Em tempos de pandemia, o trabalho comunitário está suspenso no Património Agrícola Mundial

Em tempos de pandemia, o trabalho comunitário está suspenso no Património Agrícola Mundial

Os campos estão pintados do verde da erva que contrasta com o cinzento do granito em que se erguem os muros que separam as propriedades. Os animais pastam e os habitantes começam a preparar os terrenos para as sementeiras da época como o centeio, o milho e as batatas.

É um trabalho que, na aldeia de Atilhó, se faz também com a ajuda de familiares e vizinhos.

“Este ano estou a ver que nada. O trabalho de entreajuda está todo suspenso. A família juntava-se e fazíamos tudo juntos, agora está tudo suspenso porque temos que nos proteger e cada um vai fazendo o seu”, afirmou Sebastião Fernandes, um agricultor e produtor de vacas e porcos de 58 anos.

Esta é uma das consequências da covid-19 na região que é Património Agrícola Mundial desde abril de 2018, distinção atribuída pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O Barroso, que se estende pelos concelhos de Boticas e Montalegre, distrito de Vila Real, é uma região agrícola dominada pela produção pecuária e pelas culturas típicas das regiões montanhosas, onde se mantêm as formas tradicionais de trabalhar a terra ou tratar os animais.

O comunitarismo é ainda um dos valores e costumes característico deste território, intimamente associado às práticas rurais de vida coletiva e à necessidade de adaptação ao meio ambiente.

Também a mulher de Sebastião Fernandes, Maria José, explicou que normalmente as sementeiras ou depois a apanha das batatas é feita com a ajuda das suas irmãs e maridos. “Eles vêm ajudar-nos e depois vamos nós ajudá-los”, referiu.

Este ano, as novas regras de segurança impostas pela pandemia ditam um distanciamento social e, por isso, Maria José e Sebastião fazem o trabalho sozinhos.

“Só os dois é muito chato, não dá muito bem”, observou Maria José.

É mais chato, mais lento e nem o tempo ajuda, já que as chuvas de abril estão também a contribuir para atrasar as sementeiras.

Aos 79 anos, Alfredo Pinto, semeia sozinho o milho numa horta junto à aldeia. Em anos anteriores contou com a ajuda de familiares, mas agora as circunstâncias são outras e o distanciamento é regra que está a ser cumprida.

“As vezes juntavam-se os familiares uns com os outros, mas agora andamos assim um bocadinho mais distanciados”, salientou.

Paulo Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Alturas do Barroso, onde está inserida a aldeia de Atilhó, disse que a classificação trouxe mais reconhecimento à região e também turistas.

“Havia, antes da pandemia, muita gente que vinha visitar aqui a nossa freguesia. Temos os nossos restaurantes regionais, mas também os nossos produtos e as nossas paisagens”, afirmou.

O presidente da Câmara de Boticas, Fernando Queiroga, destacou os aspetos positivos decorrentes da classificação.

“Primeiro porque teve uma promoção muito maior. Um olhar diferente para o mundo rural e, acima de tudo, um orgulho ainda maior para os habitantes destes dois concelhos”, afirmou.

Salientou ainda que esta distinção pode “ser uma oportunidade”, que “é preciso saber aproveitar”.

O autarca referiu que o plano de ação desenvolvido para o território está a ser executado. “Promoção, divulgação dos nossos produtos, alguns apoios aos nossos agricultores e incentivos dados na pecuária, na sanidade animal, no apoio às candidaturas para se fixarem e produzirem ainda mais”, exemplificou.

Atrasada está, acrescentou, a instalação de uma equipa que “vai andar no terreno e implementar ou monitorizar algumas medidas que estão no plano de ação”.

Fernando Queiroga acredita que a pandemia pode ajudar a chamar a atenção para a importância do mundo rural.

O Barroso foi o primeiro território português a integrar o Sistema Importante do Património Agrícola Mundial (GIAHS) e um dos primeiros a ser aprovado na Europa.

O processo de candidatura à FAO, patrocinado pelo Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, foi desenvolvido em parceria pela Associação de Desenvolvimento da Região do Alto Tâmega (ADRAT), as câmaras de Boticas e Montalegre, as Universidades do Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro, organizações e associações de produtores agrícolas, profissionais do setor e cidadãos da região.

A covid-19 é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), encerraram o comércio não essencial e reduziram drasticamente o tráfego aéreo, paralisando setores inteiros da economia mundial.

O artigo foi publicado originalmente em SAPO 24.

Comente este artigo
Anterior Covid-19: Em Atilhó os dias são de trabalho no campo sem os intervalos no café ou na missa
Próximo “Tem morrido muita gente, é de lamentar, mas há outras doenças que matam muito mais todos os anos, temos de começar a trabalhar para a economia não parar” diz Pres. COTR

Artigos relacionados

Nacional

Seca. Governo vai identificar necessidades de investimento dos agricultores

O Governo vai iniciar o levantamento das necessidades de investimento dos agricultores em equipamentos de captação, transporte e armazenamento de água, […]

Sugeridas

Costa defende digitalização da agricultura: “É tão importante como a enxada”

Primeiro-ministro acredita que a agricultura tem de ser colocada “no centro das preocupações”.
O Governo lança o debate sobre um novo Plano Estratégico para a Agricultura, Alimentação e […]

Últimas

Economia portuguesa cai 2,3% no primeiro trimestre

A contração do PIB foi corrigida e, afinal, é ligeiramente menor do que tinha sido apontado, nos primeiros três meses do ano. […]