O futebol é uma cena a que pouco assisto. Tornei-me adepto do Benfica por influência do meu pai, mas, tal como ele, nunca fui muito praticante dessa “religião”. Nunca fui à “catedral” da Luz, mas fomos os dois assistir a um jogo Benfica – Rio Ave, os nossos clubes, no antigo Estádio da Avenida, em Vila do Conde. Pelo contrário, fui duas vezes ao Estádio do Dragão, mas nunca para ver o “papa”, porque o nosso sempre esteve em Roma. A primeira vez terá sido há 15 anos, ao festival Panda e a segunda vez foi para ver a seleção, na Liga das Nações, derrotar a Suíça, tornando realidade a previsão que me fez ganhar dois bilhetes e duas camisolas num concurso da GALP, com a frase: “vamos comê-los como um queijo suíço!” E, se não estou em erro, foi um hat-trick de Ronaldo. Já posso dizer que o vi jogar ao vivo.
O futebol tem coisas horríveis, como a violência das claques nos estádios e os ataques de ódio nas redes sociais, mas também tem coisas fantásticas.
Em 2002, fui com um grupo de agricultores numa viagem organizada pela empresa Semex visitar vacarias de alta genética e o Royal Show no Canadá, atravessando de Montreal a Toronto. Aterrámos com 30 graus negativos e fomos parar a um interrogatório de duas horas no departamento de imigração – “Vais visitar quintas? E não trazes botas?” Fora do aeroporto estava a equipa da Semex que então nos deu as botas descartáveis tipo sacas de plástico para colocar por cima dos sapatos normais. O resto da viagem correu muito bem, com um detalhe que não esqueço, já em Toronto. Era meia-noite e regressávamos de táxi ao hotel. O motorista perguntou de onde éramos, respondemos “Portugal”. “Portugal? Luís Figo!!!”
Regressemos a 2026, manhã de 3 de julho, sexta-feira. Na ponta do mesmo campo por onde saiu, a caminho do mar, a “mulher misteriosa” da história que contei na semana passada, agora já com milho alto a pedir rega, estava eu a afinar o aspersor e apareceu-me um homem, menos misterioso, de chapéu e mochila às costas. Passa muita gente aqui perto, pela “Estrada velha”, vindo do Porto pelo “Caminho da Costa” em direção a Compostela. Tentei explicar que ali não era caminho, não percebeu, falei em inglês, percebia pouco, disse-me que era da República Checa, perguntei se conhecia o Marek Cech, futebolista eslovaco, antigo jogador do Porto, abriu um sorriso e respondeu que sim, expliquei que ele mora a 1 km do campo onde estávamos, a atitude do homem mudou, abriu o telemóvel, meteu o tradutor de checo para inglês e percebi que, tal como a outra senhora, também queria ir para o mar, a partir daí foi fácil dar as indicações e lá partiu, feliz, de mochila às costas. Pareceu-me vê-lo mais tarde, já na “estrada velha”, acompanhado, a caminhar em Direção a Santiago.
Recuemos 2 meses. Quando estive na Holanda, em Roterdão, apanhei um uber, nova cena… “De onde são?”, “Portugal” “Ah, Ronaldo!!!”. Minutos antes, na rua, um miúdo levava na mão um lego… do Ronaldo.
O futebol tem a magia do imprevisto, de um ressalto, um penalti, um capricho da bola. Podem-se fazer previsões, mas não basta ordenar as equipas pelo orçamento ou pelo valor de mercado de cada jogador para saber quem vai ganhar. E Ronaldo é muito mais do que futebol e os golos que marca. Com a carreira que construiu a pulso, é a inspiração para milhões e milhões de miúdos e gente de todas as idades em todo o mundo. Não é perfeito porque ninguém é perfeito, mas ninguém pode negar que é inspiradora a história de alguém que nasceu pobre, filho de um pai alcoólico, cresceu sem dinheiro para ir ao Mac Donalds, e mesmo assim teve sucesso na vida. Que este campeonato seja uma festa. Desfrutem!
PS – E parem de chamar velho a uma pessoa 10 anos mais nova do que eu! Se ele fosse agricultor ainda era jovem, carago!
Fonte: Carlos Neves













































