Uma equipa de investigadores utilizou a ferramenta CRISPR para desenvolver plantas de soja que florescem e amadurecem mais cedo. Os resultados, confirmados num ensaio de campo, poderão contribuir para o melhoramento de variedades adaptadas a diferentes condições de cultivo.
✍️ Carla Amaro
Uma equipa internacional com participação de investigadores franceses desenvolveu plantas de soja com floração mais precoce através da edição de genes envolvidos na regulação do desenvolvimento da cultura.
O estudo, publicado na revista Theoretical and Applied Genetics, envolveu investigadores do Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, a Alimentação e o Ambiente de França (INRAE), da Universidade Paris-Saclay e da empresa Corteva Agriscience.
Recorrendo à ferramenta de edição genética CRISPR, os investigadores modificaram genes associados à floração em duas linhas de soja. O trabalho permitiu obter plantas com diferentes tempos de floração, criando novas possibilidades para estudar e ajustar a duração do ciclo da cultura.
Floração e maturação antecipadas
Depois de avaliarem as plantas em estufa, os investigadores testaram 72 linhas editadas num ensaio de campo realizado no estado do Iowa, nos Estados Unidos.
No campo, as linhas editadas floresceram mais cedo do que as respetivas plantas de origem. Nas linhas mais precoces de um dos grupos, a floração ocorreu cerca de uma semana antes. No outro grupo, a maioria das linhas floresceu aproximadamente dez dias antes.
A maturação também foi antecipada: ocorreu, em média, cerca de uma semana mais cedo num dos grupos e duas semanas mais cedo no outro.
Os resultados variaram consoante as condições de cultivo. Em estufa, algumas plantas floresceram até 27 dias antes das plantas de comparação, mas essa diferença foi menor no ensaio de campo.
Uma ferramenta para o melhoramento
A duração do ciclo da soja é uma característica importante para a adaptação da cultura a diferentes regiões. Plantas que floresçam e amadureçam mais cedo poderão ser úteis em locais onde o período favorável ao cultivo é mais curto.
O estudo sugere que a edição de genes envolvidos na floração pode ajudar a criar diversidade dentro de linhas de soja já existentes, disponibilizando material para futuros programas de melhoramento.
Os investigadores identificaram uma associação particularmente forte entre alterações no gene E1 e a floração precoce nas condições estudadas. A combinação dessas alterações com modificações noutros genes foi associada a uma antecipação adicional em algumas plantas. Os autores alertam, contudo, que o desenho do estudo não permite determinar separadamente o efeito de todas as alterações genéticas.
Mais ensaios são necessários
Apesar dos resultados, o trabalho representa uma primeira demonstração em campo. O ensaio foi realizado num único local e numa única campanha, pelo que serão necessários testes em diferentes ambientes para avaliar a estabilidade das características e o desempenho agronómico das plantas.
Além disso, as linhas editadas não floresceram mais cedo do que todas as variedades comerciais precoces utilizadas para comparação. Os resultados não demonstram, por si só, que as novas linhas sejam mais produtivas ou que estejam prontas para comercialização.
Os autores defendem, em particular, a realização de ensaios em regiões europeias de latitude mais elevada, onde o ciclo da cultura e a resposta à duração do dia são fatores relevantes para a produção de soja.
O artigo foi publicado originalmente em CiB – Centro de Informação de Biotecnologia.















































