Dos trópicos de África ao deserto do Médio Oriente, Filipa Monteiro, investigadora auxiliar no ISA (LEAF), estuda como a agrobiodiversidade pode tornar a agricultura mais resiliente e sustentável, ajudando a valorizar e proteger culturas essenciais para milhões de pessoas em todo o mundo.

“A Guiné Bissau faz parte da minha vida, temos o que chamo de “Família do Caju- um conjunto de pessoas, histórias e afetos que se foram entrelaçando com o trabalho e com o quotidiano no terreno.”
Filipa Monteiro é investigadora auxiliar no LEAF/ISA, o centro de investigação multidisciplinar do ISA que liga paisagem, ambiente, agricultura e alimentação. Doutorada em Biologia, começou por estudar a interação planta-polinizador em sistemas naturais na zona mediterrânica, mas rapidamente se apaixonou pela Agronomia Tropical e tornou-se uma referência internacional nesta área.
Com sabor a arroz salgado, perfume de manga e gosto de caju, a conversa conduz-nos por cajueiros da Guiné-Bissau, arrozais de mangal e acácias do deserto saudita. É aí que Filipa Monteiro procura respostas para alguns dos desafios da agricultura do futuro.
O que a atraiu para investigar a agrobiodiversidade tropical e, em concreto, a cultura do caju na Guiné-Bissau?
Durante o meu doutoramento colaborei com a minha colega Maria Manuel Romeiras, Professora Associada no ISA, na identificação e caracterização de recursos genéticos vegetais para a alimentação em Cabo Verde, e o meu colega Luís Catarino, Investigador Auxiliar da Faculdade de Ciências (cE3c), que sempre trabalhou na Guiné-Bissau, e um dia disse-me “a cultura do caju está com um problema grande, que não sei qual é, e não está a produzir tanto”. Dessa nossa conversa, em 2013, resultou a submissão de um projeto à Fundação para a Ciência e Tecnologia, e tendo sido aprovado e 2016, foi o início da minha jornada na Guiné-Bissau, juntamente com os dois colegas, e o começo de uma colaboração com a Divisão de Serviços de Proteção Vegetal e o Instituto Nacional de Pesquisa Agrária (INPA), ambos do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MADR) da Guiné-Bissau, que perdura até hoje.
Afinal qual é o problema que afeta a cultura do caju na Guiné-Bissau?
Para responder a essa questão, trabalhámos durante cerca de 6 anos a percorrer a Guiné-Bissau para identificar o que estava a afetar a produção do cajueiro, de norte a sul, este e oeste, incluindo o arquipélago das Bijagós, que foi reconhecido como Património Mundial Natural pela UNESCO, em julho de 2025. Caminho esse feito com vários investigadores, técnicos e agricultores da Guiné-Bissau. Durante os vários percursos, muitas vezes desafiantes devido às más condições das estradas e às travessias em pirogas em alto mar, sempre em boa companhia, em mais de três ou quatro horas de deslocação, o que mais guardo na memória é a generosidade dos agricultores com quem trabalhamos. No final do nosso trabalho de campo, muitos fazem questão de preparar e partilhar uma refeição connosco, apesar das suas próprias limitações. Não há recompensa maior do que esta demonstração de generosidade e de gratidão.

Cajueiro (árvore), com a maçã (a vermelho) e castanha de caju e trabalho nos pomares de caju com os parceiros guineenses.
Qual é a relevância da cultura do caju na economia guineense?
A Guiné-Bissau está entre os 10 maiores produtores mundiais de caju e é o 5º maior produtor na África Ocidental. O cajueiro é uma cultura de rendimento (cash crop), representa cerca de 40% a 50% do rendimento anual dos guineenses e 80% a 90% das exportações agrícolas da Guiné-Bissau. É também uma fonte de rendimento governamental.
A qualidade da castanha de caju guineense é muito reconhecida pelo mercado internacional, mas infelizmente o seu valor e a sua origem perdem-se na cadeia de valor, uma vez que que a castanha de caju é exportada in natura, maioritariamente para o Vietnam e a Índia, e as mais-valias ficam com quem a processa e comercializa. Existe pouca transformação da castanha no país, apesar de ter um enorme potencial comercial para o País.
