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O Tesouro Escondido da Agricultura Portuguesa – Luís Mira da Silva

por Luís Mira da Silva
12-03-2021 | 16:01
em Últimas, Blogs
Tempo De Leitura: 6 mins
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A agricultura em Portugal pode ser uma grande oportunidade para os investidores que procuram um setor de alto valor / baixo risco, ao mesmo tempo que têm um impacto positivo no ambiente.

Há quatro anos, fui à Califórnia com um grupo de startups portuguesas, no contexto de um programa desenvolvido pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Visitámos várias empresas do setor agrícola, incluindo explorações agrícolas, fornecedores de tecnologia, fornecedores de fatores de produção, centros de inovação, universidades, e até um fundo de investimento dedicado à agricultura. Foi uma grande oportunidade de ver um dos “ecossistemas” agrícolas mais avançados do mundo!

Fiquei impressionado com muitas coisas, mas o nível de inovação tecnológica não foi uma delas. Sim, ficou claro que o nível médio de adoção de tecnologia pelos agricultores era muito elevado. Mas já vi muitas explorações agrícolas, e agricultores, em Portugal, que estão bem à frente do “médio” agricultor californiano. O que realmente me impressionou foi a escala, o nível de agregação comercial, e a “padronização” tecnológica das explorações agrícolas.

As amêndoas são um bom exemplo desta padronização. Por vezes podíamos percorrer 20 ou 30 km e tudo o que conseguíamos ver de um lado e do outro da estrada eram pomares de amêndoas. Isto era surpreendente não só por causa da escala, mas também porque todas as explorações pareciam pertencer ao mesmo agricultor. Em muitos casos, não era possível ver quando uma herdade terminava e a outra começava. As plantas eram todas iguais, estavam todas igualmente distantes, a cobertura do solo era a mesma, e as tecnologias eram repetidamente reproduzidas.

Uma das empresas que visitámos, um fornecedor de equipamentos de rega, explicou-nos o que vimos. Disse que os produtores de amêndoas não gostam de inovações disruptivas. Gostam de tecnologias validadas. Não querem novas alternativas radicais. Querem equipamento fiável e soluções tecnológicas que já provaram funcionar noutros locais. Segundo este fornecedor de equipamentos, a inovação era necessária, mas as explorações agrícolas não são laboratórios de investigação, e as tecnologias deveriam ser desenvolvidas e testadas pelas organizações adequadas, não pelos agricultores.

Para esclarecer este ponto, é importante dizer que não estou aqui a defender um sistema de monocultura, ou uma “massificação das culturas”. A diversidade das culturas é muito importante, e por várias razões, nomeadamente, mas não só, para evitar “colocar todos os ovos no mesmo cesto”. É verdade que a Califórnia é o maior exportador de amêndoas do mundo. Mas também é verdade que o setor ficou marcado por fortes secas entre 2012 e 2016, e ainda hoje é criticado pela intensificação excessiva e por uma utilização insustentável da água de rega. O que é realmente impressionante na Califórnia é a padronização das práticas e das tecnologias agrícolas.

Avancemos agora para 2021, e passemos da Califórnia para Portugal. Todas as semanas viajo de Lisboa para o Redondo, o concelho de onde sou, no Alentejo. Viajo cerca de 150 km pelo Sul de Portugal, normalmente sozinho, e por isso passo muito tempo a olhar para a paisagem. Por vezes a minha impressão é que a agricultura no Alentejo, nomeadamente nas zonas de sequeiro, é um enorme campo experimental. A grande maioria da região do Alentejo não é irrigada, e é dominada pelo montado, de sobro e/ou azinho, com gado extensivo (geralmente vacas ou ovelhas) e pastagens.

O problema é a falta de uniformidade. É possível ver uma herdade de “encher o olho”, com sobreiros frondosos, pastagens verdes e vacas bem alimentadas. E depois de dois quilómetros vê-se uma outra herdade onde muitas árvores estão mortas, as pastagens estão cobertas por infestantes, e as vacas estão magras. E ao fim de alguns quilómetros vê-se outra herdade de “encher o olho”. E assim por diante… Também é possível ver esta falta de uniformidade noutras explorações agrícolas, por exemplo, em vinhas, oliveiras, ou pomares de fruta. Vê-se uma vinha que poderia ser fotografada para um catálogo de vinhos, e na exploração a seguir vê-se uma vinha que parece estar abandonada. Na verdade, o problema não é a diversidade de culturas, o que por si só pode ser uma coisa boa. O problema é a falta de uniformidade.

