Trabalho foi levado a cabo por equipa internacional liderada por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que analisaram girinos recolhidos em Sintra;
Um estudo internacional conduzido por investigadores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e publicado na revista Scientific Reports, revela que os girinos conseguem ajustar a alimentação à temperatura da água, sugerindo que poderão adaptar a sua dieta em resposta ao aquecimento associado às alterações climáticas. Estudo prova ainda que essa estratégia tem limites e que com a intensificação desse aquecimento, a capacidade de resposta torna-se menos eficaz.
A investigação centrou-se no sapo-comum (Bufo spinosus), uma espécie amplamente distribuída em Portugal. Tal como os peixes, os répteis e os insetos, os sapos são animais ectotérmicos, o que significa que a sua temperatura corporal depende diretamente da temperatura ambiente. Por isso, alterações na temperatura da água podem ter efeitos profundos no seu crescimento, desenvolvimento e sobrevivência.
Para analisar devidamente estes efeitos, os investigadores criaram girinos recolhidos na Serra de Sintra sob diferentes condições de temperatura e alimentação. “Este é o primeiro estudo deste género realizado em vertebrados e mostra que os girinos conseguem ajustar a sua alimentação em função da temperatura” explica Sara Bento, primeira autora do estudo. “Em temperaturas mais baixas os girinos incorporam uma maior proporção de alimento de origem animal na dieta, enquanto em temperaturas mais elevadas aumentaram o consumo de matéria vegetal e a taxa de consumo. No entanto, verificámos que esta estratégia se torna progressivamente menos eficaz à medida que a temperatura aumenta”, acrescenta a investigadora.
Além do aumento da temperatura impactar a alimentação, o estudo concluiu que também impacta o desenvolvimento: o aquecimento acelera-o. Nos tratamentos experimentais de 12 °C, 16 °C e 20 °C, o período larvar diminuiu progressivamente, passando de cerca de 177 dias nas condições mais frias para apenas 30 dias nas mais quentes. Contudo, este desenvolvimento mais rápido tem custos: os animais que completaram a metamorfose a temperaturas mais elevadas apresentaram menor massa corporal e pior condição física do que aqueles que cresceram a temperaturas mais frias.
Este trabalho é inédito no sentido em que se demonstra, pela primeira vez, em vertebrados, que a capacidade de compensar os efeitos do aumento da temperatura através da alimentação é condicionada por limitações fisiológicas. O estudo foi desenvolvido por uma equipa do CE3C, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, composta por Sara Bento, Joana Martelo, Maria F. Magalhães, Pedro P. Sousa, João Caramelo, Joana Vilas Boas, Vladimíra D. Carreira, Rui Rebelo e Bruno M. Carreira, em colaboração com os investigadores Pavel Kratina, da Queen Mary Universidade de Londres (Reino Unido), Richard Svanbäck e Anssi Laurila da Universidade de Uppsala (Suécia).
Implicações além dos anfíbios
O estudo revelou ainda um resultado pouco comum: as temperaturas mais elevadas alteraram a composição elementar dos tecidos dos jovens sapos após a metamorfose. Esta alteração sugere que o aquecimento não afeta apenas o crescimento e o desenvolvimento, mas também a forma como os organismos processam e armazenam nutrientes.
As implicações desta descoberta vão além dos anfíbios. Os resultados ajudam a compreender de que forma o aquecimento global pode alterar as interações alimentares entre espécies e influenciar o funcionamento dos ecossistemas aquáticos. Ao modificar a composição dos tecidos corporais, o aumento da temperatura poderá também alterar o valor energético destes animais enquanto presas, produzindo efeitos em cascata nas cadeias alimentares.
Numa região particularmente vulnerável às alterações climáticas como a mediterrânica, os investigadores defendem que a preservação de refúgios térmicos em zonas húmidas e outros ecossistemas de água doce poderá desempenhar um papel importante na proteção dos anfíbios e de muitas outras espécies aquáticas.
O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Portugal, através do projeto EDGES (DOI: 10.54499/PTDC/BIA-BMA/1893/2020), de um contrato de investigador (DOI: 10.54499/CEECIND/02435/2018/CP1534/CT0007) e de uma bolsa de doutoramento (DOI: 10.54499/2022.09897.BD). O artigo foi publicado em regime de Acesso Aberto (Open Access).
Artigo científico: Temperature constrains diet-induced plasticity in the life-history of an aquatic vertebrate
Fonte: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa














































