Covid-19: Em Atilhó os dias são de trabalho no campo sem os intervalos no café ou na missa

Covid-19: Em Atilhó os dias são de trabalho no campo sem os intervalos no café ou na missa

A Covid-19 veio intensificar o isolamento em Atilhó, aldeia de Boticas onde os dias passam todos iguais e a vida se reparte entre as casas e o trabalho no campo, sem o intervalo das idas ao café ou à missa.

O granito cinzento das habitações e muros contrasta com o verde dos campos nesta localidade do concelho de Boticas, distrito de Vila Real, onde não é conhecido, até hoje, qualquer caso de contágio pela covid-19.

Não há casos, mas o medo paira no ar e o silêncio é apenas quebrado pelos passos apressados, pelo ladrar dos cães, o mugir das vacas e o motor dos tratores que atravessam os caminhos.

Sebastião Fernandes e a mulher, Maria José, ambos com 58 anos, dedicam os dias às vacas e aos porcos, um trabalho que é diário. “Não há domingos, dias santos ou feriados”, afirmou o agricultor à agência Lusa.

A rotina dos dias iguais era quebrada por uma ida ao café ou para ir assistir, no sábado à noite, à missa na capela da aldeia. “Agora é que há mesmo 100% de isolamento”, salientou o agricultor.

O casal vive com os filhos, mas mantém o afastamento social com os outros familiares que residem na aldeia. “Nunca mais convivemos desde que apareceu a Covid-19”, sublinhou.

Maria José é uma mulher prevenida. Fez compras que dão para vários meses, coze o pão no forno, tem já na arca a vitela que mataram recentemente e os muitos outros produtos que faz: presunto, alheira, salpicão.

“Esta é uma aldeia que convive muito, que faz muitas festas, celebra a Páscoa, o Dia da Mãe e este ano não há nada, é cada um na sua casa”, referiu.

Confessa que sente falta do contacto com os familiares e os vizinhos. “Isto estranha-se, parece que a gente fica mais nervosa, mais triste”, sublinhou.

O filho Tiago Fernandes, 31 anos, trabalha na Santa Casa da Misericórdia de Boticas, agora em regime de rotatividade, e disse sentir mais o distanciamento social na aldeia onde “já nem se para para falar”.

“Está tudo em suspenso à espera que isto passe e que seja o mais rapidamente possível”, frisou.

Carminda Cirurgião, 79 anos, e Domingos Roxo, 78 anos, estão sentados num banco de pedra ao lado do café que exploram e que está encerrado. Aproveitam o sol tímido que vai contornando as nuvens.

“A Guarda manda-nos ir para casa, mas lá em cima está frio”, afirmou Carminda.

Ao lado, Domingos lamentou: “Estamos fechados há cerca de dois meses e com um prejuízo do raio, a bebida que vou ter de deitar fora por estar fora de prazo”.

Não há clientes, se alguém passa apenas acena e às vezes jogam às cartas para passar o tempo. “A gente sozinha é uma tristeza”, observou a idosa.

O marido recordou os dias “de festa rija” da aldeia, a “maior do concelho de Boticas”, e o mês de agosto cheio de emigrantes.

O novo coronavírus é tema trazido para a conversa e o septuagenário agradece “aos santinhos milagrosos”, como a Santa Bárbara e São Sebastião, o santo protetor contra a peste, a fome e a guerra.

“Oh valha-me Deus! A gente abre a televisão e é só no que falam, do vírus. Eu até já me chateia, antes não quero ver”, afirmou Maria do Céu Milheiro, 72 anos, que saía de casa para ir ao monte buscar as suas três vacas.

Por estes dias conta que vai pela aldeia adiante e não vê uma pessoa. “Nem que a gente caia no chão, não tem quem nos levante”, afirmou.

Maria do Céu Milheiro confessa sentir a falta do convívio que ajudava a passar melhor o tempo e da missa.

No entanto, garante que aqui nada falta. O padeiro passa regularmente, tal como a carrinha da fruta e até os medicamentos foram trazidos pelos bombeiros de Boticas, depois da sua filha emigrada ter ligado para a farmácia.

Maria João veio a correr do campo, onde esteve a semear batatas, depois de ter ouvido a música atirada pela carrinha de venda ambulante de fruta.

Na fila guarda a devida distância para com as outras clientes e conta que anda “com o coração nas mãos” por causa dos filhos que tem “pelo mundo fora”. “Estamos nós aflitos com eles e eles aflitos connosco”, frisou.

Nesta Páscoa nenhum deles veio à terra natal e Maria João espera que possam vir em agosto. O isolamento na aldeia agora é, referiu, “cada um na sua vida”.

Mais à frente, Alfredo Pinto, 79 anos, anda sozinho na horta a semear milho.

O idoso contou que sente falta das idas ao domingo à sede de freguesia, Alturas do Barroso, para a missa. “Agora já não posso ir à missa, nem conviver com os amigos que lá tenho nem ir ao café”, lamentou. A missa ouve-a na rádio à hora do almoço.

A Lusa encontrou o presidente da Junta de Alturas do Barroso, Paulo Pereira, numa deslocação para a entrega de uma encomenda.

A covid-19 trouxe novas atribuições aos autarcas de freguesia que estão mais perto da população, nomeadamente a entrega de alimentação e de medicação a quem mais precisa.

O trabalho nos campos mantém-se, mas a pandemia teve impacto nos cafés e na venda da carne dos criadores locais, até porque os restaurantes, inclusive os dois típicos que há na freguesia, estão fechados. “Antes um talho vendia três a quatro vitelos e agora vende um”, observou.

Paulo Pereira, que também trabalha na cooperativa agrícola, disse que se está a trabalhar numa solução para a saída dos vitelos e apontou que está a ser garantida a distribuição da alimentação para os animais.

O autarca confessou algum receio com o verão, o regresso dos emigrantes para as férias e as festas das aldeias. Até lá ver-se-á como evolui a pandemia.

Segundo o boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia, Portugal contabilizava sexta-feira 854 mortos associados à covid-19 em 22.797 casos confirmados de infeção.

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