As alterações climáticas estão a favorecer a expansão das doenças do cafeeiro, colocando em risco a subsistência de milhões de pequenos agricultores. Integrado no Instituto Superior de Agronomia, desde 2015, o Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC) apoia os principais países produtores de café, como o Brasil e a Colômbia, no desenvolvimento de variedades resistentes.
O legado que mudou a cafeicultura mundial
Atualmente, mais de 90% das variedades de cafeeiro resistentes à ferrugem alaranjada cultivadas no mundo são derivadas do ‘Híbrido de Timor’ (HDT), uma população de cafeeiro descoberta pelo Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC), no final dos anos 1950.
Este centro, integrado no ISA, em Lisboa, cruzou o ‘Híbrido de Timor’ com variedades comerciais com boas características agronómicas e elevada qualidade de bebida, embora suscetíveis à doença, e disponibilizou a todas as instituições que as solicitaram as variedades Catimor (Caturra × HDT CIFC 832/1) e Sarchimor (Villa Sarchi × HDT CIFC 832/2).
“Este foi sem dúvida um marco histórico, uma contribuição de valor incalculável para a sustentabilidade da cafeicultura mundial, com impacto direto na melhoria do rendimento dos agricultores”, afirma Maria do Céu Silva, coordenadora do CIFC, recentemente reconhecido como Unidade de Apoio Tecnológico do Instituto Superior de Agronomia (ISA).
A cafeicultura é o meio de subsistência de 25 milhões de agricultores, 80% dos quais são pequenos produtores, segundo dados da FAO.

O CIFC é uma marca muito reconhecida no mundo do café além-fronteiras e esta é a atual equipa do CIFC.
O CIFC, fundado em 1955 pelo reconhecido fitopatologista António Branquinho D’Oliveira, conquistou o estatuto de referência mundial no estudo das principais doenças do cafeeiro – a ferrugem alaranjada e a antracnose dos frutos verdes -, colaborando com centros de investigação de mais de 40 países produtores de café na América, África e Ásia, no desenvolvimento de cultivares com resistência duradoura a estas doenças.
O CIFC detém um valioso património de coleções de germoplasma de cafeeiro e de isolados dos fungos causadores da ferrugem alaranjada (Hemileia vastatrix) e da antracnose dos frutos verdes (Colletotrichum kahawae), provenientes de diversas regiões geográficas.
Na Colômbia, 88% das variedades de cafeeiro cultivadas são derivadas do Híbrido de Timor CIFC 1343, resultado direto da colaboração com o CIFC e com impacto em mais de 500 mil famílias produtoras.
“Quando a ferrugem alaranjada foi detetada na Colômbia, em 1983, o país já tinha a variedade Colômbia resistente no campo e não sofreu grandes danos, graças à colaboração com o nosso Centro, que se iniciou nos anos 70. Atualmente, estamos a colaborar no desenvolvimento de variedades resistentes à antracnose dos frutos verdes que afeta o cafeeiro Arábica, sobretudo a elevada altitude”, explica Maria do Céu Silva.

Plantas de cafeeiro derivadas do ‘Hibrido de Timor’ do CIFC/ISA. A coleção de plantas do CIFC/ISA reparte-se por várias estufas localizadas em Lisboa, no Jardim Botânico da Ajuda e na Tapada da Ajuda, para onde serão transferidas em breve as plantas que ainda se encontram na Quinta do Marquês, em Oeiras.
Anualmente, o CIFC avalia a resistência de milhares de plântulas obtidas a partir de sementes enviadas pelo Cenicafé (Centro Nacional de Investigaciones de Café), na Colômbia, que visa antecipa-se a uma eventual introdução do patógeno causador da antracnose dos frutos verdes no país.

Placa de reconhecimento do trabalho do CIFC atribuída pelo Cenicafé- Centro Colombiano de Investigação do Café durante a 30th ASIC Conference on Coffee Science, realizada em Lisboa, em outubro de 2025.
Também na China, 13º produtor mundial e 6º consumidor de café, cerca de 90% do cafeeiro Arábica deriva de plantas do ‘Híbrido de Timor’ caracterizadas no CIFC.
O reconhecimento internacional do CIFC estende-se também à indústria. O mais recente exemplo é a sua colaboração com a italiana Illycaffè, no âmbito da qual foi efetuada a sequência do genoma do Híbrido de Timor CIFC 832/2 usado como fonte de resistência na variedade Sarchimor.
Novos desafios para a cafeicultura mundial
Atualmente, o CIFC/ISA está a estudar o efeito das alterações climáticas na expressão da resistência do cafeeiro à ferrugem alaranjada e na virulência do fungo para apoiar a criação de variedades mais resilientes.
Na última década, sobretudo devido ao aumento da temperatura, a ferrugem alaranjada do cafeeiro expandiu-se para zonas de maior altitude na América Central, nas Caraíbas e em África, havendo registos de ocorrências acima dos 1600m na Colômbia, onde não era habitual. Este fungo é viável entre 15ºC e 30ºC, com um ótimo de desenvolvimento entre 21 °C e 25 °C.
Esta nova epidemia na América Central e nas Caraíbas, designada como ‘big rust’, tem causado perdas de várias centenas de milhões de dólares, com consequências sociais extremamente graves.
“Começámos a estudar o efeito de alguns fatores associados às alterações climáticas numa variedade resistente à ferrugem cultivada no Brasil, e submetemos um projeto em colaboração com o Instituto Agronómico de Campinas para validação dos resultados em condições de campo”, refere a investigadora.
A própria área de cultivo do cafeeiro a nível mundial poderá reduzir-se e deslocar-se devido às alterações climáticas. Um estudo recente da organização científica ‘Climate Central’ estima que as alterações climáticas poderão reduzir a área global adequada para o cultivo do café em cerca de 50%, em todos os cenários de emissões, até 2050.
Clima altera o tipo de café que bebemos
As alterações climáticas também podem influenciar o tipo e a qualidade do café que bebemos. “O futuro do café poderá passar cada vez mais pelo uso de variedades derivadas de Robusta (Coffea canephora). Esta espécie é, em geral, mais resistente a doenças e mais resiliente às alterações climáticas, mas está associada a uma bebida de menor qualidade e a um maior teor de cafeina”, refere a investigadora.
Há cerca de 40 anos a produção mundial de café dividia-se em 75% Arábica e 25% Robusta, atualmente, o ratio já é 53% Arábica e 47% de Robusta. Entretanto, os cientistas estão a trabalhar no melhoramento da qualidade da bebida do café Robusta.
O futuro do café passa pela investigação
No contexto dos crescentes desafios à produção mundial de café, incluindo as alterações climáticas e a perda progressiva de resistência à ferrugem em algumas variedades derivadas do Híbrido de Timor, o legado científico e o conhecimento acumulado ao longo de sete décadas pelo CIFC/ISA continuam a constituir uma ferramenta essencial para apoiar o desenvolvimento de cultivares mais resilientes e a sustentabilidade da cafeicultura.
O CIFC desenvolve as suas atividades em estreita articulação com o centro de investigação LEAF-ISA, o que tem permitido reforçar a colaboração multidisciplinar, a captação de financiamento e o acesso a novas tecnologias, como a genómica.
“Da parte do Conselho de Gestão do ISA, liderado pelo professor António Guerreiro de Brito, houve a preocupação de tornar o trabalho do CIFC visível”, reconhece Maria do Céu Silva.
Fonte: ISA














