O pseudofruto do caju – a maçã que se encontra juntamente com a castanha – está subaproveitado, por questões muitas vezes étnico-religiosas, porque a maçã fermenta e torna-se alcoólica. Mas tem um enorme potencial a nível alimentar e até comercial, através de sumos, compostas e outras formas de transformação. Inclusive algumas cooperativas locais estão a fazer compotas e sumos a partir da maçã para mercado interno, com a perspetiva de um dia poder ser exportado, apesar das limitações atuais para esse efeito.
Voltando aos problemas que afetam o cajueiro na Guiné Bissau…
É considerado um sistema semi-natural, dado à baixa aplicação de práticas agrícolas ao longo do ano. Existem várias questões complexas nesta cultura atualmente no país, nomeadamente a idade avançada dos pomares fora da idade produtiva, torna-os mais suscetíveis a pragas e doenças. Existe pouca diversidade dentro do ecossistema agrícola, sendo um sistema de monocultura com espaçamento entre árvores muito próximo. Identificámos a doença da resinose como o principal problema do cajueiro, que se manifesta como exsudação e cancros no tronco do cajueiro e conduz à morte da planta. É uma doença originada por um fungo, e quando se observam sintomas é bastante difícil implementar medidas de mitigação, estamos a tentar identificar variedades/plantas com tolerância e, ao mesmo tempo, produtivas. Outra doença com importância, principalmente nas regiões do Sul, é a antracnose, doença que afeta diretamente os frutos (castanhas) mumificando-os na própria árvore, e entre as pragas, as brocas do tronco e ramos lenhosos, furam a árvore e provocam bastantes danos. Nas regiões costeiras, ocorre um problema causado por uma planta hemiparasita, de nome local Pó-fidalgo (Tapinanthus bangwensis), que enfraquece o cajueiro, podendo matar a planta na sua totalidade.
Existem assim muitos desafios atuais para assegurar a produção sustentável do cajueiro na Guiné-Bissau em termos de pragas, doenças e práticas agrícolas conducentes à sustentabilidade, no qual estamos a trabalhar em conjunto com os parceiros guineenses do MADR com uma forte componente de extensão rural junto das comunidades rurais agrícolas.
Qual é a relevância do vosso trabalho na melhoria da cultura do cajueiro?
No âmbito de um projeto de cooperação técnico-científico, financiado pela FAO (Delegação da Guiné-Bissau), foram elaborados vários documentos técnicos para o estudo do agroecossistema do cajueiro, e particularmente a realização do ‘Guia de Identificação de Doenças e Pragas do Cajueiro na Guiné Bissau’ (https://www.researchgate.net/publication/378012293_Guia_de_identificacao_de_doencas_e_pragas_do_cajueiro_na_Guine-Bissau), que resultou do trabalho desenvolvido por 40 pessoas, em três regiões agroecológicas da Guiné-Bissau – norte, sul e leste -; criámos manuais de procedimentos de campo, de laboratório, de colheitas de amostras, e capacitámos os técnicos do laboratório nacional de Proteção Vegetal da Guiné-Bissau, incluindo na formação avançada ao nível do mestrado, e atualmente com 2 alunos estão a realizar os seus trabalhos de Doutoramentos no ISA.
Graças ao trabalho desenvolvido, as instituições governamentais e não governamentais sabem o que existe, e onde existe, no terreno e estão capacitadas para fazer uma extensão rural mais informada e dirigida para os problemas fitossanitários a nível regional. A Direção de Serviços de Proteção Vegetal da Guiné Bissau tem feito um trabalho espetacular nesse sentido, apoiando os agricultores a mitigar os problemas com soluções naturais. Mais recentemente, temos desenvolvido esforços conjuntos na capacitação da identificação das melhores castanhas de caju em cada região, passo essencial para a seleção das plantas mais produtivas (e adaptadas) a nível regional, para posterior implementação de renovação de pomares de caju.

Guia de Identificação de Doenças e Pragas do Cajueiro na Guiné Bissau’ desenvolvido pela equipa de Filipa Monteiro e publicado pela FAO
Atualmente, qual é o objetivo do seu estudo?
