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A importância do potássio e do cálcio na qualidade da uva

por Voz do Campo
13-11-2019 | 08:25
em Nacional, Últimas
Tempo De Leitura: 10 mins
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INTRODUÇÃO

Entre os vários nutrientes que podem ser utilizados na adubação da vinha podem indicar-se dois com um papel destacado na qualidade das uvas:
. O Potássio, que é um elemento muito importante a ter em consideração, pelo seu papel na síntese dos açúcares, na acidez dos mostos e na constituição de reservas para a planta;
. E o Cálcio, na estrutura das paredes da película, ajudando na prevenção de alguns agentes patogénicos, como é o caso da Botrytis.

A vinha tem grandes exigências de potássio para o crescimento e maturação das uvas, em especial nas vinhas de altas produções.
No entanto temos que ter em atenção às quantidades aplicadas deste nutriente, pois quando estas são muito elevadas, podemos observar alguns inconvenientes, que se repercutem na qualidade das uvas:

. Carência de magnésio;
. Aumento do pH dos mostos e dos vinhos.

Na adubação potássica das vinhas, temos que ter em atenção os teores de Potássio e de Magnésio, e ainda a textura do solo ( % de argila e tipo de argila).
O Cálcio é também um nutriente necessário na vinha e é considerado um importante factor da qualidade da uva.
As necessidades da vinha em cálcio são geralmente satisfeitas, desde que se mantenha o pH dos solos dentro da neutralidade.
Nesse sentido, vamos descrever neste artigo, a importância destes dois nutrientes, na qualidade da uva.

POTÁSSIO

O potássio é um elemento determinante da qualidade da produção, um factor de rendimento, da saúde e da longevidade da planta, com os seguintes papéis:

  • Controla a alimentação hídrica da vinha
  • Permite o engrossamento dos bagos
  • Influencia a migração dos açúcares
  • Melhora os aromas e sabor do vinho
  • Melhora o atempamento das varas

Sintomatologia da carência de potássio
No caso da carência em potássio, os primeiros sintomas manifestam-se na zona marginal das folhas (figuras 1 e 2), seguidas de necroses.
As folhas com tendência a enrolar-se (figura 3) e em casos mais graves as cloroses marginais avançam para a zona das entrenervuras (figura 4), como acontece com a carência de magnésio.
Os sintomas manifestam-se nas folhas mais jovens da extremidade, em direcção às folhas mais velhas, descendo até à base dos sarmentos.
A sintomatologia pode confundir-se com:
. Com a acidez do solo
. Condições de secura
. Ataque de cicadelídeos

1 – Carência de potássio nas zonas marginais da folha

Consequências da falta de K:

  •  Um mau atempamento das varas
  •  Redução da produção em quantidade e qualidade da uva
  • Diminuição do teor dos açucares nos bagos

São condições favoráveis para a sua falta:

  •  Fraco teor de Potássio no solo, especialmente no complexo de troca (é necessário uma relação K de troca / Mg de troca > 4);
  •  Quando a relação N/K é elevada, temos mais biomassa e logo maior necessidade de K;
  • Lixiviação em solos de textura ligeira, especialmente após chuvas fortes;
  •  Sensibilidade de alguns porta-enxertos, caso do 1103-P, que tem menor capacidade de absorção de K.
  • A análise foliar ( folha + peciolo), permite prever a carência antes do aparecimento da sintomatologia visual.

A apreciação do teor do potássio disponível para a planta pode realizar-se através dos resultados das análises de solo e foliares.

Uma concentração de potássio inferior a 100 mg/kg no solo traduz um estado de carência, sendo os valores na folha adequados (plena floração) entre 1,50 e 2,50 %.

Como e quando corrigir?

  • Em termos preventivos – via solo
    Esta carência deve ser vista sob forma preventiva, que consiste, logo antes da plantação, realizar uma boa adubação potássica destinada a constituir e a manter boas reservas nutritivas em níveis óptimos, o maior tempo possível.
    Ao longo do desenvolvimento da vinha, aplicar regularmente adubos potássicos com o fim de compensar as exportações da vinha e as perdas por lixiviação.
  • Em termos curativos – via solo
    Aplicações ao solo durante um período de três anos, na ordem das 50 a 100 unidades de K2O por hectare.Influência da adubação potássica nos teores de potássio e acidez dos mostos e dos vinhos na casta Cabernet Sauvignon
  • Em termos curativos – via foliar
    Recorrendo às pulverizações com Nitrato de Potássio ou Sulfato de Potássio (1 kg por 100 litros de água, em duas ou três aplicações), ou com um produto comercial similar, nas doses recomendadas pelo fabricante.

Uma adubação potássica equilibrada pode aumentar a resistência das plantas a condições de secura, devido ao papel deste nutriente, como regulador estomático e transpiratório.

A carência de K pode provocar uma diminuição da quantidade e qualidade da produção: baixos teores de açúcar nos mostos e uma elevada acidez.

