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Os insetos como obreiros dos serviços dos ecossistemas

por Florestas.pt
04-05-2026 | 17:23
em Últimas, Notícias florestas, Blogs
Tempo De Leitura: 9 mins
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Num contexto de pressões climáticas e perda de biodiversidade, as soluções naturais podem ser estratégias inteligentes para reforçar os serviços dos ecossistemas e a sustentabilidade em áreas de produção. Laura Torres conta como, no projeto EcoVitis, este reforço resultou da instalação de medronheiros e do consequente incremento das comunidades de insetos no ecossistema.

Num contexto de alterações climáticas, declínio global de insetos e necessidade de tornar os sistemas produtivos mais sustentáveis, têm-se procurado estratégias que contribuam para a sustentabilidade das culturas instaladas e que possam favorecer a presença de aliados ou obreiros dos serviços dos ecossistemas, reforçando os benefícios que as áreas plantadas podem proporcionar.

Foi neste sentido que o projeto “EcoVitis – Maximização dos serviços do ecossistema vinha na Região Demarcada do Douro” integrou ecologia e viticultura, identificando possíveis soluções para potenciar estes serviços naturais numa das mais reconhecidas culturas em Portugal – a vinha.

Entre as várias soluções avaliadas, considerou-se que o medronheiro (Arbutus unedo) poderia ser um bom candidato para maximizar os serviços do ecossistema facultados pela vinha. A Região Demarcada do Douro faz parte da área de distribuição natural desta espécie e, além do potencial económico do seu fruto, o medronheiro tem sido reconhecido por:

ser uma espécie rústica, que pode desenvolver-se em vários tipos de solos e até em zonas rochosas, indicada para a criação ou restauro ativo de habitats e para a colonização de solos marginais, contribuindo para evitar a sua erosão e promover a retenção de água;
manter flores e frutos durante o outono e inverno, sendo uma importante fonte de pólen e alimento para diferentes grupos de organismos, como insetos, aves e mamíferos; contribuir, com a beleza das suas folhas escuras e a invulgar ocorrência simultânea da floração e maturação dos frutos, para a valorização da paisagem.

Avançou-se, assim, com a instalação de sebes de medronheiros nos taludes (que sustentam os degraus) das vinhas ou na proximidade de caminhos. Os ensaios de campo decorreram em quatro quintas que integraram o projeto – Quinta de Carvalhas, Cidrô, Casal da Granja e São Luiz –, e os resultados obtidos foram complementados pelas observações efetuadas no Campus da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Mas de que modo o medronheiro se relaciona com os insetos ou ajudou a torná-los obreiros dos serviços dos ecossistemas?

Projeto EcoVitis, nas vinhas do Douro

O projeto EcoVitis reuniu empresas da Região Demarcada do Douro – a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e a Sogevinus Quintas – a Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID) e a UTAD em torno de um mesmo objetivo: desenvolver estratégias capazes de potenciar os serviços dos ecossistemas na vinha, contribuindo, em simultâneo, para a sustentabilidade produtiva e para os benefícios sociais e ambientais.

O medronheiro e os “seus” insetos

Os resultados obtidos no decurso deste estudo, permitiram identificar, no medronheiro, um rico e diversificado conjunto de famílias e superfamílias de insetos que, presumivelmente, encontram alimento e/ou abrigo neste arbusto. Do ponto de vista do seu papel nos ecossistemas, os grupos considerados de maior interesse foram: fitófagos, predadores, parasitoides e polinizadores.

Fitófagos

Nestes insetos herbívoros dominou largamente a família dos afídeos (Aphididae), com colónias de afídeo-verde ou piolho-verde (Wahlgreniella arbuti) observadas nas folhas jovens do ano. Pontualmente, observou-se outra espécie desta família, que se pensa ser o piolho ou afídeo-negro (Aphis arbuti).

Também pontualmente, observaram-se cochonilhas (da família Coccidae), mosquinhas-brancas (família Aleyrodidae), cigarrinhas (família Aphrophoridae) – entre as quais a cigarrinha-da-espuma (Philaenus spumarius) –, borboletas-do-medronheiro ou borboletas-imperador (Charaxes jasius, da família dos ninfalídeos – Nymphalidae), a par de lagartas de outros lepidópteros não identificados.

