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Incêndios: Áreas afetadas nos recentes fogos rurais validam carta de perigosidade – investigador

por Lusa
01-10-2024 | 16:11
em Nacional, Últimas, Notícias florestas, Incêndios
Tempo De Leitura: 4 mins
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Um responsável pela Carta de Perigosidade de Incêndio Rural considerou que os recentes fogos alinham com dados dos últimos seis anos e, afetando cerca de três quartos (cerca de 75%) das áreas de maior perigo, validam a carta.

“Verificou-se que as grandes áreas ardidas”, na semana entre 15 e 20 de setembro, “daqueles 120 mil, 130 mil hectares, cerca de três quartos estão em cima das duas classes de perigosidade maior”, o que “só valida a Carta [de Perigosidade de Incêndio Rural]”, afirmou à Lusa o geógrafo José Luís Zêzere, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa.

O também diretor do Centro de Estudos Geográficos fez parte da equipa do IGOT que elaborou a Carta de Perigosidade de Incêndio Rural (estrutural) para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e que integra o Sistema Nacional de Informação Territorial da Direção-Geral do Território (DGT).

“Fomos contratados pelo ICNF já há uns anos, na altura da pandemia [de covid-19], por aí, para fazermos a atualização de uma carta que tinham de perigosidade estrutural de incêndio”, contou o investigador, acrescentando que a carta para 2020-2030 foi elaborada “sempre em articulação com o ICNF” e divulgada no final de 2020.

“É uma carta relativamente simples, que tem cinco classes de perigosidade e que, independentemente do clima, não depende rigorosamente nada do clima, depende apenas das características do território, portanto, é por isso que se fala numa perigosidade estrutural”, explicou José Luís Zêzere.

O documento foi construído com base nas áreas ardidas até 2018, assente num “modelo de previsão territorial, para determinado ponto onde é mais provável” que “vá arder a seguir ou que vá arder nos próximos anos”, precisou.

Não contabilizando este ano, desde 2019, “nestes cinco anos, 77% do que ardeu” foi nas áreas classificadas “como perigosidade muito alta ou alta”, que “correspondem sensivelmente a 31% do país”, avançou o geógrafo.

Embora os números deste ano ainda não estejam oficialmente disponíveis (e fechados), até agora “estão perfeitamente alinhados com os dados dos anos anteriores”, pelo que o professor do IGOT reforçou que o mapa da perigosidade “não adivinha, nem pretende adivinhar” quando é que arde, mas aponta, “feitas as contas” após 10 ou cinco anos, que a maior parte arde “naqueles sítios”.

“Neste caso, já ao fim de seis anos (…) verificamos é que o mapa serve, ou seja, três quartos do que arde está a arder nos sítios onde nós dizemos que é mais provável que vá arder, com base no uso do solo” e no declive e “altitude do terreno”, as “três variáveis ponderadas”, num “modelo que tem uma base de estatística” usando “as áreas ardidas até 2018”, frisou.

Dados oficiais sobre fogos nas áreas de perigosidade elevada ainda não estão disponíveis, mas fonte oficial do ICNF avançou à Lusa que, entre 14 e 19 de setembro, os dados provisórios apontam para 126.398 hectares (ha) ardidos, nas regiões Norte e Centro, enquanto no total do país arderam, entre 01 de janeiro e 29 de setembro, 134.338 ha em 6.313 incêndios rurais.

“A recorrência do fogo em Portugal é uma coisa relativamente monótona em termos estatísticos”, destacou Zêzere, salientando que a ausência de surpresas se deve ao facto de o declive e altitude dos terrenos não mudarem, pois só se alteram “a uma escada geológica”, e numa década também não tem mudado o “uso do solo, que tem a ver com o ordenamento do território” e florestal.

Para o geógrafo, “se tivesse havido uma modificação estrutural a esse nível, provavelmente o mapa deixava de acertar”, nomeadamente em alguns sítios de perigosidade muito elevada, mas como “a esse respeito mudou muito pouco”, ou “praticamente nada”, o mapa continua atual.

Aliás, em alguns casos, o que mudou “será no sentido do agravamento” da situação, pois muitos territórios classificados na cartografia oficial como florestais “já têm pouco de florestal” e “estão abandonados”.

“São aqueles territórios mal cuidados, com aquele eucalipto que já deu duas, três, quatro, cinco vezes, que é pequeno, que está cheio de mato”, que cresce “e arde com muita facilidade”, a que se junta a falta de ordenamento, e “o resultado acaba por ser esse, extensões exageradas de matéria combustível disponível para arder”, apontou.

“O ano ia bom, do ponto de vista da meteorologia, no dia 15 de setembro, o país tinha 15.800 hectares de área ardida”, mas, de acordo com dados do ICNF, “em menos de uma semana” arderam mais de 120.000 hectares, o que, para Zêzere, “é uma brutalidade”.

O investigador admitiu que não arderam os 30% do país que o mapa sinaliza como perigosos do ponto de vista estrutural, mas isso deveu-se a não haver ignições em todo o lado e por “algumas das áreas de perigosidade estrutural muito elevada” terem “ardido há dois anos”.

E exemplificou com os fogos próximos da Serra da Estrela, travados nos sítios que arderam em 2022, pois “ali o combustível ainda era pouco”.

“O mapa está bem feito, está validado do ponto de vista científico, e isso é o que me interessa. A cartografia estrutural acabou por ficar suspensa, não foi por causa do mapa, foi pelo tipo de utilização que quiseram dar ao mapa também, é bom que isto fique claro”, vincou José Luís Zêzere.

Nove pessoas morreram e mais de 170 ficaram feridas em consequência dos incêndios entre 15 e 20 de setembro. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil contabilizou oficialmente cinco mortos nos fogos.

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