Sempre que se discute a floresta portuguesa, há uma tendência para a tratar como um setor autónomo. Fala-se de espécies florestais, de incêndios, da indústria da madeira, da biodiversidade ou do carbono. Tudo isto é importante. Mas talvez o primeiro erro esteja precisamente aí: pensar que o problema da floresta é apenas florestal. Não é.
A floresta é uma das expressões da paisagem. E a paisagem não conhece as fronteiras que fomos criando entre agricultura, floresta, conservação da natureza, recursos hídricos, proteção civil ou ordenamento do território. Somos nós que dividimos estas áreas em ministérios, direções-gerais, programas de financiamento e estratégias sectoriais. No terreno, porém, tudo acontece ao mesmo tempo e no mesmo lugar. É por isso que tantas vezes falhamos.
Durante décadas fomos acumulando políticas para quase tudo: para a agricultura, para a floresta, para a água, para a biodiversidade, para os incêndios ou para o desenvolvimento rural. Mas raramente olhámos para a paisagem como um sistema integrado, onde todas essas políticas se cruzam e influenciam mutuamente.
Os grandes incêndios ilustram bem esta realidade. Tendemos a associá-los ao verão, às ondas de calor ou ao dispositivo de combate. Mas os incêndios extremos começam muito antes. Começam com o abandono do território, a fragmentação da propriedade, a perda de rentabilidade da gestão da terra, a simplificação dos ecossistemas ou a ausência de oportunidades económicas para quem vive no interior. As alterações climáticas vieram agravar uma vulnerabilidade que já existia.
O mesmo acontece com muitos dos restantes desafios que hoje enfrentamos. A biodiversidade não depende apenas das áreas protegidas. A disponibilidade de água não depende apenas da precipitação. A produtividade agrícola não depende apenas da fertilidade dos solos. A capacidade de armazenar carbono não depende apenas das árvores que plantamos. Todos estes resultados dependem, em maior ou menor grau, da forma como gerimos a paisagem.
Pensar a paisagem obriga-nos a abandonar a lógica dos compartimentos. Uma galeria ripícola recuperada não melhora unicamente a qualidade da água; cria habitat, reduz a erosão, aumenta a infiltração, contribui para a adaptação às alterações climáticas e pode até dificultar a propagação de um incêndio.
Um sistema agroflorestal bem desenhado não produz só alimentos ou madeira; diversifica rendimentos, melhora o solo, aumenta a biodiversidade e reforça a resiliência da exploração. Para quem gere hoje uma exploração florestal, esta lógica não é uma abstração: é a diferença entre gerir um povoamento isolado e gerir uma paisagem que se protege e se sustenta a si própria. Na paisagem, quase nenhuma decisão produz apenas um efeito. Talvez seja precisamente por isso que continuamos tantas vezes a discutir os sintomas e tão raramente as causas.
Nos últimos anos, Portugal fez progressos importantes em áreas como a prevenção das ignições, a organização do sistema de gestão integrada de fogos rurais ou a capacidade de resposta operacional. Mas seria um erro concluir que o futuro da floresta depende só da política florestal ou da política de incêndios. Depende também da política agrícola, da política de coesão, da gestão da água, da conservação da natureza, do ordenamento do território e, acima de tudo, da capacidade de todas estas políticas convergirem sobre a mesma paisagem.
Talvez esteja aí um dos maiores desafios que temos pela frente. Não criar mais uma estratégia, nem mais um programa ou mais uma reforma. Mas aprender a governar a paisagem como aquilo que ela realmente é: um sistema vivo, onde produção, conservação, economia, segurança e qualidade de vida não competem entre si, mas dependem umas das outras.
Porque o problema da floresta nunca foi apenas florestal. É, antes de tudo, um problema de paisagem.
Miguel Jerónimo
Arquitecto Paisagista, Coordenador dos projetos Renature do GEOTA
















































