A área rewilding do Vale Carapito, no concelho do Sabugal, foi reconhecida como Área Protegida Privada (APP), tornando-se apenas a quinta área em Portugal a obter este estatuto de conservação. A decisão representa um marco para a conservação de iniciativa privada da natureza no país e para o desenvolvimento do rewilding enquanto ferramenta de restauro ecológico.
A área rewilding do Vale Carapito, localizada em Vilar Maior, no concelho do Sabugal, foi reconhecida como Área Protegida Privada (APP), passando a integrar a Rede Nacional de Áreas Protegidas. Trata-se apenas da quinta área em Portugal a receber esta classificação, um estatuto que reconhece oficialmente o seu valor para a conservação da natureza e assegura a preservação dos seus valores naturais a longo prazo.
Uma Área Protegida Privada é uma área dedicada à conservação da natureza detido por particulares ou entidades privadas, reconhecido oficialmente pelo Estado. Criada por iniciativa voluntária dos proprietários, esta figura permite garantir a proteção da biodiversidade, da fauna, da flora e do património geológico, sem que a propriedade deixe de ser privada. A classificação assegura ainda que a vocação de conservação da área se mantém no futuro, mesmo em caso de transmissão da propriedade, promovendo uma gestão sustentável compatível com atividades como o ecoturismo ou a agricultura sustentável.
O Vale Carapito foi a primeira área rewilding da Rewilding Portugal, adquirida em 2020 com o objetivo de demonstrar no terreno o potencial do rewilding para recuperar ecossistemas, restaurar processos naturais e promover o regresso da vida selvagem à região e às suas paisagens. Atualmente, a área designada como APP tem 48 hectares contínuos junto a Vilar Maior, inseridos na Zona Especial de Conservação (ZEC) da Malcata e numa zona de elevada importância para a conectividade ecológica do Grande Vale do Côa.
Desde o início da sua gestão, o Vale Carapito tem funcionado como uma área demonstrativa de restauro ecológico, numa escala mais pequena e que tem sido replicada em outras áreas rewilding de maiores dimensões com muito sucesso. Entre as principais ações desenvolvidas destacam-se a promoção da regeneração natural da vegetação, a recuperação de habitats ribeirinhos, a criação e ampliação de charcos para anfíbios e outras espécies dependentes de corpos de água, a introdução de cavalos Sorraia para recuperar processos naturais de herbivoria e pastoreio natural, a monitorização contínua da biodiversidade e a eliminação de atividades extrativas.
Os resultados alcançados refletem-se numa elevada diversidade biológica já identificada no local. O Vale Carapito possui registos de centenas de espécies, abrangendo 172 plantas, 253 insetos, e 147 vertebrados, e incluindo espécies de elevado valor de conservação como é o caso do abutre-preto, o milhafre-real, a lontra e várias espécies de morcegos protegidos.
Mais do que proteger espécies e habitats, o trabalho desenvolvido nesta área procura restaurar os processos ecológicos que sustentam os ecossistemas. Este é um dos princípios centrais do rewilding: devolver espaço à natureza para que esta possa recuperar a sua capacidade de autorregulação, tornando as paisagens mais capazes de responder às alterações climáticas, aos incêndios rurais e à perda de biodiversidade.
O reconhecimento do Vale Carapito como Área Protegida Privada constitui também um importante sinal de maturidade para o rewilding em Portugal. Ao mesmo tempo que este estatuto reforça a proteção legal da área e garante a permanência dos seus objetivos de conservação, demonstra igualmente como a abordagem rewilding pode contribuir para os objetivos nacionais de conservação da natureza, complementando os modelos tradicionais de gestão de áreas protegidas.
“A classificação do Vale Carapito como Área Protegida Privada demonstra que o rewilding está a afirmar-se como uma ferramenta credível e eficaz para a recuperação da natureza em Portugal”, afirma Pedro Prata, Diretor Executivo da Rewilding Portugal. “Este reconhecimento deixa-nos naturalmente satisfeitos, mas também reforça a nossa ambição. Queremos que mais áreas rewilding possam seguir este caminho, aumentando a superfície de território protegido e em restauro ecológico. Num contexto de crise da biodiversidade, precisamos de mais espaços onde a natureza possa recuperar os seus processos naturais e voltar a prosperar.”
Para a Rewilding Portugal, esta classificação representa um passo decisivo numa estratégia mais ampla de consolidação de uma rede de áreas-chave para a recuperação da vida selvagem no Grande Vale do Côa. A organização pretende avançar futuramente com o reconhecimento de outras áreas rewilding através do mesmo estatuto, reforçando o papel da conservação privada na proteção e recuperação da natureza em Portugal.
O reconhecimento do Vale Carapito ganha particular relevância por ocorrer num contexto em que as Áreas Protegidas Privadas continuam a ser uma figura ainda pouco utilizada no país. Sendo apenas a quinta APP reconhecida a nível nacional, esta classificação demonstra o potencial deste instrumento para mobilizar proprietários, organizações da sociedade civil e investidores da natureza para a conservação da biodiversidade e para a recuperação de ecossistemas degradados.
Este reconhecimento representa um marco histórico não apenas para o Vale Carapito, mas também para a afirmação da conservação privada e do rewilding em Portugal. Para que a classificação comece a produzir efeitos legais, falta apenas a assinatura do contrato de gestão com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a sua posterior publicação em Diário da República.
Fonte: Rewilding Portugal













































