dois produtos em concreto. Fazendo jus à diversidade da oferta, o Presidente da ACOS sublinha que a Ovibeja é uma feira de agricultura. Para agricultores. Um local de debate e de reflexão. Mas é também um local de convívio onde todos se sentem bem.
O potencial do interior do país mostra-se na 42ª Ovibeja a par da Inovação e da Tecnologia associada à Inteligência Artificial, às novas tecnologias, à investigação e ao conhecimento. Com pontos de convergência no que diz respeito à interioridade, a região convidada deste ano é a das Terras de Trás-os-Montes.
A mediatização da Ovibeja é outra característica do seu ADN, com a confirmação de reunião do Conselho de Ministros num dos dias do evento, além da participação de vários membros do Governo e de partidos políticos em iniciativas da feira.
“Vinho à Prova” é o tema principal desta edição da Ovibeja. O que se pretende provar no decorrer do evento?
Desde logo, provar vinhos. Mas é muito mais do que isso. A ideia surgiu do facto de o Baixo Alentejo ter sido considerada Cidade Europeia do Vinho pela Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV). Reunimo-nos com a CIMBAL (Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo), com a AMPV e com a Câmara Municipal de Beja e chegámos à conclusão que fazia todo o sentido trazer o tema do vinho para a Ovibeja.
Por outro lado, é um setor que atravessa grandes dificuldades, como é do conhecimento geral. Por isso é importante ser trazido para reflexão através de várias iniciativas que vão acontecer na Ovibeja.
Vamos realizar um colóquio onde vão estar presentes os presidentes da ViniPortugal, da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e o Secretário-Geral da Associação de Municípios Portugueses do Vinho. O debate vai ser à volta dos mercados, agroturismo, gastronomia, entre várias outras vertentes do setor. O Ministro da Economia confirmou presença para o encerramento deste seminário.
A este propósito, a Associação de Municípios Portugueses do Vinho vai também realizar a sua Assembleia-Geral na Ovibeja.
O Pavilhão até aqui designado como Terra Fértil ou Pavilhão dos Sabores, que normalmente é dedicado a vinhos, azeites, queijos, enchidos, doçaria, etc, este ano vai ter um conceito diferente. Será exclusivamente dedicado ao vinho e ao azeite, com uma zona central para provas de vinhos e de azeites abertas aos visitantes, com uma calendarização diária. As provas são feitas por especialistas, enólogos, produtores que também aproveitam para dar a conhecer os seus produtos. Esta inovação, neste espaço, inclui ainda showcookings que dão a conhecer as diferentes possibilidades destes produtos.
Os restantes produtos agroalimentares de excelência que estão sempre na Ovibeja vão ficar numa tenda instalada ao lado deste pavilhão.
Esta edição do evento decorre num cenário de incertezas em relação aos efeitos do acordo Mercosul e, fundamentalmente, à nova Política Agrícola Comum. A Ovibeja sempre tem sido palco de importantes reivindicações, com eco na cena política nacional. É o que vai acontecer também este ano?
Faz parte da génese da Ovibeja, do seu ADN, a sua postura reivindicativa e de colocação em cima da mesa das grandes preocupações acerca do setor e também da região.
Convidámos o Primeiro-Ministro e convidámos também o Ministro da Agricultura. Vamos apresenta-lhes as nossas principais preocupações.
Além da sessão formal, contamos também ter um momento de conversa ou reunião com o Ministro da Agricultura para trocar algumas ideias.
Também vamos apresentar as nossas preocupações aos partidos da oposição, como sempre fazemos.
Em traços gerais, o que mais vos preocupa?
Pela sua importância, a Nova Política Agrícola Comum e o acordo Mercosul, matérias que têm vindo a ser debatidas, inclusive aqui na nossa região, e por intermédio da nossa Federação de Agricultores (FAABA). Estes assuntos merecem mais uma reflexão na Ovibeja.
Já realizámos uma reunião em Beja aberta a todos os agricultores, que contou com a presença do Presidente e do Secretário Geral da CAP e com uma entrevista do Comissário Europeu da Agricultura Sobre o tema do Mercosul.
Na Ovibeja vamos adotar um formato diferente. Convidámos as quatro confederações – CAP, Confagri, AJAP, CNA) para comentarem a intervenção do Deputado ao Parlamento Europeu, Paulo Nascimento Cabral.
Estes são temas com os quais as pessoas se preocupam por isso vamos dedicar uma manhã a este assuntos, no dia 30 de abril.
Também é nossa grande preocupação o desenrolar da Estratégia Água que Une.
Um ano depois da apresentação formal desta Estratégia, qual é a sua avaliação neste momento?