Atualmente, a minha área de atividade consiste na identificação e caracterização das variedades de caju na Guiné-Bissau, com vista ao aumento do valor comercial da castanha, bem como na identificação das variedades mais produtivas e adaptadas às condições ecológicas das várias regiões, tolerantes às principais doenças do cajueiro. Igualmente, estudamos medidas de mitigação e controlo de pragas e doenças, envolvendo práticas agrícolas, diversificação do agroecossistema e plantas existentes na comunidade que possam ser usadas como repelentes com ação inseticida, sempre em estreita articulação com os investigadores da INPA. Pretendemos que o sistema de produção orgânico do caju seja preservado.
Ação de capacitação e formação com os parceiros guineenses e cooperativas
Olhando para a biotecnologia atual, que potencial oferecem as NGTs para acelerar o melhoramento destas variedades tradicionais africanas?
Um consórcio liderado pelo ICAR-Directorate of Cashew Research (ICAR-DCR) na Índia, realizou a primeira sequenciação do genoma do cajueiro em outubro de 2022; e no ISA, estamos a proceder à sequenciação de variedades de caju provenientes da Guiné-Bissau, com o objetivo de caracterizar a sua diversidade genética e comparar esses genomas com o genoma de referência existente. Esta abordagem permite identificar variantes genéticas associadas a características de interesse agronómico, nomeadamente a qualidade da castanha e da maçã do caju, bem como a resistência ou tolerância a pragas e doenças. Com base na análise genómica e na associação genótipo-fenótipo, é possível identificar genes candidatos relevantes para estas características. A identificação desses genes abre caminho à sua utilização em estratégias de melhoramento mais dirigidas, incluindo a aplicação de novas técnicas genómicas (NGTs), como edição génica baseada em CRISPR, permitindo alterações precisas em genes associados a características agronomicamente favoráveis.
O ISA é coordenador científico do projeto ‘Agronegócio – valorização das cadeias de valor na Guiné-Bissau’ liderado pelo Instituto Camões. Fale-nos deste novo projeto…
É um projeto de cooperação técnico-científica financiado pela União Europeia (Delegação da Guiné-Bissau) liderado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., sendo o ISA o coordenador científico nas cadeias de valor da Agricultura focado em manga, arroz e caju. Um projeto essencial para a valorização dos principais produtos agrícolas na Guiné-Bissau, em estreita colaboração com as Instituições Governamentais, associações de agricultores, comunidades locais e outros atores da cadeia de valor, que contempla ações desde a produção, à transformação e comercialização.
No caso do caju, os objetivos incluem a multiplicação de variedades tolerantes, a instalação de novos pomares e renovação dos pomares não produtivos, e a transformação da castanha e do pseudofruto (maçã), aumentando o valor acrescentado para as comunidades rurais e todos os atores envolvidos na cadeia do valor do caju.
Na manga, a valorização de variedades nativas na promoção da transformação do fruto, no desenvolvimento de estratégias de controlo das moscas da fruta que impedem a exportação de mangas para o mercado europeu, serão áreas de ação essenciais tendo em conta igualmente o papel importante que a manga tem em termos de segurança alimentar sazonal do país.
No arroz, cultura base da dieta guineense, em que a sua produção não satisfaz a necessidade de autoconsumo, sendo necessária a importação, pretende-se consolidar e potenciar iniciativas, que possam originar aumentos expressivos e sustentáveis na produção deste bem alimentar, nomeadamente em arroz de terras baixas (bas-fond, em crioulo) e de mangal. No caso particular de arroz de mangal, destaca-se ainda o projeto DeSIRA-Malmon (https://www.malmon-desira.com), coordenado pela Investigadora do ISA, Marina Temudo, o qual foi igualmente financiado pela União Europeia, e a sua excelente execução e resultados são de extrema importância à continuidade de ações de valorização deste tipo de produção de arroz tão peculiar e único na Guiné-Bissau, e na África Ocidental.
O ISA é uma instituição de referência, muito reconhecida em África, e essa herança sente-se, quando estou a trabalhar na Guiné-Bissau, ou noutros Países Africanos de Língua Portuguesa, como Cabo Verde, Angola ou São Tomé e Príncipe, sente-se a responsabilidade de representar uma instituição como o ISA, e o reconhecimento como referência mundial em investigação tropical.

Arrus di Guiné-Bissau’ é uma marca que identifica o arroz produzido na Guiné-Bissau, um alimento essencial na cultura e tradição do país. Com mais de 90.000 produtores locais, a produção de arroz desempenha um papel fundamental na economia e na segurança alimentar do país.
Acredita que o futuro agrícola de África está na Agroecologia?
