Alterações climáticas, floresta e desenvolvimento rural – Rui Simões

Alterações climáticas, floresta e desenvolvimento rural – Rui Simões

O país não é todo igual, mas é todo nosso, por isso não aceitaremos territórios insustentáveis eternamente esquecidos ou submetidos à gestão do declínio.

Ainda se assiste à dança das cadeiras governativas, não sendo conhecidos todos os detalhes dos vários ministérios criados para os assuntos da terra, mas já choca a sua pulverização e a subtração da secretaria de Estado das Florestas ao Ministério da Agricultura.

Efectivamente, não é só a matriz agrícola tradicional do país, ou a gestão de fundos comunitários, que deveriam juntar as florestas à agricultura, mas sobretudo a necessidade de fomentar a sustentabilidade de todo o meio rural. O que se espera de quem nos governa não é uma reforma das políticas agrárias, mas uma verdadeira revolução transformativa do uso do território, que restaure as várias funções das terras e reabilite as suas populações.

Esta urgência surge num contexto em que as Alterações Climáticas (ACs) já nos afectam mas apenas surgem no discurso político como bode expiatório de todas as desgraças quando já se deveriam traduzir em medidas de adaptação do mundo rural. Na realidade, as actividades agrárias apresentam-se também como uma poderosa ferramenta de mitigação das ACs, devido à enorme capacidade de sequestro de carbono atmosférico pelas plantas, sendo consensualmente reconhecida como tal pela ONU.

Mas para isso o uso do solo tem de mudar radicalmente, de forma a priorizar o sequestro do carbono, a optimização da água e a promoção da biodiversidade. As terras terão de fazer tudo isto para além de continuarem a fornecer alimentos, água e fibras à humanidade. Só assim se garante a revitalização dos solos, da saúde humana, e um ambiente viável de uma forma persistente e segura.

Esta revolução implica passar de monoculturas anuais baseadas em fatores mecânico-químicos intensivos para policulturas permanentes sustentáveis baseadas em espécies e variedades nativas e resilientes. Implica integrar a floresta e a pastorícia no sistema produtivo e fomentar povoamentos mistos e multifuncionais. Implica apostar num mercado de proximidade que deverá substituir as cadeias mercantilistas globalizadas que tendem a ser taxadas pelo carbono do transporte. Implica transformar a forma de pensar o território.

Nesta revolução todos teremos um papel a desempenhar, mas é à intervenção governativa que cabe incentivar a transformação duma “tragédia dos comuns” numa solução valorizada por toda a comunidade. Nela não caberão nem as velhas desculpas do minifúndio ou da falta de cadastro nem as novas soluções avulsas como grandes barragens ou centrais de biomassa.

A sociedade compreende, e até exige, que incêndios florestais sejam combatidos e que se abram furos durante uma seca, mas não confunde medidas urgentes com políticas de fundo. O país não é todo igual, mas é todo nosso, por isso não aceitaremos territórios insustentáveis eternamente esquecidos ou submetidos à gestão do declínio.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Engenheiro Florestal; Doutorando em Alterações e Políticas de Desenvolvimento Sustentável (ICS-ULisboa)

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