Um ano após a sua apresentação, pouca coisa foi feita. Em relação a esta matéria, há duas questões que não nos cansamos de salientar. Uma, que já está incluída na estratégia, é a construção de pequenas barragens a sul do Baixo Alentejo. Queremos que, além dos acordos com Espanha, ou da regularização do caudal ecológico do Rio Guadiana, estas barragens, de dimensão mais pequena, também sirvam para pequenos regadios de apoio à pecuária. Este é um assunto que temos vindo a falar há muito tempo. E não vamos deixar de falar sob pena de o assunto ser esquecido.
A outra questão que nos preocupa na Estratégia Água que Une tem a ver com a interligação das bacias do Tejo e do Guadiana. Mas é importante destacar que está preconizado o estudo lá para as calendas gregas. A começar em 2030 e a acabar, salvo erro, lá para 2043. Este é um assunto que com certeza vai ser polémico. Que vai ter muita oposição. Que vai precisar de estudos ambientais. Por isso, não pode esperar tanto tempo. Felizmente que os dois últimos anos, e este último em particular, foram de muita chuva enchendo todas as barragens. Mas, se vierem outra vez anos secos, a água que está destinada sair de Alqueva não chega para o que é preciso. Este transvase é para nós fundamental.
Também em cenário de incertezas, são as consequências da guerra com o Irão. Que olhar podemos ter agora em relação a esta questão?
Relativamente a esta questão, estamos obviamente muito preocupados e sem conhecermos um fim à vista.
Desde o princípio de março, o gasóleo agrícola já subiu 60 cêntimos e os fertilizantes, em média, mais 30%, sendo que, para alguns, o seu preço já aumentou mais de 50%. Isto para não falar dos agroquímicos que também irão aumentar.
O Governo já anunciou algumas medidas, nomeadamente, um apoio de 10 cêntimos ao litro de gasóleo, o que representa menos de um quinto do seu aumento, e que são manifestamente insuficientes. Tanto mais, se compararmos com os nossos vizinhos espanhóis que vão ter uma ajuda direta de 30 cêntimos por litro de combustível e uma ajuda equivalente para a aquisição de fertilizantes.
Assim sendo, produziremos com custos mais elevados, mas com preços de venda que não poderão ser superiores, havendo uma concorrência desleal.
Trata-se de uma situação muito extraordinária, que terá que ter apoios extraordinários em tempo oportuno.
O novo Presidente da República, António José Seguro, deu especial atenção, no início do seu mandato, às zonas do interior do país. Que expectativas tem em relação à atuação do novo Presidente?
Por aquilo que conseguimos perceber das suas primeiras declarações, o novo Presidente da República parece de facto preocupado com o interior do país e o meio rural. Apraz-nos registar isso, naturalmente.
É fácil manifestar preocupações com o interior. É fácil criar ministros da coesão e sei lá mais o quê mas, na prática, as coisas levam demasiado tempo a acontecer ou nunca se realizam. Por isso, ter mais um elemento na nossa hierarquia do Estado, neste caso, a o representante do mais alto cargo da nação, preocupado com os problemas do interior, naturalmente que nos deixa satisfeitos.
Conta com a presença do Presidente da República na 42ª Ovibeja?
Em resposta ao nosso convite, o Presidente da República manifestou interesse em vir à Ovibeja, só ainda não está confirmado o dia em que virá.
A organização da Ovibeja também convida sempre os membros do governo e dos partidos políticos para visitarem a feira. Que confirmações já têm em relação à presença da classe política nesta edição?
Temos várias confirmações, como habitualmente, inclusive, a realização de reunião de Conselho de Ministros, no dia 30 de abril. A inauguração, no dia 29, vai contar com a presença Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, que também encerrará o colóquio organizado pela ACOS, sobre PAC e Mercados. Confirmados, para participar em colóquios, estão a Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, do Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, do Secretário de Estado da Agricultura, João Moura, Secretário de Estado do Tesouro e Finanças, João Silva Lopes.
Estão ainda responsáveis de partidos políticos em processo de confirmação. Os representantes do PS, do PCP e da Iniciativa Liberal já confirmaram a sua presença. À semelhança dos anos anteriores, recebemos também a visita de embaixadores e representantes diplomáticos com acreditação em Portugal.
Em relação à Ovibeja propriamente dita, ao seu programa, que outras novidades estão previstas para esta edição?
Vamos ter, como região convidada, as Terras de Trás-os-Montes. Retomámos há dois anos este tipo de convites, com a presença da região do Fundão, a que se seguiu, o ano passado, a Região Autónoma dos Açores. Este ano convidámos as Terras de Trás-os-Montes que vão trazer vinhos, enchidos, azeite, artesanato e ainda os caretos, os pauliteiros.
