Há dois anos escrevi um artigo com este título: “Agricultura, filha de um deus menor!”.
Na altura, a pergunta era pertinente, hoje infelizmente continua a ser talvez ainda mais, porque, entretanto, aconteceu uma guerra na Europa. Os custos dos fertilizantes, da energia e combustíveis dispararam, a inflação atingiu consumidores e produtores. A EU continuou a impor aos seus agricultores regras ambientais e produtivas cada vez mais exigentes, sem garantir condições económicas para as cumprir. Ao mesmo tempo, Portugal continua preso ao ciclo estéril da discussão, dos anúncios e das promessas. Os agricultores precisam de previsibilidade para realizar os seus investimentos. Sem investimentos não há modernização e ficamos, cada vez mais, dependente do exterior.
DA GUERRA AO PRATO
No artigo “DA GUERRA AO PRATO”, procurei chamar a atenção para uma realidade que muitos só tomaram consciência quando foram fazer as compras da semana. A guerra também se faz sentir na agricultura, parece que está longe, mas chega rapidamente ao campo através do preço do gasóleo, dos fertilizantes, da energia das sementes e de tantos outros fatores de produção.
A agricultura não pode continuar a ser tratada como apenas mais um setor da economia, porque sem agricultura não há segurança alimentar e um pais que depende excessivamente do exterior para se alimentar é um pais vulnerável.
MERCOSUL: CONCORRÊNCIA OU CONCORRÊNCIA DESLEAL?
Durante anos discutimos o acordo entre a EU e o Mercosul. Hoje já não é uma discussão académica nem uma hipótese distante, o acordo entrou em aplicação provisória. Claro que Portugal precisa de comercializar com o exterior, a questão é se estamos realmente a colocar agricultores europeus e agricultores de países terceiros nas mesmas condições de concorrência.
Ao agricultor europeu exige-se, e muito bem, rastreabilidade, regras ambientais rigorosas, bem-estar animal, redução de determinados produtos fitofarmacêuticos, cumprimento de inúmeras normas e uma carga burocrática que, em muitos casos, se tornam sufocantes.
Precisamos de justiça económica e de coerência política. Não podemos exigir ao agricultor português que cumpra todas regras europeias e, ao mesmo tempo competir com produtos que não suportam os mesmos custos nem as mesmas exigências, para que a concorrência seja leal as regras devem ser equivalentes.
A BAZUCA (PRR) PASSOU AO LADO DA MAIOR PARTE DAS EXPLORAÇOES AGRÍCOLAS.
Foram anunciados milhares de milhões de euros, falou-se de transformação, modernização, resiliência e investimento. A agricultura também apareceu nos discursos, mas uma coisa é anunciar dinheiro, outra é apoiar investimentos na exploração agrícola. As explorações agrícolas não se modernizam através de anúncios de ministros ou comunicados na imprensa.
Moderniza-se com regadios, máquinas, eletrificação, caminhos agrícolas, tecnologia, barragens, emparcelamento e investimento. Um agricultor não pode esperar eternamente por um aviso, por uma decisão administrativa, ou por uma promessa que não se concretiza.
EMPARCELAR PARA ORDENAR – POR QUE RAZÃO PARAR?
Todos reconhecem que a fragmentação da propriedade é um dos grandes obstáculos à modernização do território rural. Parcelas pequenas e dispersas, caminhos deficientes, custos elevados de mecanização, dificuldade de implementar sistemas de rega modernos de modo a fazer uma gestão eficiente da água. Tudo isto reduz a produtividade, aumenta os custos e impede que muitas explorações atinjam uma dimensão economicamente viável. Foi precisamente para combater este problema que nasceu o “Programa Emparcelar Para Ordenar.” O quarto aviso abriu em 2025 e agora estamos em setembro de 2026 e ainda não saiu o novo aviso relativo ao ano de 2026.
Se o emparcelamento é uma prioridade nacional, por que razão se interrompe o apoio?
Se queremos explorações maiores, mais competitivas, por que não facilitamos a aquisição e a reorganização das parcelas a fim de reduzir custos de produção? Os agricultores pedem que os programas públicos não desapareçam precisamente quando começam a ser necessários.
Uma política agrícola séria não pode funcionar aos soluços, precisa de continuidade, metas claras e execução plena.
Há uma palavra que devia estar no centro de toda a política agrícola: SOBERANIA
Não há segurança alimentar sem Agricultores. A agricultura não é filha dum deus menor.
É uma das Mães da nossa soberania!
Empresário Agrícola e Presidente da ADACB
Investimentos nas explorações agrícolas – Urgências e desafios















































