Franquelim Lopes troca todos os anos dias de férias e folgas por jornadas na apanha da azeitona, tradição herdada dos avós que continua a partilhar com o pai, de 78 anos, apesar das dúvidas sobre o futuro.
“Isto também funciona um bocado com o peito, com o coração”, afirma à Lusa o operador de geradores de vapor, de 56 anos, num olival de Constância Sul, distrito de Santarém, onde trabalha com o pai e o cunhado.
Funcionário da fábrica da Caima, Franquelim reserva dois ou três dias de férias para a campanha e aproveita folgas e manhãs livres. Quando entra ao serviço às 16:00, chega ao olival ao nascer do dia e trabalha até perto das 13:00.
O pai acompanha a apanha com a experiência de décadas, embora já não consiga manter o ritmo do filho.
“Eu sei que não posso pedir muito ao meu pai, porque ele tem quase 80 anos, mas também sei que não gostava de o ver em casa, sentado”, explica, valorizando o convívio familiar.
Franquelim cresceu a acompanhar a avó e a mãe nos ranchos da apanha, quando parte do trabalho era paga em azeite. Recorda as refeições no campo, as filhós e o cheiro dos lagares.
“O meu pai era padeiro e tinha o pão de milho. Aquele azeite quando vinha quente, metido no pão de milho, era maravilhoso”, conta.
O grupo apanha azeitona em cerca de 150 oliveiras de um amigo, esperando recolher seis toneladas. A produção será repartida com o proprietário, destinando-se ao consumo e, em parte, eventualmente, à venda.
O cunhado Marco Fortes, de 49 anos, chefe de turno numa central de biomassa na Carregueira, concelho da Chamusca, também concilia o trabalho com a apanha. Em criança, detestava acompanhar os pais ao olival enquanto os amigos jogavam futebol.
Hoje regressa para ajudar a família, apesar das jornadas prolongadas. “O excesso de horas é sempre o que custa mais”, admite. Parte do azeite é oferecida aos irmãos, por vezes como presente de Natal.
No Tramagal, concelho de Abrantes, Paulo Velho, de 62 anos, lembra os fins de semana em que avós, pais e tios apanhavam azeitona numa propriedade familiar em Chão de Lucas.
“Naquela altura éramos uma grande família, íamos para lá ao fim de semana, a minha avó Margarida fazia o comer”, recorda o professor de Educação Física e treinador de voleibol.
Hoje são poucos os familiares disponíveis. “Praticamente ninguém da família quer apanhar. Sou o único, mais o meu filho, e cá vamos”, lamenta.
Com o filho Simão, de 21 anos, e o amigo Mário Costa, de 55, Paulo apanha azeitona em cerca de 30 oliveiras de um vizinho que deixou de fazer a colheita.
“Achámos que era mal empregado a azeitona ficar nas oliveiras. É uma maneira de passar o tempo, entretemo-nos aqui e fazemos uns litrinhos de azeite”, explica.
Simão participa há quatro ou cinco anos e aprendeu a varejar e a cuidar das oliveiras observando os mais velhos. Não se importa de trocar o descanso de domingo pelo trabalho no campo.
“Uma pessoa passa aqui um dia inteiro, cinco estrelas. Convive e passa-se bem o dia”, afirma, do cimo de uma oliveira, garantindo que gostaria de transmitir a tradição aos filhos e netos.
Já Franquelim duvida que os filhos, Pedro e Ana, continuem a apanha, por terem construído a vida longe da terra.
Mário Costa também valoriza a amizade e o convívio, mas questiona os rendimentos obtidos nos lagares e admite já ter interrompido a apanha quando o azeite recebido deixou de justificar o esforço.
Noutro olival do Tramagal, Lucília Farrobista Duarte, de 60 anos, continua a apanhar azeitona quase quatro décadas depois de ter começado.
“Isto para mim, apanhar a azeitona, é um orgulho”, afirma, recordando as antigas campanhas que reuniam familiares e vizinhos durante semanas.
“Há menos gente. Já ninguém quer apanhar a azeitona, isto está muito complicado”, lamenta. Para facilitar o trabalho, investiu numa máquina de varejar a bateria e numa serra.
Ao seu lado, José Mendes de Oliveira, de 65 anos, conhecido por “Bailarico”, recorda os grupos de 30 ou 40 trabalhadores que partiam para o Alentejo, onde permaneciam meses na apanha.
“Íamos para o Alentejo, andávamos lá três e quatro meses a apanhar a azeitona. Não era brincadeira”, diz, lembrando o frio e as dificuldades de então, mas revelando “boas recordações”.
Reformado, continua a dedicar os tempos livres à atividade, sobretudo para garantir azeite para consumo familiar e oferecer aos amigos.
“É um trabalho que dá gosto. Porque nós nascemos nisto e dá gosto. Não é pelo trabalho ou pelo dinheiro, é mesmo mais pelas memórias e pela tradição”, afirma.
Em Mouriscas, também no concelho de Abrantes, a junta de freguesia promove no sábado uma apanha comunitária da azeitona, envolvendo famílias, associações e habitantes.
“É para promover a tradição, para não esquecer a tradição”, afirmou a presidente da Junta, Paula Lopes, explicando que a iniciativa permitirá cuidar de cerca de uma centena de oliveiras do Parque Multiúsos.
A jornada começa às 07:30, inclui almoço de convívio e prevê a transformação da azeitona em azeite, e as receitas reverterão para as festividades locais.
No Tramagal, Simão Velho mantém a esperança de transmitir, um dia, aos filhos e netos, o gosto pela apanha. Até porque, garante, depois de tantas horas de trabalho entre oliveiras, o azeite produzido pelas próprias mãos “sabe melhor”.















