A Agroecologia é uma prática milenar nos sistemas agrícolas africanos. Por exemplo, em Cabo Verde, à volta do milho cultivam-se várias espécies de feijão, adaptadas a condições de seca, para ajudar na retenção de água e na fertilização do solo. Não é um acaso que a cachupa tem milho e feijão. Esta relação entre a agricultura e os processos ecológicos sempre existiu e faz parte do conhecimento tradicional das comunidades.
Por isso, acredito que a agroecologia tem um papel fundamental no futuro da agricultura em África. O desafio está em conciliar estes princípios com a inovação científica e tecnológica, promovendo sistemas mais biodiversos, resilientes e menos dependentes de uma única cultura de rendimento.
Na minha opinião, o futuro da agricultura em África dependerá da capacidade de conciliar produtividade, sustentabilidade, conservação dos recursos naturais e criação de rendimento para as comunidades rurais.
Já fez investigação na Arábia Saudita. Como foi essa experiência?
Colaborei há cerca de dois anos com o InBIO/CIBIO – Centro de Investigação de Biodiversidade e Recursos Genéticos, no estudo de problemas fitossanitários em acácias em zonas protegidas na região de Al-Ula, no noroeste da Arábia Saudita, num sistema de deserto, liderado pela Investigadora Leili Khalatbari (CIBIO, Porto). Ficávamos 4 ou 5 dias a acampar no deserto, sem acesso a rede móvel e trabalhávamos no campo com mais de 40.ºC. Situações muito desafiantes, tal como na Guiné-Bissau, mas totalmente distintas. Foi um desafio profissional, dada a minha experiência focada nos sistemas tropicais, mas bastante enriquecedora uma vez que trabalhei com colegas que avaliaram a biodiversidade animal, nomeadamente, em répteis, mamíferos, aves, com os quais aprendi imenso. A dinâmica de trabalho era estimulante, pois enquanto eles trabalhavam de noite, eu trabalhava de dia, com um calor abrasador, uma vez que envolvia o trabalho de campo com observação de plantas durante o dia. Continuamos a colaborar e a desenvolver investigação na identificação dos agentes biológicos responsáveis pelo declínio das acácias em zonas protegidas na região de AlULa, Royal Comission for AlULa (RCU), na Arábia Saudita.
Numa das campanhas de trabalho no deserto, estivemos cinco dias sem rede de telemóvel. Nesse período, ocorreram os ataques de 7 de outubro de 2023 a Israel, sem que tivéssemos qualquer acesso à informação. Apenas quando recuperámos a ligação à rede é que tomámos conhecimento do que tinha acontecido. Esse momento foi revelador: no trabalho de campo, muitas vezes em contextos de isolamento, percebe-se de forma muito concreta que o mundo continua a acontecer independentemente da nossa presença ou do nosso acesso imediato à informação.
É precisamente nestes contextos que a resiliência se torna essencial: a capacidade de manter o foco, de continuar a trabalhar em condições exigentes e de lidar com a incerteza. O trabalho de campo exige não só rigor científico, mas também equilíbrio emocional e uma grande capacidade de adaptação com sentido de dever.
Com a sua visão de dois continentes – Europa e África – como vê o papel das mulheres no futuro da Agricultura e Alimentação?
No continente europeu as mulheres dão um contributo bastante grande no contexto de investigação e no âmbito da produção de rendimento, têm uma visão mais abrangente. No continente africano, predomina a agricultura familiar, onde as mulheres têm um papel estruturante: trabalham a terra, asseguram a produção e a comercialização e são fundamentais para a segurança alimentar das famílias. A mulher rural africana tem, por isso, uma importância central que deve ser plenamente reconhecida e valorizada. A decisão da FAO de declarar 2026 como o Ano Internacional da Mulher Rural poderá contribuir para reforçar essa visibilidade. Durante o meu percurso, nem sempre foi fácil ser ouvida no início, mas, com o tempo, o trabalho consistente, a persistência e o respeito mútuo foram abrindo espaço. Essa experiência reforçou em mim uma convicção profunda: a ciência e o desenvolvimento só fazem sentido quando são construídos em diálogo com as pessoas e enraizados na realidade local.
Fonte: ISA













































