Ao todo, foram reintroduzidos 17 coelhos-bravos, distribuídos por três marouços artificiais construídos especificamente para este fim. Cada marouço recebeu um pequeno grupo reprodutor, composto por quatro a cinco fêmeas e um macho, criando núcleos de elevada densidade que permitem às populações estabelecerem-se nas melhores condições possíveis. Estes marouços artificiais encontram-se protegidos por vedação eletrificada que impedem o acesso de predadores e disponibilizam alimento, água e abrigo. O objetivo é permitir que os animais se adaptem ao território e se reproduzam em segurança durante a fase inicial antes de serem libertados. À medida que a população aumenta, os coelhos começam gradualmente a sair das vedações e a colonizar naturalmente a área rewilding envolvente, passando a sobreviver de forma autónoma.

Créditos: João Cosme
Esta abordagem representa uma estratégia baseada nas melhores práticas conhecidas na Península Ibérica para acelerar a recuperação de uma espécie-chave dos ecossistemas mediterrânicos. O coelho-bravo constitui a principal presa do lince-ibérico e da Águia-imperial-ibérica, e é também uma importante fonte de alimento para mais de 20 outros predadores ibéricos, incluindo o lobo-ibérico, pelo que o reforço das suas populações é essencial para restaurar as cadeias ecológicas e promover o regresso de grandes predadores.
A seleção da área do Ermo das Águias foi feita após a confirmação da ausência de populações de coelho-bravo no local, tanto pela equipa de biólogos com base em monitorizações no terreno, como por relatos de antigos caçadores, permitindo criar um núcleo populacional onde recentemente a espécie estava ausente. Esta área tem vindo a beneficiar de várias ações de rewilding ao longo dos últimos anos, incluindo o pastoreio natural por cavalos Sorraia e Tauros, contribuindo para a recuperação dos habitats e criando condições cada vez mais favoráveis para a biodiversidade.
Um trabalho que começa muito antes da libertação
Os animais libertados resultam de um trabalho mais alargado desenvolvido pela Rewilding Portugal no âmbito do projeto LIFE LUPI LYNX e que incluiu a aquisição de um cercado de reprodução, uma infraestrutura dedicada à criação de coelhos-bravos para futuras ações de reforço populacional. Este cercado, localizado fora das áreas rewilding, permite produzir animais destinados a projetos de restauro ecológico e constitui uma peça fundamental da estratégia de recuperação da espécie.
Paralelamente, a organização procura expandir esta capacidade através da criação de novos cercados de reprodução em parceria com municípios, associações de caça e outros proprietários, aumentando assim a produção de animais para futuras intervenções. Esta diversificação facilita o aumento da diversidade genética nos coelhos usados, tendo várias fontes de animais, garantindo uma maior robustez genética das populações.
A Rewilding Portugal apoia igualmente outras entidades na realização de ações semelhantes nas suas propriedades, contribuindo para a recuperação do coelho-bravo à escala da paisagem e reforçando a disponibilidade desta espécie em territórios prioritários para o lobo e o lince.
Próximos passos
Após esta primeira reintrodução, a equipa continuará a monitorizar a evolução das populações no Ermo das Águias. Está igualmente prevista uma nova ação de reforço na área rewilding do Paul de Toirões, onde estão atualmente a ser preparados novos marouços artificiais para receber futuros grupos reprodutores.
Embora já tenham sido registados indivíduos dispersantes de lince-ibérico no distrito de Castelo Branco, ainda não existem populações estabelecidas na região. Atualmente, as populações reprodutoras mais próximas encontram-se no Alentejo, estando a espécie a expandir lentamente a sua distribuição natural para norte.
A disponibilidade de coelho-bravo será um dos fatores determinantes para que essa expansão possa resultar, no futuro, no estabelecimento de populações permanentes no Grande Vale do Côa. É precisamente esse o objetivo destas ações: criar hoje as condições necessárias para que espécies emblemáticas como o lince-ibérico e o lobo-ibérico possam voltar a ocupar este território.
O reforço populacional agora realizado contribui diretamente para os objetivos do projeto LIFE LUPI LYNX, sucessor do LIFE WolFlux, que pretende aumentar a disponibilidade de habitat e de presas em mais de 16 mil hectares de território prioritário para a conservação destas duas espécies.
Uma espécie cada vez mais relevante para a conservação
A importância deste trabalho ganha ainda maior significado à luz dos mais recentes avanços científicos. Recentemente, uma equipa internacional de investigadores defendeu que o coelho-ibérico (Oryctolagus algirus) deve ser reconhecido como uma espécie distinta do coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus), reforçando a singularidade deste importante elemento da biodiversidade da Península Ibérica.
Embora esta proposta científica ainda aguarde validação pelas autoridades taxonómicas internacionais, os investigadores consideram que o reconhecimento desta distinção permitirá refletir melhor o estado de conservação do coelho-ibérico e orientar estratégias de gestão e conservação mais adequadas.
Caso venha a ser oficialmente reconhecida, esta reclassificação atribuirá ainda maior relevância a iniciativas como a desenvolvida pela Rewilding Portugal no âmbito do LIFE LUPI LYNX, que contribuem para a recuperação de uma espécie-chave dos ecossistemas mediterrânicos e para a criação das condições necessárias ao regresso do lince-ibérico e ao reforço das populações de lobo-ibérico no Grande Vale do Côa.
Fonte: Rewilding Portugal













































