A escassez global de fertilizantes causada por perturbações no Estreito de Ormuz deverá reduzir produtividades agrícolas e pressionar o abastecimento alimentar na segunda metade de 2026 e em 2027, alertou o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Qu Dongyu.
A posição foi transmitida durante a reunião ministerial dos países MED9++ dedicada ao tema “Apoiar a segurança alimentar e o acesso a fertilizantes”, coorganizada pela FAO, Itália e Croácia, em Roma. O encontro reuniu ministros e representantes de mais de 40 países mediterrânicos, países parceiros e organizações.
Perante os participantes, Qu Dongyu afirmou que a atual crise ultrapassa a dimensão geopolítica e está a afetar a produção alimentar, o comércio, os fatores de produção agrícola e o acesso a alimentos a nível global.
“Reunimo-nos num momento de profunda pressão”, afirmou o diretor-geral da FAO. “Esta não é apenas uma crise geopolítica, mas também uma perturbação no centro do sistema agroalimentar global”, sublinhou.
Segundo Qu Dongyu, o Estreito de Ormuz tem importância estratégica para os mercados internacionais, uma vez que, em condições normais, assegura fluxos relevantes de petróleo, gás natural liquefeito, enxofre e fertilizantes. As perturbações no transporte marítimo através deste corredor estão já a restringir os mercados de fertilizantes e a aumentar os custos energéticos, com possíveis consequências para a produção agrícola e os preços dos alimentos.
“A agricultura funciona dentro de um calendário cultural que não pode ser adiado”, afirmou. “Os fertilizantes têm de ser aplicados em momentos específicos do ciclo das culturas. Se não chegarem a tempo, as produtividades diminuem, independentemente do que aconteça depois”, concluiu o responsável.
O diretor-geral da FAO acrescentou que um atraso de algumas semanas pode levar os agricultores a reduzir a utilização de fertilizantes ou a abandonar a aplicação. De acordo com Qu Dongyu, os impactos atuais não se limitam aos preços imediatos, sendo transmitidos às colheitas seguintes e podendo apertar a oferta alimentar na segunda metade de 2026 e em 2027.
A FAO considera que a situação é particularmente preocupante por coincidir com períodos críticos de sementeira e fertilização em importantes regiões produtoras. Os países dependentes de importações em África, na Ásia e em partes do Médio Oriente estão entre os mais expostos, sobretudo os que já enfrentam insegurança alimentar aguda, fragilidade económica ou choques relacionados com o clima.
Qu Dongyu sublinhou que nenhum país está isolado da crise e identificou três áreas prioritárias de ação coordenada. No curto prazo, defendeu a necessidade de manter as cadeias de abastecimento em funcionamento, facilitando rotas comerciais alternativas, evitando restrições à exportação, apoiando o acesso dos agricultores a fatores de produção e protegendo as cadeias de abastecimento humanitárias.
A médio prazo, apontou para o reforço da coordenação regional, a diversificação das fontes de fertilizantes e energia e o apoio direcionado às economias mais vulneráveis.
A longo prazo, defendeu uma transformação estrutural que reduza a dependência de rotas de abastecimento concentradas e de fatores de produção baseados em combustíveis fósseis, através de investimento em agricultura sustentável, energias renováveis, soluções inovadoras de fertilização e sistemas de armazenamento e logística mais robustos.
O diretor-geral da FAO saudou ainda a iniciativa MED9++ para reforçar a cooperação no acesso a fertilizantes e na segurança alimentar, considerando que a plataforma está alinhada com o quadro estratégico da organização e com a visão dos “Quatro Melhores”: melhor produção, melhor nutrição, melhor ambiente e melhor vida.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.












































