Do interior dos volantes de badminton à proteção de veículos espaciais em Marte, a cortiça tem milhares de aplicações de elevado valor acrescentado. No Instituto Superior de Agronomia, o CEF estuda este material há cinco décadas, desenvolvendo conhecimento e ferramentas que ajudam a melhorar a qualidade, a valorização e a sustentabilidade da fileira da cortiça.

Joana Amaral Paulo, docente e investigadora do Centro de Estudos Florestais do ISA, e Joana Martins, bolseira de investigação, estudam a cortiça e querem prever a sua qualidade e valor potencial no início do ciclo produtivo do sobreiro.
A cortiça: um material natural com aplicações de alta tecnologia
A cortiça é um dos materiais naturais mais versáteis e sofisticados do mundo. Para além das rolhas, integra produtos tão diversos como a base dos volantes de badminton, apitos de elevada precisão e sistemas de proteção térmica utilizados na exploração espacial. Sustentável, renovável e altamente funcional, sustenta também uma das mais importantes fileiras económicas nacionais.
Em Portugal, a fileira da cortiça movimenta cerca de 2 mil milhões de euros por ano, dos quais aproximadamente 1,1 mil milhões resultam de exportações. O setor integra mais de 500 empresas e coloca o país na liderança mundial deste mercado.
Cinco décadas de investigação sobre o sobreiro e a cortiça
O CEF – Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia desenvolve investigação multidisciplinar sobre o sobreiro e a cortiça desde 1976. Este trabalho tem contribuído para gerar conhecimento fundamental para o setor, desde modelos de crescimento e produção até à caracterização física e química da cortiça.
Um dos projetos atualmente em destaque é o Top Cork, pioneiro no estudo da evolução da porosidade da cortiça ao nível da árvore individual. O objetivo é compreender quais os fatores que influenciam, ao longo do tempo, esta característica determinante da qualidade da cortiça e utilizar essa informação para prever a qualidade e o valor potencial da cortiça amadia logo no início do ciclo produtivo.

Análise da imagem da porosidade da cortiça.
“Queremos saber quais os fatores que determinam a porosidade da cortiça no indivíduo ao longo do tempo — se é a genética do indivíduo ou se é o tipo de solo, o clima ou a intensidade de descortiçamento”, explica Joana Amaral Paulo, docente e investigadora do Centro de Estudos Florestais do ISA.
A Suberoteca: um arquivo único do sobreiro
Para apoiar esta investigação, as cientistas contam com a Suberoteca do CEF, um recurso único a nível mundial. Esta coleção reúne informação detalhada de mais de mil sobreiros monitorizados e amostrados desde a década de 1980, em parcelas distribuídas de norte a sul do país.
“Temos atribuído a cada árvore um código único. Isto para mais de 1000 árvores que monitorizamos e amostramos para a cortiça, desde os anos 80, em diversas parcelas distribuídas pelo país, desde o Algarve a Trás-os-Montes”, refere a investigadora.
Diagnosticar cedo para valorizar melhor
A investigação liderada por Joana Amaral Paulo e financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia revelou já que a cor da cortiça virgem, obtida na primeira extração, pode funcionar como indicador da qualidade da cortiça segundeira, recolhida geralmente entre os 20 e os 30 anos de idade da árvore.
Através de uma fórmula matemática de diagnóstico precoce, foi possível demonstrar que quanto mais clara for a superfície exterior da cortiça virgem e mais amarela for a tonalidade da sua massa, maior tende a ser a qualidade da cortiça produzida posteriormente. Este indicador já está a ser utilizado por associações de produtores florestais para apoiar decisões de gestão.
Rumo à subericultura de precisão
O conhecimento gerado pelo projeto Top Cork será integrado no modelo SUBER, um simulador estatístico de crescimento e produção para o sobreiro e para o montado de sobro desenvolvido pelo CEF-ISA e amplamente utilizado por estudantes de Engenharia Florestal, investigadores, produtores florestais e entidades públicas.
Com base em dados de inventário e em diferentes cenários de gestão e clima, o modelo permite simular o crescimento e a produção futura dos sobreiros (cortiça, bolota e stocks de carbono). O próximo passo será incorporar a estimativa da variável da porosidade da cortiça, reforçando a capacidade de previsão da qualidade do produto.
Esta investigação assume particular relevância num contexto desafiante para o setor. Segundo a UNAC, o preço da cortiça ao produtor diminuiu, em média, 28% nos últimos dois anos. Garantir a produtividade, a qualidade e a valorização da cortiça premium é hoje essencial para a sustentabilidade económica dos montados.
A diferença de valor é significativa: enquanto uma rolha natural produzida diretamente a partir da prancha de cortiça pode atingir cerca de um euro por unidade, as rolhas de aglomerado valem apenas alguns cêntimos. Melhor conhecimento científico significa, por isso, maior capacidade para identificar e valorizar a cortiça de maior qualidade.
Fonte: ISA














































