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Agricultura regenerativa: conciliar produção e conservação

por Florestas.pt
19-10-2026 | 15:21
em Nacional, Últimas, Notícias florestas, Blogs
Tempo De Leitura: 10 mins
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Pode uma exploração agrícola produzir alimentos enquanto melhora o solo, reforça a biodiversidade e reduz a dependência de fatores de produção externos? Embora não exista uma “receita única” para alcançar este objetivo, a agricultura regenerativa propõe uma melhoria contínua do ecossistema produtivo, procurando conciliar ecologia, produtividade e viabilidade económica.

A agricultura regenerativa é uma abordagem integrada de gestão que procura conciliar a produção agrícola com a manutenção e recuperação dos recursos naturais essenciais à própria agricultura, como o solo, a água e a biodiversidade.

O conceito tem raízes no movimento orgânico e começou a ser usado na década de 1980, por Robert Rodale, que usou a expressão “regenerativa” por considerar que transmitia a ideia de uma agricultura que trabalha com a natureza – em vez de contra ela.

Embora a expressão agricultura regenerativa tenha ganho visibilidade a partir do final do século XX, conquistando espaço de debate e divulgação, assim como adeptos, soluções e implementações, muitas das práticas associadas ao conceito são utilizadas há séculos em diferentes regiões do mundo. As rotações de culturas, a integração de animais e as culturas de cobertura são alguns exemplos.

O solo como a base da agricultura regenerativa

Apesar do interesse que continua a despertar, a agricultura regenerativa não tem uma definição universalmente aceite nem um referencial legal ou regulatório que estabeleça o conceito. Um artigo de revisão, que analisou 229 publicações científicas e 25 websites relacionados com o tema, encontrou definições baseadas tanto nas práticas utilizadas (como a redução da mobilização do solo, a utilização de culturas de cobertura e a integração de animais) como nos resultados pretendidos (como a melhoria da saúde do solo, o aumento da biodiversidade ou o armazenamento de carbono).

O solo surge como denominador comum de várias definições e abordagens para a agricultura regenerativa. A premissa é que travar a degradação do solo, melhorar a sua saúde e favorecer a formação de matéria orgânica pode beneficiar outras funções dos ecossistemas, como a infiltração e retenção de água, o armazenamento de carbono orgânico, a diversidade biológica e a fertilidade. Dependendo do contexto, da combinação de práticas e do período de avaliação, estas melhorias podem refletir-se em aumentos da produtividade, da rentabilidade e da resiliência, criando segurança ambiental, económica e alimentar.

Em busca de consenso e de métricas para a trajetória de conservação

A FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, por exemplo, indica que a agricultura regenerativa é uma abordagem holística e inclusiva para a gestão de agroecossistemas, orientada para “conservar e restaurar a terra, os solos e a biodiversidade, ao mesmo tempo que fortalece os serviços dos ecossistemas nos sistemas agrícolas. Esta abordagem promove a regeneração da saúde do solo, melhora os processos hidrológicos e conserva a biodiversidade a diferentes níveis, incentivando em simultâneo uma utilização mais eficiente dos fatores de produção e dos recursos naturais”.

Um dos principais institutos independentes de investigação agrícola nos EUA, o Noble Research Institute, define-a como “o processo de restaurar os solos degradados através de práticas de gestão baseadas em princípios ecológicos, como o pastoreio adaptativo, a sementeira direta e a utilização mínima ou nula de pesticidas ou fertilizantes sintéticos (…)”.

Na Europa, já há alguns anos que a organização Climate Farmers estabeleceu três ideias centrais:

  • A agricultura regenerativa depende do contexto (exige adaptação);
  • Deve ser avaliada pelos resultados (ou progressos) alcançados;
  • Nenhuma prática é regenerativa por si só.

Regenerar o solo: base do sistema produtivo

Em Portugal, a expressão “agricultura de conservação” tem sido associada à agricultura regenerativa, como forma de tornar o seu propósito mais claro.

Em 2025, o Comité Económico e Social Europeu (CESE) reconheceu o potencial da agricultura regenerativa para uma produção alimentar mais sustentável, solicitou um entendimento comum sobre o conceito e apelou à sua integração no quadro regulamentar da União Europeia.

Por um lado, o CESE propôs uma definição orientada para os resultados e assente nos três pilares da sustentabilidade: ambiental, social e económico. Por outro, sublinhou a necessidade de criar um sistema de avaliação e verificação, com “indicadores de curto e de longo prazo, baseados nos resultados e no desempenho obtidos através de sistemas de controlo ou medição existentes, para alinhar os instrumentos políticos, os mecanismos financeiros, os quadros regulamentares e as normas aplicáveis às cadeias de abastecimento”.