Efeitos do Potássio numa vinha carenciada (Delas et Molot, 1967 e 1968)

Uma adubação potássica elevada pode levar a situações negativas, como sejam a nível da indução à carência de magnésio, quando a relação entre os nutrientes é elevada.

Indução de carência de Mg por excesso de adubação potássica (Delas e Molot, 1967 e 1968)

CÁLCIO

O cálcio é um elemento determinante no crescimento e desenvolvimento das plantas, tendo um papel importante na divisão celular e no fortalecimento das paredes celulares.
Nas plantas carenciadas neste elemento, o crescimento radicular é deficitário e sujeito ao risco de contaminação por fungos, responsáveis por doenças radiculares e da madeira.
Também é importante na germinação do pólen e no desenvolvimento do tubo polínico.

O cálcio no solo
Na maioria dos solos o cálcio é suficiente para o desenvolvimento das plantas, devido à sua presença como principal catião de troca (até 80% dos catiões de troca). No entanto nos solos ácidos há menos cálcio disponível para as plantas do que nos neutros ou alcalinos, agravada pela presença do manganês e do alumínio, como acontece nalguns solos da região do Entre Douro e Minho.
É importante manter um bom nível de cálcio no solo, suficiente para garantir uma boa estrutura do mesmo e uma boa capacidade de absorção dos outros nutrientes (azoto, fósforo, potássio e boro, etc.).
O cálcio é absorvido pelas plantas na forma de ião Ca2+ a nível das raízes jovens, e é transportado pelo fluxo transpiratório no xilema.
A absorção do ião Ca2+ pode ser afectada, negativamente, pela presença de outros catiões: NH4+, K+, Mg2+, Mn2+ e Al3+ e estimulada pela presença de azoto na forma nítrica.

Consequências da falta de Ca:

  • Reais:
    . Aparecimento do Desavinho
    . Desenvolvimento da Dessecação do Engaço
  • Induzidas:
    . Carência de Boro
    . Toxicidade de Manganês ( aparecimento de pontos negros de óxido de manganês nas varas)
    . Toxicidade de Alumínio ( apresentando-se as raízes espessas e enroladas)
    . Toxicidade de cobre

O cálcio na planta
É um elemento estrutural, que entra na formação das paredes celulares.
Aumenta a plasticidade das células, evitanto o rachamento das varas da videira.
Cria um meio desfavorável ao desenvolvimento dos fungos “ Botrytis”, bactérias e vírus.

I – A evolução do Cálcio no decurso do desenvolvimento da uva
No decurso do desenvolvimento do bago, a concentração em cálcio diminui na polpa para se acumular na película, localizando-se ao nível das paredes celulares, reforçando assim a sua coesão (quadro 1).

Fonte: SAMABIOL

Bago de ervilha

II – Relação entre o Cálcio parietal e a sensibilidade à “Botrytis”
A correlação entre a sensibilidade dos agentes patogénicos e o teor de cálcio parietal das películas, mostram que os bagos tendo as paredes celulares mais ricas em cálcio, são aquelas que apresentam a melhor resistência à “Botrytis”.
Para verificar esta observação, foram feitos ensaios de aplicação de cálcio sobre os bagos.
Os resultados obtidos (quadro II) mostram que as aplicações de cálcio a partir do pré-pintor deram melhores resultados, em comparação com as aplicações pós-pintor.

Quadro II – Influência da pulverização do cálcio sobre a % dos bagos infectados pela Botrytis Cinerea

Como e quando corrigir?

  • Via solo
    1. Recorrendo às correcções calcárias no período Outono-Inverno, quando em presença de um solo ácido, com um pH igual ou inferior a 5,5, no sentido de disponibilizar e fornecer cálcio ao solo.
    2. Recorrendo às adubações com Nitrato de Cálcio, especialmente nas vinhas novas, na dose de 150 gramas por planta.
  • Via foliar
    Podemos recorrer a várias soluções comerciais existentes no mercado, dando preferência aquelas que contenham o Cálcio associado ao Boro.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
DELAS, Jacques (2000) “Fertilisation de la Vigne”
GALET, Pirre (1993) – “Précis de Viticulture”
GUERRA, António Pedro Tavares – Algumas considerações sobre a Fertilização das culturas arbóreas, D.R.A.E.D.M., 1986
MAGALHÃES, Nuno (2008) “Tratado de Viticultura”
MELO, Ilda F.S. (1979) “Microelementos – Sua acção na Videira”
SAMABIOL ( 1993) “ Informações Técnicas”

Um artigo de António Pedro Tavares Guerra
Engenheiro Técnico Agrário
Licenciado em Engenharia Agro-Pecuária
Formador e Consultor Técnico em Nutrição Vegetal
*Escrito ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico

Publicado na Voz do Campo n.º 227 (junho 2019)

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