Durante muitos anos, a produção agrícola assentou sobretudo em produtos de síntese química e em adubos minerais. A retirada de várias substâncias ativas, a necessidade de preservar as que restam, o desgaste da estrutura e da vida microbiana dos solos causado por rotações curtas, bem como a crescente atenção do consumidor ao que chega ao mercado, abriram espaço a novas ferramentas. Entre elas, os microrganismos têm vindo a conquistar um lugar próprio.
Os produtos de base biológica entraram, entretanto, em culturas onde, há alguns anos, dificilmente seriam considerados uma opção, do tomate de indústria ao olival, do milho às hortícolas.
O termo abrange realidades muito diferentes, de extratos vegetais a algas, de ácidos húmicos a microrganismos. São estes últimos que têm ganho mais espaço, e a razão está na forma como atuam: instalam-se, multiplicam-se e acompanham a planta ao longo do ciclo, em vez de agirem apenas no momento da aplicação.
Ao contrário dos produtos de síntese, cuja eficácia depende muito da molécula aplicada, o desempenho de um microrganismo resulta da interação entre o organismo, a planta e o ambiente, razão pela qual o posicionamento agronómico assume um papel determinante. É também por isso que o mesmo produto pode dar respostas diferentes em duas parcelas vizinhas.
É também aqui que se percebe que nem todos os produtos formulados com microrganismos são equivalentes. Produzir um microrganismo com qualidade constante exige tecnologia específica, laboratório e anos de investigação. Cada lote tem de sair com a concentração indicada no rótulo e isento de contaminantes, e nem toda a multiplicação de microrganismos oferece essa garantia. A identificação ao nível da estirpe também não é só um pormenor de rótulo, duas estirpes da mesma espécie podem comportar-se de forma distinta no campo. Sempre que fazemos uma aplicação estamos a introduzir organismos vivos num ecossistema, e convém saber exatamente quais são e o que fazem.
O contributo destes produtos para a produção de alimentos mais saudáveis é, na minha opinião, o argumento mais forte a favor da sua utilização. Há hoje soluções de base biológica com eficácias elevadas e bem documentadas, o que lhes permitiu passar de complemento a integrar de forma mais consistente o plano de tratamentos. A sua ação pode ocorrer de diferentes formas: através da competição com o agente patogénico, da produção de compostos que inibem o seu desenvolvimento, do parasitismo ou da indução das defesas naturais da planta. As vantagens somam-se ao longo do ciclo, com menor pressão de doença, sem constrangimentos de intervalo de segurança junto à colheita e com uma alternância de modos de ação que ajuda a preservar as substâncias ativas que ainda temos.
Uma população microbiana diversa e equilibrada pode ser uma importante aliada da parcela, sobretudo onde a rotação é curta ou inexistente. Convém, ainda assim, não confundir estas vantagens com liberdade no momento de aplicação. Um antagonista instala-se antes de o problema surgir, e uma aplicação isolada e tardia poderá ter eficácia limitada.
Nada disto é experimental. No Brasil, dados divulgados pela Embrapa mostram que a área tratada com agentes de controlo biológico registados passou de cerca de 22 milhões de hectares em 2018 para mais de 56 milhões em 2024. O mais relevante não é a dimensão, mas o modelo. Nas explorações mais tecnificadas, os produtos biológicos deixaram de ser encarados como alternativa aos produtos de síntese e passaram a integrar a mesma estratégia de proteção das culturas, explorando as vantagens de cada solução no momento que oferecem maior valor. Creio que é esse o caminho aplicável às nossas explorações. Os produtos de síntese continuam a resolver situações que o biológico poderá não resolver sozinho, sobretudo perante pragas e doenças com pressões elevadas.
Subsistem reservas quanto à consistência dos resultados, e a discussão é legítima. A variabilidade existe e explica-se em boa parte pelo posicionamento, pelas condições à data da aplicação e pela articulação com o restante plano fitossanitário. É agronomia, e devolve peso à decisão técnica em vez de a substituir por uma receita.
Creio que uma estratégia integrada é o caminho realista para os produtores: solos mais equilibrados, plantas mais tolerantes ao stress térmico e hídrico, menor vulnerabilidade a pragas e doenças e, no final, alimentos mais saudáveis à mesa do consumidor. Muito disto já se pratica em Portugal e na Europa. Falta generalizar o conhecimento que o sustenta, e a esse tema vale a pena voltar.
Fontes consultadas
van Lenteren, J. C.; Bueno, V. H. P.; Bettiol, W. (2025). Latin America has the largest area under augmentative biological control worldwide, mainly with applications in open field crops. Biological Control, 207, 105827.
Regulamento (CE) n.º 1107/2009, relativo à colocação de produtos fitofarmacêuticos no mercado.
Regulamento (CE) n.º 396/2005, Anexo IV, substâncias ativas isentas de fixação de limite máximo de resíduo.
Afonso Pereira da Silva
Engenheiro agrónomo, trabalha em investigação & inovação e desenvolvimento de mercado em produtos de base biológica.















