É uma região que tem muitas semelhanças connosco, nomeadamente a Terra Quente Transmontana, com clima mediterrânico, onde também têm olival e amendoal, por exemplo. São zonas do interior, algumas delas, provavelmente, com mais problemas de interioridade do que nós.
Vamos também ter aqui uma delegação com vários empresários brasileiros, que vão estar com um stand no Pavilhão Institucional da Ovibeja. Vêm da zona de Lages, Estado de Santa Catarina. A sua participação e vinda a Beja resulta de uma relação de trabalho, firmada num protocolo de cooperação com a ACOS, o NERBE, o Instituto Politécnico de Beja.
Outra novidade é, pela importância que tem vindo a ganhar, o Pavilhão de Inovação e Tecnologia que vai ficar este ano numa zona mais nobre da feira, dentro do Pavilhão Terra Fértil, que este ano se vai designar de Pavilhão do Vinho e do Azeite, ao lado do Auditório ACOS. Temos várias iniciativas ligadas à inovação, novas tecnologia, investigação, conhecimento, programadas para este espaço.
O Campo da Feira é a zona de excelência para as máquinas e equipamentos agrícolas, e várias empresas ligadas ao setor, local onde vamos também apresentar demonstrações. Vai lá estar uma zona de comes e bebes para apoio a toda aquela zona.
A exposição dedicada à caça e à pesca vai ser muito maior e com maior expressão que a do ano passado. Esta é uma organização do Clube Português de Monteiros e da Federação Alentejana de Caçadores.
Já foi anunciado também que esta edição vai contar com um desfile de animais de raças autóctones
Sim, é uma maneira diferente de realçar a importância que as raças autóctones têm para o nosso país.
A Ovibeja é um evento organizado por uma associação de agricultores: a ACOS. Uma vez que não conta com dinheiros públicos, a não ser em apoios pontuais, como é gerir o equilíbrio financeiro numa feira com a dimensão da Ovibeja?
Às vezes não é fácil. De facto, o orçamento da feira é todo da ACOS, Associação de Agricultores do Sul. A feira tem de se fazer e sustentar através do seu próprio orçamento. Das suas receitas. As receitas da feira são a bilheteira, que não vai sofrer aumento em relação aos anos anteriores, e é a venda dos espaços. Neste caso, apenas atualizámos o valor da inflação. E são os nossos patrocínios. Felizmente que este ano temos mais alguns patrocinadores.
É importante referir que, se alguém pensar que nós organizamos a feira para ganhar dinheiro, está muito enganado. Felizmente que, mais ou menos, conseguimos que a feira se pague a ela própria. Mas qualquer deslize no seu orçamento, dá logo prejuízo. Estamos a falar de um montante já muito elevado.
De entre as muitas atividades da ACOS, a Ovibeja é uma delas. Por isso, não abdicaremos de fazer a Ovibeja por toda a visibilidade que traz à agricultura, à região, à cidade de Beja, etc. Portanto, o que pedimos é que as pessoas também colaborem. E felizmente isso tem acontecido. Só com a colaboração de todos é que nós conseguimos fazer uma feira com a dimensão da Ovibeja, cada vez mais digna, com cada vez mais qualidade e que se consiga pagar a ela própria.
A Ovibeja é conhecida por estabelecer elos de ligação com quem nela participa. Como é, da parte da organização, definir a Ovibeja? O que é para si a Ovibeja?
A Ovibeja é, em primeiro lugar, uma feira de agricultura. Para os agricultores. E tem de continuar a ser. Mas não é só isso. É muito mais. É um local de convívio. A Ovibeja tem um programa recheado de atividades culturais e lúdicas para atrair pessoas. Tem tasquinhas, muitos espaços de petiscos, restaurantes, esplanadas, onde as pessoas se sentem bem. Há muitas pessoas, especialmente as que são daqui, mas que cá não vivem, que tiram férias para virem à Ovibeja. E há muitos jovens que acolhem nas suas casas amigos de outras zonas do país para estarem na Ovibeja. Mas a Ovibeja é também um local de debate e de reflexão sobre os principais assuntos da ordem do dia, que mais preocupam a região ou o país. A Ovibeja é um local onde todos se sentem bem. Um local de trabalho, de conhecimento, mas igualmente, um local de lazer e de convívio.
Fonte: 42.ª Ovibeja















































