Depois de dar origem ao biofungicida ProBlad, hoje produzido em Portugal e exportado para vários mercados internacionais, a investigação do Instituto Superior de Agronomia sobre proteínas bioativas do tremoço continua a gerar novas aplicações. A mais recente centra-se na deflamina, uma proteína patenteada pelo ISA que revela potencial para o desenvolvimento de alimentos funcionais e de novas estratégias de prevenção e tratamento de doenças do intestino e várias outras.

Sementes germinadas de tremoço doce de onde se extrai a proteína BLAD.
Liderada por Ricardo Boavida Ferreira, professor catedrático do ISA, esta linha de investigação deu origem a várias patentes associadas a proteínas bioativas do tremoço e de outras fontes e continua a abrir novas oportunidades de aplicação na agricultura, na alimentação e na saúde.
A primeira grande inovação desta linha de investigação foi a BLAD, uma proteína descoberta acidentalmente no ISA, em 1991, durante o estudo proteómico da germinação do tremoço doce (Lupinus albus). A sua aplicação deu origem ao ProBlad, um biofungicida biológico produzido pela empresa CEV, em Cantanhede, e atualmente exportado para vários países da Europa, bem como para os Estados Unidos da América e o Japão.

Ricardo Boavida Ferreira é investigador na área da Proteómica desde 1978.
“Apesar de ser inócua para Homem, animais e plantas, a BLAD tem uma eficácia comparável à dos melhores fungicidas químicos disponíveis no mercado. Além disso, apresenta atividade contra algumas bactérias e funciona como um forte bioestimulante para as plantas. Há 35 anos que estudamos a BLAD e continuamos a descobrir novas potencialidades nesta proteína, ela é espantosa. Tem um mecanismo de ação multialvo, menos propenso ao desenvolvimento de resistências, e é comestível”, afirma Ricardo Boavida Ferreira, que trabalha em Proteómica desde 1978.
Deflamina abre caminho a alimentos funcionais
Mas a investigação não terminou aí. O trabalho desenvolvido ao longo das últimas décadas permitiu identificar outras proteínas bioativas com potencial de aplicação, entre as quais se destaca a deflamina, presente nas sementes secas de tremoço, grão-de-bico, soja e outras leguminosas.

A deflamina, uma proteína extraída do tremoço seco, poderá ser usada em alimentos funcionais benéficos para o intestino.
“A deflamina não é destruída pela fervura nem pelo aparelho digestivo, quando a ingerirmos, passa para o intestino, sem ser absorvida para a corrente sanguínea, e tem potencial para a prevenção e tratamento de doenças inflamatórias do intestino e do cancro colorretal, resultados que terão agora de ser validados clinicamente”, afirma Ricardo Boavida Ferreira.
Em colaboração com o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM), os investigadores do ISA testaram o efeito da deflamina em peixes-zebra xenotransplantados com células de cancro do cólon humano. Os tumores ficaram reduzidos a um quarto do tamanho relativamente ao controlo. “Tão ou mais importante do que esse resultado, foi a observação de que a deflamina não mata as células de cancro em cultura, mas mata as células de cancro num tumor”, explica o investigador. Estudos anteriores realizados em diversas instituições nacionais e estrangeiras com ratinhos de laboratório tinham apontado para resultados semelhantes.
O objetivo dos investigadores é desenvolver alimentos funcionais enriquecidos com deflamina e o próximo passo será a realização de ensaios clínicos em que os participantes integrem na sua dieta extratos de sementes contendo esta proteína, incorporados em sopas e outros alimentos, para avaliar o seu potencial na prevenção e tratamento de doenças inflamatórias e do cancro do intestino.
Duplibióticos: novas soluções para a agricultura sustentável
Outra linha de investigação da equipa de Ricardo Boavida Ferreira visa a obtenção de pré-bióticos, pró-bióticos e duplibióticos, extraídos de alimentos e aditivos alimentares, para melhorar a saúde das plantas e a qualidade pós-colheita de frutos.
“Com estas substâncias prevemos, por exemplo, tratar Phytophthora em sobreiros, já fizemos ensaios in vitro, em estufa e em populações florestais, e obtivemos resultados muito positivos. Por outro lado, estamos a testar a sua aplicação em frutos vermelhos para aumentar a vida de prateleira”, revela Ricardo Boavida Ferreira.
Os duplibióticos são substratos específicos de origem vegetal, como alguns polifenóis, que modulam a microbiota das plantas e dos animais, reforçando os seus mecanismos de defesa.
As diferentes linhas de investigação passarão a contar com o apoio do novo Laboratório Interdisciplinar para a Inovação em Sistemas Agroalimentares, atualmente em construção no ISA. Está também prevista a criação de uma spin-off dedicada ao desenvolvimento de produtos e à valorização das tecnologias patenteadas, reforçando a transferência de conhecimento para o tecido empresarial e para a sociedade.
Fonte: ISA













