Posso estar a exagerar (para marcar o meu ponto de vista), mas a questão é: porque é que temos esta falta de uniformidade? Pode ser por muitas razões, e a maioria delas tem sido objeto de análise detalhada em vários estudos. O sector agrícola está envelhecido (52% dos agricultores têm mais de 60 anos; apenas 4% têm menos do que 40 anos), o nível médio de educação (e de formação…) é geralmente baixo, os serviços de aconselhamento são insuficientes, a terra está nas mesmas mãos há demasiados anos, e poderíamos continuar por aí fora… Mas este não é o tema deste artigo.

O argumento que eu gostaria de levantar aqui é a grande oportunidade, para os investidores, que existe em Portugal no setor agrícola. A terra ainda não é muito cara – se viajarmos apenas alguns quilómetros para Espanha vemos que o preço da terra é pelo menos 30% a 50% mais elevado. Existe um grande potencial de melhoria em muitas explorações agrícolas, como mostra a falta de uniformidade acima mencionada… E há muitas oportunidades para inovar na agricultura, um setor que será certamente afetado pelas alterações da política agrícola da UE nos próximos anos.

Refiro-me por isso a melhorias a longo prazo, de forma sustentável… e não apenas à obtenção de lucros (insustentáveis) mais elevados a curto prazo. Este tipo de reestruturação acontece em todo o mundo empresarial noutros setores. Um investidor compra uma empresa falida, reestrutura-a, e depois vende-a com um lucro elevado. Se isto é assim noutros setores, porque não no setor da agricultura? A maioria das explorações agrícolas não está, felizmente, em situação de falência ou abandono. Mas em muitas explorações a margem para melhoria é enorme.

Há dois anos tive uma conversa interessante com alguém responsável por um fundo de investimento internacional que tinha acabado de comprar 2000 hectares de terra regada no Alentejo, com o objetivo de desenvolver um grande projeto frutícola. Quando perguntei porque escolheram Portugal, ele disse que tinham todo o conhecimento e tecnologia necessários para desenvolver um bom negócio, e que Portugal era um país seguro e estável, e por isso tinha a certeza de que seria um investimento rentável. E disse também que compraram a terra por 20.000 euros por hectare, e que tinham a certeza de que em 10 anos a iriam vender por pelo menos 40.000 euros.

Neste caso era terra regada. Mas podemos esperar este tipo de valorização no sequeiro? Por exemplo, numa herdade com montado? Julgo que podemos. De facto, o que está a acontecer em algumas herdades de sequeiro no Alentejo é impressionante. A inovação inclui novas raças e sistemas de produção animal, tecnologias de produção inteligentes, regeneração florestal, novas técnicas de controlo de pragas, ou “simplesmente” a conversão para agricultura biológica. Na verdade, existem no Alentejo herdades de sequeiro que “jogam num campeonato completamente diferente”, e são certamente “de encher o olho”…

Será então razoável dizer que se o valor da terra num montado mal gerido é de 6.000 euros por hectare, o valor num montado bem gerido pode ser de 12.000 euros por hectare?

Penso que sim. Com uma boa gestão, e com uma forte aposta na inovação e na tecnologia, é possível converter uma herdade de baixo valor numa herdade de alto valor, e ainda por cima mais sustentável. Isto aplica-se obviamente a áreas regadas, embora a competição por estas áreas regadas esteja a tornar-se feroz, mas aplica-se também nas explorações de sequeiro. Se eu tivesse alguns milhões de euros para investir, comprava uma herdade com montado no Alentejo, trabalhava arduamente e desenvolvia algumas parcerias para construir um bom (e de baixo risco) plano de negócios. Seria espetacular ver a transformação de uma exploração agrícola com um futuro incerto numa exploração “de encher o olho”, com árvores frondosas, pastagens verdes, e vacas bem alimentadas!

Artigo de Luis Mira da Silva (Sócio da CONSULAI)

O artigo foi publicado originalmente em Consulai.

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