A desertificação é hoje apresentada como uma consequência inevitável das alterações climáticas. Um fenómeno quase abstracto, explicado em gráficos e mapas de risco, que parece acontecer apesar das decisões humanas e não por causa delas. No terreno, porém, a leitura é outra. O que se observa, de forma consistente, é um processo acelerado por escolhas técnicas erradas, repetidas durante décadas, muitas vezes com boa intenção e maus resultados.
Entre essas escolhas, a aposta recorrente em grandes barragens ocupa um lugar central. São obras visíveis, quantificáveis, politicamente defensáveis. Aumentam a capacidade instalada de armazenamento de água, geram indicadores claros e permitem comunicar acção. O problema é que resolvem estatística, não resolvem paisagem.
A desertificação começa no solo. Começa quando o solo perde estrutura, quando a matéria orgânica desaparece, quando a vida biológica entra em colapso e a capacidade de infiltração é reduzida a quase nada. Um solo compactado transforma cada episódio de chuva num evento de escoamento superficial. A água não entra; foge. Arrasta partículas finas, nutrientes e o pouco capital ecológico que resta.
Quando isto acontece de forma generalizada numa bacia hidrográfica, o efeito é conhecido. Picos de cheia mais rápidos e violentos, seguidos de longos períodos sem água disponível na paisagem. O paradoxo instala-se: mais chuva anual, menos água útil. É aqui que entra a barragem como resposta padrão. Capta-se a água a jusante, armazena-se num grande volume, regula-se o caudal. O indicador melhora. O processo ecológico mantém-se degradado.
Barragens não actuam sobre o território a montante. Não reconstroem solos, não aumentam infiltração, não restauram ciclos biológicos. Pelo contrário, tendem a cristalizar o problema, ao legitimar a continuação de práticas que degradam a paisagem. Se a água «já está assegurada» mais abaixo, a montante pode continuar compactada, exposta e simplificada.
Este modelo ignora uma evidência básica: a água só é recurso quando está no lugar certo, à velocidade certa e no tempo certo. Um reservatório cheio não significa uma paisagem funcional. Significa apenas que a água foi deslocada para um ponto específico, muitas vezes longe dos locais onde deveria infiltrar, alimentar aquíferos e sustentar sistemas vivos.
O planeamento regenerativo propõe uma lógica inversa. Em vez de concentrar, distribuir. Em
vez de acelerar, abrandar. Em vez de tratar a água como um volume, tratá-la como um fluxo
integrado na paisagem. Retenção distribuída, infiltração lenta e contínua, gestão do relevo, do
solo e da vegetação como um sistema único.
Isto não é teoria. É prática aplicada em contextos semiáridos em todo o mundo, incluindo no sul da Península Ibérica. Pequenas intervenções bem posicionadas; valas de infiltração, linhas de nível funcionais, recuperação de linhas de água degradadas, aumento de cobertura vegetal permanente; produzem efeitos cumulativos significativos. Reduzem picos de cheia, aumentam a recarga dos aquíferos, estabilizam microclimas e devolvem produtividade à terra.
O ponto crítico é a escala de decisão. Estas soluções não cabem bem em modelos centralizados nem em calendários políticos curtos. Exigem leitura fina do território, planeamento informado e acompanhamento técnico continuado. Exigem aceitar que a solução não é uma obra isolada, mas um processo distribuído no espaço e no tempo.
A desertificação não se combate com infraestruturas desconectadas do território. Combate-se com planeamento territorial integrado. Com decisões que partem do solo e não do betão. Com investimento em conhecimento local, em cartografia funcional, em leitura hidrológica real e não apenas em médias estatísticas.
Isto não significa que todas as barragens sejam inúteis ou que não tenham lugar em determinados contextos. Significa que, quando são tratadas como solução principal para um problema sistémico, falham. Falham porque não actuam sobre a causa. Apenas mitigam, temporariamente, alguns sintomas.
Enquanto continuarmos a medir sucesso pela quantidade de água armazenada e não pela água efectivamente infiltrada e utilizada pela paisagem, continuaremos a confundir gestão com controlo. E controlo, em sistemas vivos, é quase sempre uma ilusão de curto prazo.
Se queremos enfrentar a desertificação de forma séria, temos de mudar a pergunta de base. Não é «onde armazenar mais água?», mas «como manter a água no território, viva e funcional, durante mais tempo?». A resposta a essa pergunta raramente cabe numa barragem.
Cabe num mapa bem lido, num solo bem tratado e numa paisagem planeada como um sistema.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos a construir grandes obras para resolver pequenos gráficos. E a paisagem, essa, continuará a secar.
Nuno Mamede Santos
Fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo.












































