A agricultura em Moçambique concentra cerca de três quartos da força de trabalho, “mas gera aproximadamente um quarto do valor acrescentado da economia”, disse hoje o ministro da Planificação e Desenvolvimento, na apresentação de um livro sobre o setor.
Salim Valá falava no lançamento do livro “Agricultura e Transformação Económica em Moçambique: Evidências, Políticas e Caminhos para o Desenvolvimento”, em Maputo, que reúne resultados de cerca de uma década de investigação sobre os desafios e as oportunidades do setor agrário.
Na sua apresentação, o ministro defendeu investimentos em tecnologia, mecanização, irrigação e assistência técnica, bem como instrumentos de financiamento e gestão de riscos adaptados à realidade dos pequenos produtores.
Entre os dados hoje apresentados, destaca-se o facto de que apenas 0,2% das pequenas e médias explorações agropecuárias moçambicanas tiveram acesso a crédito agrícola, enquanto 6,2% recorrem à rega.
Valá recordou que os dados do terceiro Censo Agropecuário de 2023–2024, do Instituto Nacional de Estatística (INE), indicam ainda que 9,3% das explorações utilizam fertilizantes, 6,7% beneficiam de serviços de extensão rural e 1,7% utilizam tratores, enquanto 59,9% recorrem a carteiras móveis (serviços bancários prestados via telemóvel).
Destacou que Moçambique dispõe de cerca de 36 milhões de hectares de terra arável, dos quais aproximadamente três milhões são considerados irrigáveis, mas apenas perto de 50 mil são efetivamente irrigados, e que a taxa média de comercialização por agregado familiar agrícola ronda os 12%, refletindo o predomínio da produção orientada para o autoconsumo.
“A agricultura é um motor que já temos ligado”, afirmou, pedindo uma maior articulação entre a produção agrícola, a indústria, o comércio e os mercados para transformar o potencial do país em produtividade, rendimentos e oportunidades económicas.
Desenvolvida em parceria com o International Growth Centre (IGC) e o Instituto de Cereais de Moçambique (ICM), a obra lançada hoje reúne contributos de 15 investigadores sobre produtividade, financiamento, mercados, cadeias de valor, industrialização e resiliência climática. O livro procura aproximar a investigação científica das decisões de política pública e identificar medidas para impulsionar a transformação económica.
Alberto da Cruz, um dos autores, explicou que na investigação procuram identificar os obstáculos que impedem a transformação do potencial agrícola em crescimento económico e industrialização, apontando constrangimentos relacionados com infraestruturas, informação estatística e ligação entre as zonas de produção e os mercados.
“O problema não é do potencial, porque o país tem esse potencial”, afirmou, destacando o caso do feijão-bóer, cujo preço ao produtor terá caído de 45 para cinco meticais (0,62 para 0,07 euros) por quilograma num ano. O exemplo ilustra os riscos da concentração das exportações num único mercado e a necessidade de diversificar os destinos comerciais e desenvolver o processamento nacional, disse.
Egas Daniel, organizador e apresentador da obra, defendeu uma abordagem coordenada para enfrentar os constrangimentos do setor, sublinhando que o acesso ao crédito, por si só, não resolve as dificuldades de transporte, armazenamento, comercialização e proteção contra riscos climáticos.
“O agricultor não é irracional”, afirmou, argumentando que os produtores podem limitar a produção perante riscos elevados, falta de garantias de escoamento e ausência de seguros agrícolas adequados. Na obra, defende-se, por isso, a articulação entre políticas públicas, investimento privado e investigação para aumentar a produtividade e integrar os pequenos produtores nas cadeias de valor.













































