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Descortiçamento em anos de seca causa “crise de carbono”

por Florestas.pt
22-01-2026 | 11:49
em Últimas, Notícias florestas, Blogs, Recomendações Agroflorestais
Tempo De Leitura: 7 mins
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O descortiçamento é central para a sustentabilidade económica dos montados de sobro, mas em anos de seca esta prática ancestral tem custos fisiológicos. Um novo trabalho de investigadores portugueses comprovou que, nestas circunstâncias, os sobreiros consomem as suas reservas de carbono, causando uma “crise de carbono” que os deixa vulneráveis a outras pressões.

A extração de cortiça permite obter um produto renovável de elevado valor e é frequentemente apontada como um exemplo de conciliação entre produção e conservação. No entanto, quando aumentam as pressões dos efeitos das alterações climáticas e a frequência de anos secos, o descortiçamento pode comprometer a resiliência das árvores que nos dão a cortiça.

Esta evidência é avançada num artigo científico publicado na revista Forest Ecology and Management, que aprofundou os efeitos, de curto e médio prazo, desencadeados pelo descortiçamento nas relações hídricas e no metabolismo do carbono dos sobreiros (Quercus suber) durante um ano de seca.

Desenvolvido por uma equipa de investigadores portugueses, o estudo “Cork stripping alters the seasonal carbon allocation patterns of Quercus suber in a dry year” monitorizou, mediu e comparou vários indicadores em sobreiros descortiçados e não descortiçados (grupo de controlo): fluxo de seiva, potencial hídrico das folhas, respiração e evaporação de água pelo tronco, variação dos níveis de diferentes hidratos de carbono não estruturais, entre outros.

As conclusões indicam que o efeito cumulativo da seca e do descortiçamento desencadeia o que denominam como “crise de carbono”: para repor os tecidos e a casca removida, os sobreiros recorrem às suas reservas de energia (hidratos de carbono), direcionando-as em particular para a reconstituição da zona afetada – o tronco, seus tecidos e casca. Estas reservas são consumidas com tal intensidade que não é possível repô-las em contexto de seca. Uma vez gastas estas reservas, os sobreiros ficam fragilizados e menos capazes de resistir a futuras pressões.

O trabalho decorreu num campo experimental no centro de Portugal – mil hectares de um povoamento puro de sobreiros, com cerca de 50 anos de idade –, que foi alvo de monitorização ambiental contínua entre 2009 e 2019. A recolha de amostras decorreu na primavera e verão de 2015, um ano que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera classificou como de “seca meteorológica severa”: marcado por uma redução de chuva de cerca de 51% face à média, refere o artigo. A amostragem acompanhou o descortiçamento e os 65 dias que se seguiram, com recolhas diárias, de madrugada e ao meio-dia, nas árvores descortiçadas e no grupo de controlo.

Carbono é decisivo para a sobrevivência do sobreiro. Porquê?

O carbono assimilado através da fotossíntese é a principal fonte energética das árvores. Uma parte deste carbono é utilizada de imediato para assegurar funções vitais – respiração, alimentação, crescimento –, enquanto outra fração é armazenada sob a forma de hidratos de carbono não estruturais, como o amido (a principal forma de hidrato de carbono armazenada nas plantas) e a sacarose (a principal forma de açúcar transportado no floema), que funcionam como reservas de energia.

Estas reservas são como um seguro fisiológico que as árvores podem acionar para dar resposta a diferentes pressões ou fatores de stress, sejam eles sobreviver a uma seca, enfrentar uma praga ou regenerar tecidos danificados.

Após o descortiçamento, o sobreiro necessita de energia extra para repor o tecido danificado (felogénio) e começar a reconstituir a primeira camada de cortiça. A formação do felogénio ocorre logo nas quatro a cinco semanas depois da remoção da cortiça e, após este período, inicia-se a produção da camada inicial da casca protetora.

Seca e descortiçamento: dois fatores cumulativos levam à “crise de carbono”

Em condições ambientais favoráveis, as reservas de carbono consumidas vão sendo compensadas pelo carbono assimilado pela árvore, através da fotossíntese. Mas em contexto de seca, as árvores reagem para reduzirem a perda de humidade e ajustam a gestão da energia disponível – o seu carbono – para assegurarem funções vitais. Mas estas reações têm um preço. Por exemplo, quando fecham os poros das folhas (os estomas) para reduzirem a perda de água por transpiração, também diminuem a quantidade de dióxido de carbono que pode entrar e, consequentemente, a fotossíntese.

