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O preço da incerteza: Porque é que o capital institucional ainda não confia na agricultura

por Vida Rural
22-07-2026 | 08:30
em Nacional, Últimas, Sugeridas
Tempo De Leitura: 6 mins
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Os investidores institucionais, fundos de pensões, fundos soberanos, seguradoras e outros, procuram ativamente ativos reais capazes de gerar rendibilidades de longo prazo e proteção contra a inflação. A agricultura deveria ser uma escolha natural: a terra é um ativo tangível, finito e indissociável da sobrevivência humana. Ainda assim, a alocação de capital ao setor continua limitada, sobretudo na Europa.

A razão é simples: os investidores não conseguem atribuir um preço àquilo que não compreendem.

Não sou académico nem especialista financeiro. Mas, como agrónomo que passou os últimos cinco anos a trabalhar numa sociedade gestora especializada em investimentos agrícolas, vejo-me constantemente a tentar falar duas línguas: a da realidade biológica dos sistemas agrícolas e a dos modelos financeiros através dos quais o capital institucional avalia risco e rendibilidade. Cheguei à conclusão de que a distância entre estas duas linguagens é maior do que parece, e tem um custo.

Quando a média mascara o risco

A agricultura move-se através de variáveis que o capital institucional, na maioria das vezes, não sabe interpretar plenamente: variabilidade produtiva, saúde do solo, ciclos biológicos, stress hídrico. Estes não são fatores periféricos, são sim os principais determinantes do risco e da rentabilidade de um investimento agrícola.

Não é que estas variáveis sejam ignoradas pelos modelos financeiros. O problema é que são, com frequência, simplificadas em excesso. Sistemas biológicos complexos acabam reduzidos a médias e a pressupostos lineares, o que oculta a verdadeira natureza do risco, sobretudo na análise de cenários adversos.

Tomemos como exemplo um sistema simplificado de produção de amêndoa na Península Ibérica. É comum observar produtividades que variam entre menos de 500 kg de miolo por hectare, em anos de maior stress, e mais de 2.000 kg por hectare em condições favoráveis. Estes valores não são uma exceção: refletem a variabilidade observada entre explorações e campanhas agrícolas em todo o território nacional. Ainda assim, muitos destes ativos continuam a ser avaliados com base numa única produtividade “normalizada”, que atualmente eu situaria entre 1.500 e 2.000 kg por hectare, com uma análise muito limitada da frequência e do impacto dos anos adversos.

Daqui resultam dois problemas imediatos.

Primeiro, a média mascara a distribuição. Um sistema que alterna entre 500 e 2.000 kg por hectare não se comporta da mesma forma que outro que produz consistentemente 1.250 kg por hectare, ainda que a média seja idêntica. O momento em que ocorrem os anos negativos, e a profundidade dessas perdas, afetam de forma material a estabilidade dos fluxos de caixa, a capacidade de cumprir o serviço da dívida e a capacidade de reinvestimento.

Segundo, a resiliência permanece invisível. Se práticas agronómicas como a melhoria da estrutura do solo ou uma gestão mais eficiente da água elevarem o patamar de produção nos anos adversos, de 500 para 800 ou 1.000 kg por hectare, por exemplo, a produtividade média pode aumentar apenas marginalmente. No entanto, o perfil de risco do ativo altera-se de forma significativa, sobretudo na sua capacidade de resistir a anos de maior stress.

Na minha experiência, a maioria dos modelos de investimento não capta explicitamente nenhum destes efeitos. O resultado é que ativos com perfis de risco estruturalmente diferentes acabam tratados como se fossem equivalentes.

Isto não é apenas uma limitação dos modelos financeiros. É um problema de alocação de capital.

Hoje, os investidores pagam demasiado por uma estabilidade que não existe e subavaliam uma resiliência que não é medida.

A sustentabilidade que ainda não tem preço

O problema torna-se ainda mais evidente quando introduzimos a sustentabilidade nesta equação.

A agricultura regenerativa – o epicentro do trabalho que tenho desenvolvido nos últimos cinco anos – é cada vez mais apresentada como uma resposta à volatilidade climática que tão drasticamente afeta a atividade agrícola. Práticas como o aumento da matéria orgânica do solo, a melhoria da retenção de água ou a redução da dependência de fatores de produção externos procuram reforçar, ao longo do tempo, a resiliência dos sistemas agrícolas. No plano agronómico, esta relação é relativamente bem compreendida, mas os investidores não alocam capital com base na estrutura do solo. Alocam-no sim, com base numa análise de rendibilidade ajustada ao risco.

O que me leva a uma pergunta mais ampla: se a gestão regenerativa altera sobretudo as características do risco em cenários adversos, em vez de simplesmente aumentar a rendibilidade média, devemos continuar a avaliar estes ativos recorrendo apenas às métricas convencionais de rendibilidade ajustada ao risco?

Apesar dos progressos alcançados por iniciativas como a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), a maioria dos referenciais de sustentabilidade continua mais orientada para a divulgação rígida e cristalizada de informação do que para a construção de uma perceção de valor dos ativos auditados e reportados. Descrevem práticas, mas não quantificam de que forma essas práticas alteram o perfil de risco financeiro de um investimento. Por outras palavras: a sustentabilidade está a ser reportada, mas ainda não está a ser incorporada na precificação de ativos agrícolas.

A linguagem comum que falta construir

A minha convicção é que precisamos de uma nova geração de métricas de investimento capazes de captar a resiliência dos sistemas agrícolas, e não apenas a volatilidade dos fatores que determinam os seus resultados. Métricas que reconheçam a forma como os sistemas biológicos respondem sob stress, como a gestão altera a probabilidade de perdas severas, e como a degradação ou a regeneração dos recursos naturais modifica a distribuição das rendibilidades no longo prazo.

Não creio que o setor tenha chegado lá. Eu, seguramente, não cheguei. Mas acredito, cada vez mais, que este é um dos trabalhos mais importantes ainda por fazer para que a agricultura regenerativa se possa afirmar como um sistema de gestão agrícola capaz de atrair capital institucional de forma mais generalizada.

Na prática, muitos comités de investimento não rejeitam oportunidades agrícolas porque as rendibilidades sejam pouco atrativas. Rejeitam-nas porque o risco não pode ser expresso de forma comparável, defensável e auditável, sustentada por consequências económicas concretas e por referenciais setoriais credíveis. Hoje, as seguradoras continuam a avaliar o risco agrícola com base em médias históricas que já não representam a realidade climática, os bancos limitam o crédito porque a incerteza não pode ser formalizada, e o capital acaba por fluir para classes de ativos mais fáceis de modelar, mesmo quando estas são estruturalmente menos resilientes.

Estou convicto de que uma realocação, mesmo modesta, das carteiras institucionais globais para ativos agrícolas representaria centenas de milhares de milhões em capital novo. Mas esse capital não será mobilizado apenas por uma narrativa convincente. Será mobilizado quando o risco puder ser quantificado, comparado e justificado dentro dos modelos financeiros existentes.

Quem conseguir construir esta linguagem comum não criará apenas uma métrica melhor. Redefinirá a forma como a agricultura é compreendida enquanto classe de ativos.

Até lá, a agricultura permanecerá presa num paradoxo: amplamente reconhecida como essencial, estruturalmente atrativa e persistentemente mal valorizada.

O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.

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