Toneladas de resíduos de ananás que antes iam para o lixo passam agora a ser transformadas em ingredientes de alto valor para a aquacultura. A AgroGrINTech, start-up portuguesa, arrancou com uma unidade piloto em Pedrouços, na Maia, dando um passo concreto na demonstração de que a economia circular pode ser uma realidade industrial.
Desenvolvida no âmbito do Pep4Fish, a unidade produz bromelaína, uma enzima extraída dos resíduos de ananás que, aplicada na produção de hidrolisados proteicos, contribui para melhorar a digestibilidade, a saúde e o crescimento de robalo e dourada de aquacultura. As suas propriedades anti-inflamatórias, digestivas e antioxidantes abrem ainda porta a aplicações noutras indústrias, como a farmacêutica, a alimentar e a cosmética.
O investimento total na unidade ascende a cerca de 1,2 milhões de euros até ao final de 2026, combinando fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito do projeto Pep4Fish, e investimento privado. Foi aplicado na implementação da linha, no desenvolvimento de know-how e nos recursos humanos que sustentam a estratégia produtiva, e permitiu ainda otimizar os produtos finais: a bromelaína e as farinhas de ananás.
A grande conquista deste investimento foi demonstrar que o processo é escalável. Na passagem do laboratório para a unidade piloto, mantiveram-se a mesma tipologia de ingredientes e os mesmos rendimentos de extração validados em laboratório, graças à implementação completa do processo e à otimização da linha por uma equipa com formação em engenharia alimentar e biotecnologia. “Esta otimização, ainda no âmbito do PRR, permitiu multiplicar por quatro a capacidade produtiva prevista em 2025. A unidade passou de 50 quilos para cerca de 200 quilos de bromelaína por ano, a partir de cerca de 120 toneladas de subprodutos de ananás”, explica Débora Campos, CEO e fundadora da AgroGrINTech. Do mesmo processo saem também farinhas de ananás, o que permite valorizar praticamente todo o subproduto, num modelo de resíduo zero.
“A implementação desta linha piloto é um marco importante para o desenvolvimento de um processo sustentável de valorização de resíduos agroindustriais, com impacto positivo tanto no ambiente como na competitividade da empresa”, afirma Débora Campos.

PROPRIEDADES ANTI-INFLAMATÓRIAS E DIGESTIVAS
O ananás não foi escolhido ao acaso. É uma das frutas mais ricas em bromelaína, concentrada precisamente nas partes que normalmente se desperdiçam, como a casca e o núcleo. Foi este desperdício que esteve na origem da AgroGrINTech: a empresa nasceu da necessidade de encontrar uma solução sustentável para os resíduos que uma empresa portuguesa produzia diariamente em grandes quantidades, sem destino útil.
No Pep4Fish, a bromelaína é utilizada na produção de hidrolisados proteicos destinados a rações para peixes. “A bromelaína tem propriedades anti-inflamatórias e digestivas que melhoram a absorção de nutrientes e a saúde dos peixes, com benefícios significativos para a aquacultura”, aponta Débora Campos.
Com o processo escalado e os produtos otimizados, a AgroGrINTech entra agora na fase de comercialização. Até aqui, as vendas à indústria alimentar resumiram-se a pequenos lotes para teste e validação junto dos clientes. O objetivo para 2027 é consolidar as vendas e celebrar os primeiros contratos de fornecimento. No início de 2027, a empresa vai abrir uma ronda de investimento para apoiar a comercialização e a internacionalização. Com esse apoio, prevê reforçar a equipa, atualmente com seis pessoas, nas áreas operacional e comercial ao longo do próximo ano.
O Pep4Fish é um projeto que procura soluções inovadoras para reforçar a produção de peixe de aquacultura. O objetivo é desenvolver dietas mais sustentáveis, que aumentem a resistência dos peixes a doenças e a qualidade final do produto que chega ao consumidor. Para isso, aproveita subprodutos da indústria alimentar para criar hidrolisados proteicos (proteínas decompostas em partes mais pequenas, mais fáceis de digerir pelos peixes) de alto valor acrescentado, destinados a rações para robalo e dourada.
O projeto Pep4Fish é liderado pelo Grupo ETSA e conta com a participação de nove parceiros, incluindo centros de investigação e empresas: AgroGrINTech, B2E – CoLAB para a Bioeconomia Azul (B2E CoLAB), CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, ITS – Indústria Transformadora de Subprodutos (ETSA), Seaculture (Jerónimo Martins), Savinor e Sorgal (Soja Portugal), Sebol (ETSA) e a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa.
O Pacto da Bioeconomia Azul, no qual está incluído o Pep4Fish, constitui uma das agendas mobilizadoras para a Inovação Empresarial previstas no PRR.
Fonte: Pep4Fish















































