Centralismo macrocéfalo

Centralismo macrocéfalo

O pirómano pouco encartado está ligado ao mundo mais arcaico e na freguesia é muitas vezes o tolo da aldeia – recebe uns trocos sazonais sempre que o calor avança e sempre que o fogo vira ecrã. Para este a TV e os fogos filmados sempre do mesmo modo espectacular são o seu protagonismo – faz lembrar o anarquista minhoto do Pacheco, punha a bomba e ia vê-la explodir do outro lado do passeio. E depois há os outros, ligados às máfias (máfias dos circuitos do dinheiro, mas também políticas, este é o seu modo de fazer terrorismo), esses que fazem fogos em série. Quando há acendimentos simultâneos, ou sucessivos, de tantos em tantos metros ou quilómetros, há fogo criminoso altamente organizado – só operacionais do acendimento com formação específica fazem deste tipo de coisas.

Obviamente que estas coisas visam também consequências eleitorais. As televisionices em torno são de vomitar, tanto as lágrimas de crocodilo como os especialistas em fila interminável de ready-mades curativos. Piores só os passa-culpas.

O país que arde é literalmente o resultado da floresta vista como lucro imediato mais que economia – essa que teria a ver connosco, culturas tradicionais e beleza paisagística, mais o problema da propriedade ( micro e também a abandonada e também a macro nas mãos da lógica lucrativa imediata, papel, etc.), mais a desertificação do interior, mais a questão do clima ( os solos sem humidade e o deserto que vem), mais as monoculturas de eucalipto e pinheiro, mais a Portucel, mais a vida que se organiza em torno dos fogos (os dinheiros que por aqui andam são infinitos e urgem sempre), mais a impotência das autarquias, mais o descontrolo absoluto do que cada ano cresce de novo da mesma maneira, mais a negligência, mais aquilo que é uma pecha portuguesa clara: incapacidade de acção governativa coerente planificada, incapazes de governar no plano, no tempo, incapazes de prevenção radical – esta característica é transversal. E não são coimas, são medidas no terreno e equipas a transformar as rotinas, é vigilância activa em todo o terreno – pois, sai caro, claro, mas são formas de contrariar o abandono e estas pessoas até podiam dar uma mão aos milhares de idosos abandonados por montes e vales, em lugares onde por vezes são o único habitante.

Mas há uma coisa que não tem tido caminho e que seria o contrário da desertificação, a colonização do interior, o regresso a um interior que está em perda desde as idas a salto para Franças e Araganças e terras teutónicas e outras. Voltemo-nos para essas novas Índias. Já no século XVI os ratinhos vinham para Lisboa e os semi-nobres ou nobres pintados de fresco, ou burgueses rurais ou morgados de título comprado e mesmo os rascões e outros viviam obcecados pelo Paço Terreiro e vinham por aí país abaixo. Há outras migrações internas, para as amadoras, para a margem sul, outros assuntos.

Um dos problemas maiores é o Centralismo, mas quem o fez foi esta fuga secular de gente para o centro, ao cheiro do dinheiro e do poder. Com o Centralismo o país não tem saída.

Que fazer? Uma revolução que até se pode chamar de reforma estrutural, das tais, mas a sério, quer dizer, virada para os interesses do país e do planeta. E sem grandes conversetas. A situação é de banco de urgência há muito tempo.

O artigo foi publicado originalmente em Público.

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