Em dois dias, duplicou a área ardida desde o início do ano

Em dois dias, duplicou a área ardida desde o início do ano

[Fonte: Público]

Em 2017, Portugal ardeu como não acontecia há anos — o fogo consumiu mais de 500 mil hectares. E cerca de 10% da floresta ficou destruída. Só neste fim-de-semana, duplicou a área ardida desde o início do ano. Não seria de esperar que tivéssemos aprendido a lição e que as medidas tomadas desde então servissem para evitar que este tipo de incêndios se repita? O PÚBLICO falou com vários especialistas que dizem que ainda há muito por fazer e que as medidas aplicadas até agora não vão resolver os problemas da floresta.

O país vai arder todos os verões. A expectativa de que em dois anos — ou em media dúzia de anos — se alterava radicalmente a paisagem de modo a termos outro cenário, era extremamente irrealista”, diz o arquitecto paisagista Henrique Pereira dos Santos ao PÚBLICO.

Resumindo: “Nestes dois anos, estivemos a marcar passo”, defende Pereira dos Santos. “Nada daquilo que foi apresentado em 2017 representa uma grande alteração.”

Claro, diz o especialista, que houve medidas positivas. Nomeadamente, o plano nacional de fogo controlado, o programa de utilização de cabras sapadoras e o reforço de profissionalização dos profissionais que actuam no combate ao fogo. Mas são “passos marginais em relação à questão de fundo”.

Então o que é preciso fazer? “O que está em causa é a alterar uma situação que já existe de acumulação e continuidade de combustíveis e que a economia não retira do território”, diz Pereira dos Santos. E até identifica uma série de actividades que podem dar esse apoio, como o pastoreia, a conservação da biodiversidade, a caça ou a produção florestal intensiva.

O engenheiro florestal e professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Domingos Lopes, defende algo semelhante: “Ainda não entrámos verdadeiramente na floresta”, diz ao PÚBLICO.

A participação do “governo central é indiscutível”, mas das câmaras municipais também, nota Domingos Lopes. “Quero que os meus colegas engenheiros florestais estejam no campo.”

Quanto às medidas tomadas até agora, este especialista da UTAD aponta o problema: “O conhecimento está disperso, os gabinetes têm como objectivo trabalhar planos de gestão florestal para incêndios, mas não de gestão florestal.”

O que está a acontecer é que “continuamos a trabalhar na óptica das faixas de limpeza — que são um ponto de partida — mas é a periferia do problema”.

“É preciso mais conhecimento e técnica; menos receio e medo”

Para Paulo Fernandes, especialista em fogos florestais na UTAD, a dinamização destes territórios e o combate aos incêndios passa pela “gestão florestal, desbastes, fogo controlado, pastoreio”. No fundo, “todas as técnicas que existem, que são diversificadas”, mas “faltam as pessoas, os recursos e a vontade política”. “São coisas que têm de se construir ao longo de décadas e há um obstáculo económico a que isto aconteça.”

Para o outro especialista da UTAD, Domingos Lopes, “é preciso mais conhecimento e técnica; menos receio e medo”. E mais: “As pessoas têm de se convencer que, por muito forte que seja a estrutura de combate, se não olharmos para os recursos o combate não é suficiente.”

Quanto a outras medidas específicas que podem ser adoptadas no combate aos incêndios, Pereira dos Santos defende que é “preciso separar funções”. As equipas que protegem a população e as habitações devem ser distintas daquelas que se dedicam ao combate ao fogo.

Além disso, defende que “a GNR ir atrás dos proprietários [dos terrenos, exigindo a limpeza] é uma parvoíce”. Se não “houver retorno [económico], não há condições para esse tipo de exigências”.

Também é preciso perceber, diz o arquitecto paisagista Henrique Pereira dos Santos, que “os fogos não são uma probabilidade, são uma inevitabilidade”. Resta “aprender a lidar com isso”.

A “ilha” que sobrou de Pedrógão

Desde o início do ano e até 15 de Julho, tinham ardido cerca de oito mil hectares. No último fim-de-semana, a área ardida duplicou: passou a 15.836 hectares, segundo dados disponíveis no Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS, na sigla inglesa), que contabiliza apenas os incêndios com mais de 30 hectares. O fumo gerado pelo fogo até foi visível do espaço a 21 de Julho, como mostram as imagens disponíveis no site da Nasa.

Os concelhos de Vila de Rei e Mação, que agora ardem, fazem parte de uma “ilha” poupada durante os incêndios de 2017 em Pedrógão Grande. “Houve incêndios em todas as direcções e ficou aquela mancha bastante grande ali no meio. É uma área que tinha ardido quase toda em 2003 e 2005”, explica Paulo Fernandes.

É surpreendente? Infelizmente, não. Paulo Fernandes explica que é uma zona de pinhal a que os especialistas chamam “pelo de cão” porque são “árvores muito fininhas, encostadas e densas” — “é um volume de combustível perigosíssimo”. Além disso, passaram “15 anos desde o último incêndio no pinhal bravo, que é exactamente a altura crítca, em que está mais vulnerável”, nota o especialista.

E nem é que não se soubesse. “Em 2017 foi lá o Carlos Moedas com António Costa. Há umas fotos interessantes em que eles estão a caminhar no meio de pinhal extremamente denso.”

O engenheiro florestal Domingos Lopes também reconhece que, “quem compreende estes problemas, percebe que é uma zona perigosa”.

Quanto a outras zonas do território que permanecem em risco, Paulo Fernandes identifica uma área em particular: “Parte da serra algarvia, nomeadamente a Serra do Caldeirão, onde houve um grande incêndio em 2004. Depois há algumas zonas que ardem muito menos.” Mas “uma das quem mais preocupa” este especialista é a Serra da Malcata, “que ardeu pela última vez por volta de 1985”. “Talvez aí a probabilidade seja baixa, porque é muito despovoada. A não ser que tenhamos trovoadas secas, que por acaso deverão ocorrer hoje e amanhã”, nota.

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