Predadores

Entre os insetos que capturam e consomem outros organismos, as famílias dominantes foram:

Maioritariamente, são predadores de insetos de corpo mole (afídeos, cochonilhas e ácaros). Em escassez de alimentos, os adultos recorrem ao néctar, pólen e meladas de outros insetos

São importantes polinizadores, observados em flores. Os adultos alimentam-se de néctar, pólen e meladas. A maioria das larvas é predadora de afídeos e outros pequenos insetos.

A maioria tem uma dieta variada. Consome ácaros, pequenos insetos de corpo mole (afídeos, cigarrinhas e mosquinhas-brancas), assim como ovos de insetos e de pequenas lagartas.

Tanto no estado adulto como imaturo, podem ser importantes predadores de pequenos artrópodes, como afídeos, ácaros, cigarrinhas, assim como de outros insetos de corpo mole.

As larvas são, em geral, predadoras generalistas (afídeos, cochonilhas, cigarrinhas, lepidópteros, psilídeos, ácaros, etc.). Os adultos também, mas preferem alimentar-se de pólen, néctar e meladas.

Parasitoides

Neste grupo de insetos que, no estado imaturo, se desenvolve total ou parcialmente à custa de um organismo de outra espécie – o hospedeiro, ao qual geralmente causam a morte – as duas superfamílias mais relevantes foram:

  • Chalcidoidea: uma superfamília supernumerosa. Quando imaturos, normalmente parasitam ovos e estados imaturos de outros insetos. Em adultos alimentam-se de substâncias açucaradas – pólen, néctar e meladas
    Adultos de Chalcidoidea alimentam-se de pólen, néctar e meladas
  • Adulto de Chalcidoidea. Quinta das Carvalhas. © D. González.
  • Ichneumonoidea: têm como hospedeiros mais comuns as larvas e as pupas de lepidópteros, coleópteros e himenópteros. Os adultos alimentam-se, em particular, de néctar e meladas

Polinizadores

Neste grupo, observaram-se abelhões da espécie Bombus terrestris (família Apidae) e sinais da existência de abelha-corta-folhas (família Megachilidae)

Observaram-se claros sintomas de atividade da abelha-corta-folhas, uma espécie solitária, que forra os ninhos com os fragmentos arredondados das folhas que corta. Tal como os abelhões, é um importante polinizador.
Inimigos ou aliados?

Os insetos são frequentemente associados a aspetos negativos – à prestação dos chamados “desserviços dos ecossistemas”, ou seja, serviços prejudiciais ou desfavoráveis aos ecossistemas – por existirem espécies, ainda que em número relativamente reduzido, que causam prejuízos às culturas ou lhes transmitem doenças.

Contudo, aquele que é o grupo de organismos mais abundante e diverso do planeta – quer a nível taxonómico, quer funcional – faculta importantes benefícios à humanidade, ao contribuir para a totalidade de serviços dos ecossistemas definidos pelo Millennium Ecosystem Assessment:

  • serviços de regulação – benefícios que advêm da regulação de processos como a polinização, a regulação das populações de herbívoros e a dispersão de sementes.
  • serviços de suporte – processos naturais necessários para a produção, que mantêm todos os outros serviços, nomeadamente a formação do solo e as mudanças que nele são geradas pela ação dos organismos presentes no solo (bioturbação), a reciclagem de nutrientes e a decomposição da matéria orgânica.
  • serviços de aprovisionamento – onde se incluem a produção de mel, cera e seda, além de outros serviços e produtos úteis às sociedades.
  • serviços culturais e de recreio – que abrangem os benefícios não materiais obtidos quando os seres humanos estão próximos da natureza, podendo referir-se, por exemplo, à observação de borboletas e joaninhas em atividades recreativas, turísticas ou de contemplação.

