Um relatório regional divulgado hoje aponta que mais de 3,5 milhões de moçambicanos enfrentam níveis preocupantes de insegurança alimentar, com as situações mais graves a registarem-se no norte, em Cabo Delgado e Nampula.
A 70.ª edição do Monitor de Segurança Alimentar estima que o equivalente a 18% da população moçambicana se encontra em situação de insegurança alimentar classificada como Fase 3 ou superior da Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC).
A Fase 3 do IPC designada por “Crise”, corresponde a situações em que as famílias enfrentam dificuldades significativas de acesso a alimentos ou apenas conseguem satisfazer as necessidades mínimas recorrendo a estratégias que comprometem os seus meios de subsistência futuros.
O relatório foi produzido pela Aliança para uma Revolução Verde em África (AGRA), organização africana que trabalha com governos, instituições de investigação, setor privado e parceiros de desenvolvimento para promover o aumento da produtividade agrícola, a melhoria dos sistemas alimentares e o reforço da segurança alimentar no continente.
Entre os 14 países da África austral analisados no documento, Moçambique surge como o quinto com maior número absoluto de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda, atrás da Nigéria, Sudão do Sul, Quénia e Maláui.
Segundo a AGRA, a situação alimentar moçambicana apresenta fortes contrastes regionais. Enquanto parte das regiões centro e sul beneficiou da recuperação da produção agrícola, do aumento dos rendimentos sazonais e de melhores colheitas, as áreas afetadas pela violência armada em Cabo Delgado e algumas zonas do norte de Nampula continuam a enfrentar níveis de crise alimentar.
O documento refere que a insegurança, os deslocamentos populacionais e a perturbação dos meios de subsistência continuam a limitar o acesso regular a alimentos nestas províncias do norte do país, apesar da atual campanha agrícola.
A organização acrescenta que os agregados familiares mais vulneráveis permanecem expostos aos efeitos combinados do conflito, dos fenómenos climáticos extremos e da dependência crescente dos mercados para aquisição de alimentos.
Os preços dos produtos alimentares continuam igualmente sob pressão, com o relatório a apontar que Moçambique registou uma subida anual de 51,2% no preço do milho, uma das mais elevadas na região. Já o preço do feijão aumentou 5,8% em termos homólogos, refletindo, segundo os autores, constrangimentos de oferta e perturbações localizadas nos mercados agrícolas.
A AGRA alerta ainda para a forte subida do custo dos fertilizantes no país. Os preços da ureia aumentaram 93,8% face ao ano anterior, enquanto os fertilizantes NPK registaram um crescimento anual de 56,5%, agravando os custos de produção para os agricultores.
O relatório assinala igualmente que Moçambique está entre os países africanos mais vulneráveis aos impactos previstos do fenómeno climático El Niño, cuja persistência é esperada até ao final de 2026 e início de 2027.
Segundo a organização, as previsões apontam para riscos de redução das chuvas em algumas regiões, temperaturas acima da média, perdas de rendimento agrícola, aumento dos preços dos alimentos e maior vulnerabilidade das populações rurais dependentes da agricultura de subsistência.
A AGRA considera que as melhorias verificadas em algumas regiões moçambicanas durante a atual campanha agrícola poderão ser temporárias caso se confirmem os cenários de irregularidade climática previstos para a próxima época agrária.
A província de Cabo Delgado, rica em gás natural, enfrenta uma insurgência armada desde outubro de 2017.
A organização Projecto de Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados (Acled, na sigla em inglês) registou 11 eventos violentos nas duas primeiras semanas de junho em Cabo Delgado, todos envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram oito mortos, elevando para 6.632 o número total de óbitos desde 2017.
De acordo com o mais recente relatório da Acled, com dados de 01 a 14 de junho, dos 2.408 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.224 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique.















