Neste estudo, os resultados mostram que o efeito cumulativo da seca e do descortiçamento levam a:

– Redução prolongada do fluxo de seiva para prevenir perdas: Imediata redução da transpiração e crescente redução do fluxo da seiva para prevenir a perda excessiva de água e de energia (o que não acontece em anos sem seca, nem nas árvores não descortiçadas). A redução do fluxo de seiva chega aos cerca de 50% e o fluxo nunca foi reposto durante o período de observação.

– Aumento localizado e temporário de carbono para um sumidouro prioritário: Pico imediato de glucose e frutose nos tecidos do floema (camada antes da casca, que transporta os compostos da fotossíntese desde as folhas para as restantes partes da árvore), acompanhado de aumento pronunciado da respiração do tronco. Os dados sugerem que a energia contida nestas reservas de hidratos de carbono está a ser direcionada para a rápida proteção e regeneração da zona descortiçada, que surge como prioridade para a árvore.

– Reparação do tronco é feita à custa das reservas de carbono e vai esgotá-las: Depleção acentuada e prolongada de hidratos de carbono não estruturais – sacarose e amido – no tronco (floema), mas níveis estáveis nas folhas, que mantêm também os seus potenciais hídricos. Esta dissociação entre copa e tronco sugere que a reparação do tronco está a ser feita à custa das reservas de carbono, criando um desequilíbrio entre fontes e sumidouros: enquanto a copa consegue captar água e dióxido de carbono suficientes para se manter, o tronco precisa de consumir as reservas energéticas de forma acelerada, sem que haja uma reposição que as compense, o que deixa a árvore sem margem de segurança fisiológica.

Adicionalmente, como o descortiçamento ocorre em pleno verão, esta necessidade de carbono extra coincide habitualmente com o período de seca estival, em que a carência hídrica se intensifica na região mediterrânica.

“Em anos secos, o descortiçamento induz uma alteração marcada e persistente na dinâmica dos hidratos de carbono no tecido do floema dos sobreiros, mas não nas folhas, fornecendo, pela primeira vez, evidência bioquímica de uma ‘crise de carbono’, tal como sugerido anteriormente por Natividade em 1950”, conclui o artigo, remetendo para uma dinâmica que o mais importante estudioso do sobreiro, Vieira Natividade, já há muito tinha equacionado. “Embora a realocação de carbono seja essencial para a reconstrução do floema e, consequentemente, para a regeneração da cortiça, este processo pode competir com a capacidade da árvore para armazenar hidratos de carbono não estruturais (amido e sacarose), o que poderá comprometer a sua resiliência face a stresses ambientais subsequentes.”

Como aplicar esta informação à gestão dos sobreiros?

Do ponto de vista da gestão florestal, os resultados deste trabalho reforçam a importância de integrar o contexto climático nas decisões de gestão e, mais especificamente, na decisão de efetuar o descortiçamento no ano previsto, quaisquer que sejam as condições.

Considerando o custo fisiológico elevado do descortiçamento em contexto de carência de água, ele deve ser evitado em anos de seca severa ou após períodos prolongados de défice hídrico. Esta decisão pode ser determinante para preservar as reservas de carbono das árvores e a sustentabilidade futura do montado, apoiando os sobreiros a conservar a energia necessária para enfrentarem outros stresses potenciais.

Esta ideia é reforçada pelos investigadores, que advertem: “Depois de anos secos consecutivos, as árvores podem já estar a funcionar próximas dos seus limiares críticos de reservas de carbono. O descortiçamento nestas condições pode agravar o risco de privação de carbono, limitando a capacidade destas árvores enfrentarem desafios ambientais subsequentes”.

O artigo finaliza com outra ideia a reter: “A articulação entre as respostas bioquímicas e fisiológicas e a diversidade genética que sustenta a plasticidade fenotípica poderá contribuir para o desenvolvimento de povoamentos de sobreiro mais adaptativos e resilientes”.

Quer isto dizer que, na gestão florestal, importa articular níveis de conhecimento que são, muitas vezes, considerados de forma isolada: por um lado, as respostas bioquímicas e fisiológicas que permitem identificar precocemente vulnerabilidades da espécie; por outro, a diversidade genética dos sobreiros, que pode ajudar a encontrar árvores com maior capacidade para lhes resistir.

Articular variabilidade genética e indicadores fisiológicos e bioquímicos em programas de gestão e regeneração do montado, apoiados por seleção de materiais reprodutivos e programas de melhoramento, poderá abrir caminho para povoamentos mais resilientes, nomeadamente às pressões que são impostas pelas alterações climáticas, reduzindo o risco de colapso fisiológico e garantindo a sustentabilidade do descortiçamento a longo prazo.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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