Insetos apoiam serviços dos ecossistemas na vinha

A importância dos serviços dos ecossistemas facultados pelos insetos ilustra bem a importância de adotar medidas para a sua conservação. A continuar o declínio que se tem verificado nas suas populações, as implicações poderão pôr em causa serviços como a polinização, a fertilidade dos solos, a reciclagem de nutrientes e o ataque de pragas às culturas, sendo este último aspeto potenciado pelo incremento de espécies invasoras.
Obreiros dos serviços dos ecossistemas: regulação e culturais

Os resultados do projeto EcoVitis revelaram que o medronheiro alberga uma elevada diversidade de insetos funcionalmente benéfica, confirmando-os como obreiros dos serviços dos ecossistemas. Indicaram também que esta comunidade manteve o seu equilíbrio biológico, sugerindo que o sistema se autorregula quando existe diversidade funcional suficiente.

Relativamente aos serviços prestados por estes obreiros, consideraram-se de particular interesse os de regulação e os culturais:

Serviços de regulação – na prestação destes serviços dominaram os grupos de insetos com papel na regulação das populações de fitófagos, por predação (no caso dos coccinelídeos, sirfídeos, mirídeos, antocorídeos e crisopídeos) ou por parasitismo (no caso dos icneumonóideos e calcidóideos). De referir que, neste grupo, também estiveram presentes membros de duas famílias de polinizadores: apídeos e megaquilídeos.

Serviços culturais – presença da borboleta-do-medronheiro, a maior borboleta diurna europeia, que desperta particular interesse pela sua beleza e pelo seu valor para o turismo de natureza. Esta espécie tem perdido grandes áreas do seu habitat, principalmente devido à urbanização e ao turismo massificados nas regiões costeiras do Mediterrâneo.

A ocorrência de insetos habitualmente identificados como inimigos ou causadores de pragas, potencialmente responsáveis por desserviços (nomeadamente cigarrinhas, cochonilhas e mosquinhas-brancas) foi pontual, admitindo-se que façam parte do equilíbrio dinâmico desta comunidade biológica (ou seja, que integrem uma comunidade em equilíbrio).

A espécie mais abundante observada neste grupo foi o afídeo-verde do medronheiro, na forma de colónias mais ou menos importantes (em todas as datas de amostragem). À primeira vista, a presença massiva de um fitófago (inseto que se alimenta de plantas) poderia ser vista como negativa. No entanto, o estudo sugere precisamente o contrário. À semelhança do observado sobre este inseto em roseiras, o afídeo-verde serviu de alimento aos predadores (designadamente coccinelídeos e sirfídeos). Deste modo, as suas populações mantiveram-se em níveis que não representaram risco para as plantas.

O facto de o medronheiro hospedar, durante o fim da primavera e o início do verão, colónias de afídeos Wahlgreniella arbuti torna-o uma importante fonte de alimento para insetos predadores e parasitoides de fitófagos – que mantêm controladas e inofensivas as populações deste piolho-verde – ao mesmo tempo que maximiza a prestação de serviços de regulação por parte destes organismos, o que aumenta o seu interesse ecológico.

Importa referir que o afídeo-verde do medronheiro é considerado uma espécie primariamente europeia, com especificidade alimentar, pelo que a sua ocorrência dificilmente representa uma ameaça para os ecossistemas. Acresce que este afídeo produz meladas abundantes (excreções), que são uma importante fonte de alimento para muitos outros insetos, por exemplo, para elementos das famílias dos coccinelídeos, sirfídeos e crisopídeos, assim como das superfamílias dos icneumonóideos e calcidóideos, que dependem destas meladas para a sua sobrevivência e reprodução.

Assim, neste caso específico, comprovou-se que o afídeo-verde funcionou como um recurso estruturante na cadeia alimentar, sustentando uma comunidade equilibrada de insetos benéficos.

Medronheiros junto à vinha beneficiam sistema produtivo

A presença de medronheiros junto às vinhas traduziu-se, assim, em benefícios concretos para o sistema produtivo. Ao albergar populações de afídeos que servem de alimento a predadores e parasitoides, o medronheiro contribui para manter uma comunidade estável de insetos auxiliares nas proximidades da cultura.

Estes organismos podem atuar como agentes de proteção biológica de conservação das culturas, ajudando a limitar o desenvolvimento de pragas. Ao mesmo tempo, a diversificação da vegetação aumenta a complexidade ecológica da paisagem produtiva, favorece a resiliência do sistema face a desequilíbrios e contribui para uma produção mais sustentável, alinhada com as exigências ambientais e com a valorização da biodiversidade.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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