Um estudo universitário argumenta que a albufeira do Alqueva “transformou a agricultura e economia do Alentejo”, mas não inverteu a diminuição e envelhecimento da população e “uma parte significativa da riqueza gerada não permanece na região”.
Estas são algumas das conclusões de um estudo produzido por Carlos Gonçalves, da Universidade de Évora (UÉvora), e Jorge Gonçalves, do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, publicado este ano na revista científica Sustainability.
Em comunicado enviado à agência Lusa, a UÉvora indica que o trabalho considera que o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) “não conseguiu resolver todos os problemas que justificaram” a sua criação.
“O EFMA foi criado com uma grande ambição: ajudar a desenvolver o sul de Portugal. Prometia modernizar a agricultura, fixar população, criar emprego e reduzir desigualdades entre territórios”, realça Carlos Gonçalves, investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da UÉvora, citado no comunicado.
Segundo a academia alentejana, o estudo “analisa até que ponto essas promessas se concretizaram”, tendo os investigadores recorrido à análise documental, a dados dos censos, a indicadores económicos e sociais e ao estudo dos impactos do projeto no território.
“Os resultados revelam uma realidade contraditória. Alqueva aumentou a área de regadio, melhorou a segurança no abastecimento de água, impulsionou as exportações agrícolas, contribuiu para a produção de energia renovável e deu nova visibilidade turística à região”, salienta.
Porém, realça a universidade alentejana, “os ganhos económicos e produtivos não foram acompanhados de uma transformação equivalente das condições sociais e demográfica”, pelo que “muitos dos problemas que o projeto prometia resolver continuam presentes”.
“A população continua a diminuir, o envelhecimento mantém-se elevado, muitos trabalhadores agrícolas migrantes vivem em situações precárias, a terra está cada vez mais concentrada em grandes explorações, grande parte da riqueza gerada não fica na região e as pressões sobre o ambiente têm aumentado”, afirma Carlos Gonçalves.
Para este especialista em planeamento regional e urbano, “uma grande obra pública pode ser tecnicamente bem-sucedida”, mas isso não garante “um desenvolvimento justo e equilibrado para o território”.
“No caso de Alqueva, os benefícios foram importantes, mas não chegaram de forma suficiente às populações locais”, alega.
Este estudo, de acordo com a UÉ, também analisou a forma como os benefícios da transformação agrícola são distribuídos e em que medida a riqueza produzida permanece no território.
“A expansão do regadio e a modernização da agricultura podem aumentar a produtividade e reforçar a capacidade exportadora, mas não garantem, por si só, que os ganhos se traduzam em melhores condições de vida para as populações”, observa.
O trabalho defende que “a concentração da propriedade, o peso dos grandes investidores e a precariedade laboral levantam questões sobre a distribuição das oportunidades e dos benefícios gerados”.
“O problema não está apenas na infraestrutura em si. Está também na forma como o desenvolvimento foi organizado”, alerta o investigador.
Na sua perspetiva, “são necessários melhores mecanismos de redistribuição da riqueza, maior coordenação entre instituições, mais participação local e políticas que assegurem que uma parcela mais significativa do valor criado permanece na região”.
“Sem estas condições, os benefícios podem concentrar-se sobretudo nos grandes investidores e em interesses externos”, alerta.














































