Projeto ISOmap Forragem: tecnologias normalizadas na produção de forragens

Projeto ISOmap Forragem: tecnologias normalizadas na produção de forragens

Contribuir para a redução dos constrangimentos económicos inerentes à produção de forragens, contribuir para medidas de resiliência aos constrangimentos naturais de clima e dos solos característicos das regiões mediterrâneas, promover a disseminação do conhecimento e transferência tecnológica nas áreas de mecanização, agricultura de precisão e digitalização aplicadas à produção de forragens são as metas do projeto ISOmap (ALT20-03-0246-FEDER-000062), coordenado pelo Instituto Politécnico de Portalegre com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária – Elvas, e que teve inicio no passado mês de setembro.

Os dados preliminares do recenseamento agrícola de 2019 continuam a mostrar a região do Alentejo, onde são criadas praticamente 2/3 das vacas aleitantes, maioritariamente em regime extensivo. A importância deste panorama prende-se com a sustentabilidade destes ecossistemas de produção, que contribuem para a biodiversidade e manutenção das áreas florestais de montado, aproveitamento das pastagens de sob coberto, fertilização do solo e tantas vezes constituem os principais núcleos de produção das raças autóctones de animais ruminantes, não apenas da espécie bovina, mas também de ovinos e caprinos.

Mas cada vez mais são os desafios que se colocam aos sistemas extensivos para garante da sua competitividade. O sucesso dos mesmos passa, desde logo, por custos baixos na produção de forragens, tão importantes à adequada alimentação dos efetivos nos períodos de carência de erva no pico do inverno e do verão para garantir a condição corporal dos animais e assim os índices reprodutivos e de produção que o criador pretende alcançar.

Contudo, fatores de produção como alimentos para animais, adubos, energia e lubrificantes chegam a representar 65% dos consumos intermédios da atividade agrícola e a volatilidade de preços, em regra, não tem uma relação direta entre estes custos e o preço dos bens agrícolas.

Do ponto de vista climático, nos últimos anos tem-se observado uma grande variação termopluviométrica, com tendência para redução da precipitação anual e concentração no fim do inverno, bem como subida dos valores de temperatura média acima da normal climática responsáveis pelo aumento das taxas de evapotranspiração que, condicionando o teor de humidade do solo, afetam o bom e regular desenvolvimento das culturas. Soma-se, a continuada degradação do solo, já de si com baixos indicadores de fertilidade, um pouco por toda a região, fruto entre outros fatores da própria natureza da rocha-mãe, da elevada taxa de mineralização da matéria orgânica, da compactação causada pelas inúmeras passagens e uso muitas vezes indevido de máquinas pesadas de mobilização e do maneio indevido ao longo do tempo de muitos sistemas monoculturais.

Atualmente, a agricultura de precisão, a digitalização e a mecanização agrícola congregam no seu seio um conjunto de tecnologias que integradas podem responder a estes constrangimentos através da monitorização constante do solo, das culturas e dos fatores

de produção de modo a em cada momento ser tomada a decisão mais pronta e adequada que permita em tempo real corrigir desvios que possam pôr em causa a produtividade das culturas.

É esta a abordagem do projeto ISOmap Forragem, na continuação do trabalho de investigação e demonstração iniciado no projeto MechSmart Forages, que agora se concentra no estudo e demonstração do uso integrado de tecnologias de agricultura de precisão e sistemas de automação em máquinas agrícolas com recurso à Norma ISO11783 (ISOBUS) para  monitorização do solo, avaliação sensorial do estado de desenvolvimento das culturas e para a criação de mapas de prescrição que permitam a gestão diferenciada da parcela com a aplicação de herbicidas e fertilizantes a taxa variável.

Paralelamente, pretende-se contribuir para o uso de novos itinerários culturais assentes em novas propostas de consociações forrageiras cuja composição e qualidade podem simultaneamente adequar-se a padrões climáticos extremos e reduzir a produção de gases com efeito de estufa, permitindo a manutenção dos níveis de produção sem comprometer a segurança e o bem-estar dos animais. Ambos os objetivos, quer tecnológico, quer cultural estão alinhados com práticas culturais a técnicas de conservação do solo e da água, quer através da mobilização mínima ou sementeira direta, quer através do tráfego controlado de máquinas.

O projeto assenta num conjunto de medidas previstas na região do Alentejo, no âmbito dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento, nomeadamente no reforço da investigação, do desenvolvimento tecnológico e da inovação; melhoria do acesso às TIC; apoio à transição para uma economia de baixo teor de carbono, promoção da adaptação às alterações climáticas e prevenção e gestão de riscos.

Considerando o Domínio de Especialização de Alimentação e Floresta, a importância da “Agricultura e produção animal combinadas”, nomeadamente da produção de bovinos de carne e de produção de forragens na região do Alentejo, o projeto pretende demonstrar as tendências mais relevantes do ciclo de inovação e de crescente incorporação de tecnologia nos processos produtivos, nomeadamente a agricultura de precisão que, progressivamente, “industrializa” a atividade agrícola introduzindo sistemas avançados de produção com uma forte componente de eletrónica, bem como modelos de gestão da produção que criam oportunidade a modos de produção mais sustentáveis e ambientalmente compatíveis.

Na sua relação com a mecanização, a AP encontra na tecnologia de aplicação a taxa variável o fechar de um ciclo que constitui um importante passo em direção à modernização da agricultura que lhe permite pôr em prática e em tempo real o princípio de dotação dos fatores de produção face às necessidades das culturas.

Com uma forte componente de demonstração que pretende dinamizar e pôr em prática uma unidade viva à escala da parcela do agricultor, preveem-se todo um conjunto de ações com impacte direto no setor produtivo, em estreita ligação com as Associações de Agricultores e Associações Técnicas locais. Assim, estão já instalados, e possíveis de serem visitados, um conjunto de ensaios numa área de 15 ha na herdade experimental da Comenda em Caia (Elvas), onde foram iniciadas as tarefas de caracterização e monitorização do solo, instalação de culturas em sementeira direta e monitorização com recurso a técnicas de deteção remota para a aplicação a taxa variável de herbicidas e fertilizantes.

Com as ações de demonstração e transferência de tecnologia, tanto presenciais como disponibilizada numa plataforma digital a ser criada em breve, o projeto contribuirá para dar resposta às necessidades e debilidades associadas às competências digitais relacionadas com a adoção e o uso de novas tecnologias na agricultura, com isso permitindo o aumento da competitividade do setor e o aparecimento de novas oportunidades de negócio. É assim possível informar os agricultores, técnicos e a comunidade em geral das potencialidades de tais tecnologias de forma a permitir a escolha individual ou coletiva de quais as melhores opções a tomar, não esquecendo a realidade económica da sua implementação Oportunamente, irão ser divulgados relatórios e publicações técnicas em revistas da especialidade, e através dos meios oficiais do Ministério da Agricultura, nomeadamente a Rede Rural Nacional.

Por: Luís Alcino da Conceição – InovTechAgro
Professor Adjunto do Instituto Politécnico de Portalegre

Publicado na revista Vida Rural, de fevereiro de 2021.

O artigo foi publicado originalmente em Rede Rural Nacional.

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