Apesar destes e de outros apelos, continua a não existir, em outubro de 2026, uma definição jurídica harmonizada na União Europeia para a agricultura regenerativa. Tem vindo, contudo, a ganhar expressão uma abordagem centrada nos resultados e na trajetória de melhoria, e não apenas na adoção isolada de determinadas práticas. Ainda assim, há cinco princípios orientadores que têm sido usados como referência de atuação:

  • Reduzir as perturbações do solo;
  • Manter o solo coberto;
  • Manter raízes vivas por mais tempo;
  • Diversificar espécies ou culturas;
  • Integrar animais.

Pensar para lá da agricultura: a emergência da silvicultura regenerativa

A falta de uma definição consensual para a agricultura regenerativa abre margem para pensar em abordagens regenerativas que possam aplicar-se à gestão de outros ecossistemas produtivos, abrangendo, por exemplo, novas configurações de sistemas agroflorestais ou ampliando os objetivos regenerativos à floresta.

Foi assim que começou a falar-se de silvicultura regenerativa, com alguns dos princípios associados à agricultura regenerativa a serem adaptados à floresta e com a ideia de que o solo florestal é um sistema vivo que deve ser considerado nas decisões e práticas de gestão.

Em 2022, a organização britânica Soil Association fundamentou a sua visão de silvicultura regenerativa e sublinhou a necessidade de a gestão florestal considerar toda a comunidade viva que constitui a floresta, e não apenas as árvores: proteger o solo contra perturbações excessivas; valorizar os processos naturais que sustentam o funcionamento dos ecossistemas (como a regeneração natural, a decomposição da matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes); manter a cobertura vegetal ou orgânica do solo; promover a diversidade de espécies, idades e dimensões das árvores; e reforçar a capacidade das florestas para resistirem e recuperarem de perturbações como secas, incêndios, tempestades, pragas ou doenças.

Agricultura e silvicultura regenerativa

O artigo científico Perspetives: Regenerative forestry – Managing forests for soil life, de 2024, propõe cinco princípios que complementam esta perspetiva:

Manter raízes vivas no solo. Manter algumas árvores vivas em áreas de corte para assegurar os compostos (libertados pelas raízes) que alimentam fungos, bactérias e outros organismos essenciais à biodiversidade, funções e saúde do solo. A presença de fungos associados a raízes diminui à medida que aumenta a distância da árvore, tornando-se residual a cerca de 10 metros.
Gerir nutrientes para manter a vida no solo. Assegurar a chegada dos nutrientes que fazem crescer os troncos, ramos e copas às raízes e aos organismos que vivem no solo, incluindo aos fungos micorrízicos, promovendo o fluxo de carbono no solo e, se necessário, recorrendo a espécies de árvores ou plantas que fixem azoto atmosférico.

Encorajar a diversidade de espécies. Incluir espécies com diferentes características, comportamentos e funções no ecossistema, integrando, por exemplo, espécies folhosas em povoamentos dominados por coníferas. Esta diversidade pressupõe necessidades nutritivas distintas, assim como diferentes relações e associações com as comunidades de organismos do solo.

Conciliar as diferentes etapas de desenvolvimento florestal. Conjugar áreas com árvores jovens, intermédias, maduras e “velhas”, porque cada fase promove condições distintas para os processos ecológicos e para a biodiversidade do solo. Algumas comunidades de organismos e funções ecológicas podem ficar em risco se toda a paisagem for gerida em ciclos muito uniformes.

Gerir a floresta com base em rotações ecológicas. Não proceder ao corte apenas por o povoamento ter chegado a determinada idade ou dimensão, mas quando os indicadores do solo – como a matéria orgânica e as reservas de nutrientes – indicarem que ele já recuperou da intervenção anterior.

Outros autores e organizações têm apresentado contributos complementares e, embora também não exista uma definição consensual de silvicultura regenerativa, o conceito tem vindo a aproximar-se de outras abordagens já conhecidas na gestão florestal, como a gestão florestal sustentável e a silvicultura próxima da natureza.

Em Portugal, alguns destes princípios podem ser observados em iniciativas relacionadas com sistemas agroflorestais, regeneração natural assistida, restauro ecológico e outras novas abordagens à gestão de povoamentos florestais. Mais do que replicar modelos agrícolas, a silvicultura regenerativa procura aplicar aos sistemas florestais uma lógica de melhoria contínua das funções ecológicas, sem perder de vista os objetivos produtivos.

Desafios da agricultura regenerativa na Europa

Apesar do interesse crescente pela agricultura regenerativa, ela continua a suscitar debate e a ausência de uma definição universalmente aceite abre “a porta” a aproveitamentos indevidos, ao mesmo tempo que dificulta a adoção de um referencial de avaliação harmonizado para medir e comparar resultados ou progressos.

