Os produtores do concelho de Boticas estão preocupados com a incerteza das receitas da venda de fumeiro e outros derivados do porco, bem como com a falta de apoios e de jovens para dar continuidade a este trabalho.
Na antecâmara de mais uma edição da Feira Gastronómica do Porco de Boticas, que decorre de quinta-feira a domingo, os produtores de fumeiro deste concelho do distrito de Vila Real revelaram à Lusa as dificuldades que atravessam, em especial pela falta de jovens que queiram dar continuidade a este trabalho.
Em Atilhó, Rosa Rodrigo e as suas duas irmãs herdaram da mãe o gosto pela produção de fumeiro, sendo as únicas na aldeia que ainda vendem nas feiras da região.
“Os jovens não querem produzir fumeiro porque é muito trabalhoso e não há incentivos nenhuns. Eu tenho os meus filhos a ajudar-me, mas duvido que continuem com isto porque estão sempre a dizer-me que produzimos à sorte, já que não sabemos se vamos vender”, lamentou Rosa Rodrigo.
A produtora transformou cerca de 10 porcos em fumeiro tradicional e outros derivados para o certame. Apesar de já ter clientes fixos e de enviar “fumeiro por correio para Lisboa desde a pandemia”, Rosa defendeu a criação de um espaço no concelho para o escoamento dos produtos.
“Se a feira não correr bem, como já aconteceu, à conta do mau tempo, teremos de ficar com o produto. Se soubéssemos que, no final, o que sobra ia para um espaço para ser vendido, era um bom apoio”, sugeriu.
Em Alturas do Barroso, Herculano Rua e Laurinda Silva deixaram de produzir fumeiro para vender há três anos.
“Dantes fazíamos as feiras de Boticas, Montalegre e Cabeceiras de Basto, mas já não há ninguém para ajudar e tivemos de desistir. A não ser quem já tem uma certa idade, não temos quem nos possa ajudar”, explicaram.
Herculano, de 84 anos, disse à Lusa que a aldeia chegou a ter três grandes produtores mas que, entretanto, deixaram de produzir por não haver jovens para dar continuidade ao negócio.
“Há cada vez menos produtores de fumeiro porque a gente nova não quer este trabalho. Está a ficar muito mau, a juventude fugiu-nos toda e é pena. [Os jovens] querem estudar e ter uma vida melhor, além de que são poucos [os que vivem] no concelho”, lamentou.
De acordo com a Cooperativa Agro Rural de Boticas (CAPOLIB), à data de hoje, o concelho tem, apenas, cinco produtores de fumeiro.
“É um número que tem decrescido muito nos últimos anos porque as pessoas envelhecem e não há uma segunda geração que queira pegar nisto. Está muito complicado, mesmo a produção para consumo próprio tem diminuído muito porque não há jovens que se queiram fixar no território e isto é uma tragédia. Se não houver políticas públicas claras e incentivos claros, escusamos de andar com fantasias, porque quem vem para os territórios é para ganhar dinheiro”, reiterou Albano Álvares, presidente da CAPOLIB.
Para o responsável, este é um problema da sociedade, “não só do Governo, da Câmara ou da Cooperativa”, defendendo a criação de “programas de apoio” com “compensações económicas pelo trabalho que é feito, inclusive, de preservação de hábitos e da cultura de uma região”.
“As políticas públicas estão erradas e espero que sejam corrigidas muito brevemente. Se estes territórios não tiverem economia, ninguém cá fica, porque as pessoas têm de ter uma vida digna, têm de ganhar dinheiro, e para isso são precisas políticas públicas, políticas locais ativas, também, para que quem se fixa cá possa usufruir delas”, defendeu.
Segundo os resultados definitivos dos Censos 2021, o concelho de Boticas tem cerca de 5.000 habitantes, tendo perdido quase 800 residentes em 10 anos, desde 2011.













































