Em Portugal o melhoramento genético das aves foi iniciado por uma avicultora de nome Eduarda Matos, em colaboração com o seu primo italiano António Morelli, que em 1952 criaram o Aviário da Gândara, em Campo de Besteiros, concelho de Tondela, com vista à produção de ovos de galinha, tendo como objetivo prioritário fornecer um alimento de elevado valor nutritivo aos doentes com tuberculose em tratamento nos sanatórios existentes no Caramulo.
Pela primeira vez em Portugal selecionaram-se linhas puras, neste caso das raças New Hampshire e Rode Island Red, de cujo cruzamento se obtiveram galinhas poedeiras, as quais eram fornecidas aos primeiros avicultores produtores de ovos, instalados no concelho de Tondela.
Por sua vez os machos, embora neste caso pouco eficazes na produção de carne, eram criados na região e enviados em jaulas de madeira por comboio para Lisboa, onde eram vendidos, inclusivé para o icónico restaurante Bonjardim, que terá sido o primeiro estabelecimento lisboeta a confecionar frango no espeto.
Note-se que, ainda hoje, o frango de churrasco abatido com pouco peso e muito tenro, é bastante apreciado pelos consumidores portugueses, representando mais de 50 por cento do total de frangos consumidos entre nós.
Entretanto, devido à fraca aptidão dos referidos machos para a produção de carne, alguns avicultores começaram a importar galinhas reprodutoras pesadas e galos selecionados para darem origem a uma descendência com vocação para a produção de carne (aptidão creatopoética). Ainda conheci umas pequenas capoeiras, onde se alojavam dez galinhas reprodutoras e um galo, dispondo de um pequeno anexo onde as aves recebiam os raios solares e tinham acesso a algumas ervas, para assim suprirem eventuais deficiências nutritivas, nomeadamente vitamínicas, dos alimentos compostos então disponíveis.
Cabe notar que a situação atual em Portugal é completamente distinta: as galinhas reprodutoras recebem alimentos compostos completos, devidamente balanceados, permitindo que atinjam os resultados, expressos em número de pintos obtidos por galinha, mais elevados da União Europeia.
Estas aves de aptidão cárnica foram selecionadas, prioritariamente, quanto à velocidade de crescimento de frango de carne, dado que a um crescimento rápido corresponde um menor consumo de alimento até atingir o peso vivo pretendido ao abate. Deste modo baixa-se muito consideravelmente o custo de produção e diminui-se a área destinada ao cultivo dos alimentos administrados aos frangos, designadamente milho e soja. Ou seja, o melhoramento genético tem proporcionado, nomeadamente, uma proteína de elevado valor nutritivo, suscetível de ser vendida a um preço cada vez mais baixo e com um impacto no ambiente também cada vez menor.
Adicionalmente introduziram-se vacinas, registaram-se avanços nos domínios da nutrição das aves e do seu condicionamento ambiental – tudo concorrendo para uma maior eficiência alimentar e consequente abaixamento dos custo de produção.
Em consequência do que precede e tendo em atenção que o preço e o sabor são os dois critérios mais relevantes para a decisão dos consumidores, em Portugal o consumo de carne de frango subiu de 1,4 kg/habitante/ano em 1960 para 43 kg na atualidade – sendo a carne mais consumida em Portugal (se considerarmos as restantes aves, o consumo per capita de carne magra eleva-se a 50,5 kg).
No que respeita à sustentabilidade ambiental, para uma mesma produção avícola, a crescente eficiência produtiva conduz a uma redução de 600 000 hectares de terra cultivada por ano.
Nos últimos 20 anos, a crescente eficiência dos frangos de carne traduz-se em menos de 320 g de ração e de 0,57 L de água por kg de frango, 19% menos gases de efeito de estufa e redução de 28% de nitratos e fosfatos excretados.
Em conclusão, o melhoramento genético dos frangos de carne – associado aos avanços registados na nutrição, profilaxia e condicionamento ambiental – proporcionaram aos consumidores proteína saborosa de elevado valor nutritivo e baixo custo, e, simultaneamente, com um impacte ambiental cada vez menor.
O elevado consumo de carne magra supramencionado (o mais elevado da Europa) terá contribuído para a excelente classificação recentemente atribuída ao sistema alimentar português pela prestigiada revista The Economist (1º lugar, seguido pela França e Reino Unido).
Engenheiro Agrónomo, Ph.D.
Grupo Valouro
Importa criar condições para melhorar a competitivade agrícola













