Alguns investigadores alertam também para o risco de diferentes abordagens serem agrupadas sob a mesma designação, mesmo quando apresentam objetivos, práticas ou impactes distintos. O crescente interesse comercial pelo conceito levanta igualmente preocupações quanto ao risco de utilização de alegações que remetam para soluções “regenerativas” sem critérios transparentes ou mecanismos independentes de verificação.

Reduzir impactos negativos no solo

Esta indefinição dificulta igualmente a criação de incentivos e mecanismos de financiamento baseados em resultados. Sem indicadores consensuais e comparáveis, torna-se difícil demonstrar e recompensar, de forma objetiva, os benefícios gerados pela regeneração dos ecossistemas.

Além da necessidade de demonstrar resultados, a Rede Europeia da PAC também identifica como desafios à expansão da agricultura regenerativa na Europa o acesso ao conhecimento, o desenvolvimento de ferramentas e maquinaria adequadas, a mudança de mentalidades no sector agroalimentar, o apoio financeiro à transição, a adaptação às novas condições climáticas e o desenvolvimento de combinações de práticas que se revelem eficazes em diferentes contextos.

Percurso regenerativo sem receita única: 3 exemplos no mapa europeu

A agricultura regenerativa não corresponde a um modelo único de atuação ou exploração, até porque necessita de flexibilidade para se adaptar às condições específicas de cada território e clima. Essa diversidade está bem patente em várias explorações agrícolas e agroflorestais, algumas ainda em transição e com práticas experimentais, que têm sido distinguidas pela sua abordagem regenerativa.

Conheça três exemplos: Kilpiä Farm, na Finlândia, La Junquera, em Espanha, e Quinta da Cholda, em Portugal.

Em Portugal existem cinco outras propriedades registadas na EARA – European Alliance for Regenerative Agriculture: a Herdade Monte Silveira (Castelo Branco), a Vivid Farms (Santarém), a Família Nicolau Wines (Lisboa), a Horta da Malhadinha e a Corte Pão e Água (Mértola). Muitas outras explorações agrícolas e agroflorestais, embora sem registo como “regenerativas”, têm procurado regenerar e conservar os seus recursos. Explore o exemplo da Sanguinheira de Codes.

5 questões sobre a agricultura regenerativa:

O que é, afinal, a agricultura regenerativa?

A agricultura regenerativa é uma abordagem de gestão que pretende melhorar a condição do ecossistema produtivo, conciliando a conservação dos recursos naturais com a viabilidade económica. Não existe (em 2026) uma definição harmonizada nem um conjunto fechado de práticas. A abordagem procura adaptar a atuação regenerativa às diferentes realidades das explorações agrícolas e agroflorestais, com o objetivo de reforçar a sustentabilidade e a resiliência ambiental, social e económica dos agroecossistemas.

Agricultura regenerativa significa não lavrar, não utilizar máquinas nem pesticidas e fertilizantes?

Não. Podem ser usadas máquinas e aplicados produtos que apoiem a sanidade e produtividade da exploração, mas devem minimizar-se a perturbação do solo e a dependência de pesticidas e fertilizantes sintéticos. Técnicas como a sementeira direta, a rotação de culturas, as culturas de cobertura e o controlo biológico de pragas podem apoiar estes objetivos ao reduzir a perturbação do solo, aumentar a matéria orgânica e reduzir a necessidade de tratamentos químicos.

Agricultura regenerativa e agricultura biológica são a mesma coisa?

Não. A agricultura biológica é um modo de produção regulamentado e certificado na União Europeia, enquanto a agricultura regenerativa é uma abordagem de gestão sem referencial legal nem sistema de certificação. Uma exploração pode adotar simultaneamente as duas.

Agricultura regenerativa e agricultura sintrópica são sinónimos?

Não. Embora ambas tenham como objetivo melhorar a saúde do solo e dos ecossistemas enquanto produzem alimentos, a agricultura regenerativa é uma abordagem de gestão aplicável a sistemas muito diversos, enquanto a agricultura sintrópica é um sistema regenerativo específico, geralmente agroflorestal, baseado na sucessão ecológica, na estratificação das espécies em diferentes camadas e fases de desenvolvimento, assim como na gestão intensiva da biomassa, utilizando os resíduos de podas e cortes para cobrir e enriquecer o solo.

Qual é a relação entre agricultura regenerativa e sistemas agroflorestais?

Os sistemas agroflorestais integram estrategicamente árvores ou arbustos com culturas agrícolas e/ou animais, conciliando alguns dos princípios orientadores da agricultura regenerativa. Consoante a abordagem de gestão, podem contribuir para a proteção do solo, a promoção da biodiversidade e a diversificação da produção, mas não são, por si só, sinónimos de agroecossistemas em que se aplica agricultura regenerativa.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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