A gestão florestal sustentável através de processos de certificação pode constituir um motor relevante para a proteção da biodiversidade e para o enriquecimento dos ecossistemas. A conclusão surge num novo trabalho conduzido por investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), pertencente à Universidade de Aveiro, divulgado este mês na revista internacional Trees, Forests and People.
A equipa, composta pelos biólogos Joana Pinto e Victor Bandeira e pela investigadora em ordenamento Sofia Corticeiro, avaliou o panorama científico global em torno do tema e debruçou-se sobre a realidade de explorações florestais em Portugal abrangidas por esquemas de certificação ou em fase de transição. Ao cruzar dados sobre a vegetação local com o registo de mamíferos, aves, répteis e anfíbios, o grupo de cientistas identificou padrões ecológicos evidentes: áreas caracterizadas por uma vegetação mais rica e heterogénea — congregando diferentes tipos de árvores, arbustos e estratos herbáceos, aliados à disponibilidade de pontos de água — oferecem condições substancialmente mais acolhedoras para o desenvolvimento da fauna.
As diretrizes associadas a modelos certificados costumam impor medidas concretas no terreno, como a salvaguarda de cursos de água e margens ripícolas, a conservação de manchas de matas nativas antigas, a permanência de madeira morta no solo ou o recurso ponderado a queimadas controladas. Tais intervenções favorecem diretamente desde populações de insetos e peixes até animais de grande porte.
Apesar do saldo positivo, a investigação alerta para assimetrias no conhecimento e na aplicação prática destas ferramentas. A literatura científica existente foca-se de modo desproporcional na realidade europeia e privilegia aves e mamíferos, deixando répteis, anfíbios e invertebrados em segundo plano. Além disso, a intensidade de corte e a fragmentação do território continuam a representar entraves severos para espécies com exigências biológicas mais sensíveis, tornando imperativo desenhar planos à medida de cada região geográfica e das suas espécies autóctones.
O estudo — desenvolvido no âmbito do projeto ERA Chair BESIDE — avisa igualmente que a certificação não atua como uma solução milagrosa quando aplicada isoladamente. A obtenção de impactos verdadeiramente duradouros exige o alinhamento com instrumentos mais amplos, nomeadamente a Rede Natura 2000 e as metas globais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
No plano financeiro, embora a certificação abra portas a mercados mais exigentes e valorize a produção, a equação económica nem sempre é imediata para os gestores florestais, que ainda enfrentam despesas administrativas expressivas e retornos que por vezes ficam aquém do previsto.
Perante este cenário, os autores do estudo sustentam que a aposta em monitorizações regulares e prolongadas no tempo será decisiva para aferir a eficácia das medidas em múltiplos habitats e consolidar modelos em que o rendimento económico conviva em harmonia com a preservação ambiental.
Fonte: UNAC















































