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Luís Mira

Luís Mira. “Diabolizar a agricultura são discursos ideológicos dos partidos para ganharem votos”

por Jornal i
28-05-2021 | 07:35
em Nacional, Últimas, Sugeridas
Tempo De Leitura: 6 mins
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Para o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), muitos dos problemas que o setor enfrenta não são reais ou científicos, mas ideológicos e até religiosos.

Até que ponto a pandemia afetou o setor?
A pandemia afetou imediatamente alguns setores agrícolas, como as flores, os queijos, os leitões e outros, onde houve uma quebra de vendas, mas é um facto que em 2020 o setor agroalimentar acabou por aumentar as vendas. Aqueles que estavam ligados aos supermercados – vinhos e hortícolas – aumentaram o seu negócio. Há alguns casos em que não foi assim, dentro do setor do vinho quem fornecia a restauração e o Canal Horeca registou quebras grandes. Já quem fornecia os supermercados apresentou uma subida de vendas, há casos de aumentos de 15 e 20% porque as pessoas consumiram mais.

Os portugueses não iam aos restaurantes, mas iam aos supermercados. Temos de comer todos os dias, pelo menos duas vezes, e a crise veio demonstrar isso. Ou seja, mostrou que podemos deixar de viajar, de ir ao cinema, deixar de fazer muitas coisas, mas não podemos deixar de comer. Acho que isso foi muito importante para os setores não agrícolas entenderem do ponto de vista económico a capacidade de resistência e de resiliência deste setor, que não só resistiu à crise financeira de 2008, como agora deu provas claras em todo o mundo de que resistiu à crise pandémica.

Isto quando setores que eram muito mais rentáveis e em grande crescimento – como é o caso da aviação – de um momento para o outro colapsaram. O mesmo aconteceu com os hotéis e com inúmeras outras atividades. O setor agrícola, que para muitos ocupava um lugar de parceiro pobre, acabou por mostrar que afinal tinha uma característica que se desconhecia e que advém da necessidade dos seres humanos de comer.

E deu resposta a este aumento da procura…
Houve uma crise enorme à escala mundial e não houve falta de alimentos. No princípio as pessoas correram para os supermercados, como acontece sempre quando há estas situações, mas não havia necessidade nenhuma. Foi o que aconteceu com os enlatados e com o papel higiénico, não consigo perceber porquê. Correram para as prateleiras e depois ficaram com os produtos em casa. O sistema de alimentos na Europa funcionou bem. Criaram-se corredores verdes para a sua circulação e não houve nenhum problema.

Convém lembrar que o setor agrícola europeu está muito limitado à evolução tecnológica, nomeadamente na questão de manipulação genética, mas agora vieram as vacinas manipuladas geneticamente e todos fazem fila e até querem passar à frente para serem vacinados. Os consumidores têm de ser coerentes. Se são contra a manipulação genética têm de ser sempre, não é só quando lhes dá jeito e é um jeito que não tem nenhuma base científica. É uma questão de ideologia e hoje muitos dos problemas que o setor agrícola enfrenta não são problemas reais ou científicos, são problemas ideológicos, diria até religiosos.

Hoje as pessoas não estão nada preocupadas com a agricultura, mas estão preocupadas com a alimentação, com a saúde e com as alterações climáticas, mas depois querem opções que são contraditórias. Algumas pessoas são contra o plástico, querem substituí-lo pelo papel – aliás, a União Europeia já tomou decisões nesse sentido –, mas depois são contra os eucaliptos. E esquecemo-nos que o plástico já veio substituir o vidro.

Mas durante o confinamento com vendas take-away e ao postigo esta “guerra” ao plástico ficou um pouco esquecida….
Porque não convinha. É a tal incoerência. Mas posso dar mais exemplos. As pessoas são contra as produções em estufa, em Odemira, porque acham que causa um grande problema na paisagem, mas só é visível se andarem de helicóptero porque a maioria das estufas não se vê de lado, só se vê de cima. As imagens que vê na televisão são de drones. Mas depois querem comer tomate cherry e saladas. Tanto as saladas como os tomates cherry surgem daquele tipo de produção. Afinal o que queremos? Queremos ter uma alimentação com esses parâmetros? É aí que são produzidos.

Todos os agricultores, em primeiro lugar, pretendem ter uma agricultura o mais sustentável possível, caso contrário não conseguem passar a exploração ao seu descendente. Uma estufa com hidroponia talvez seja um exemplo de sustentabilidade plena: é um sistema fechado, os ingredientes que coloco na água voltam a entrar no ciclo, não perco nada. Nem sequer uso terra, as plantas estão colocadas num sítio, onde recebem a água e os alimentos que necessitam.

Não sei qual é a solução que os cidadãos têm para alimentar o mundo. Não nos podemos esquecer que em 2050 prevê-se que haja 10 mil milhões de habitantes com mais poder de compra do que tiveram no passado, isso vai obrigar a produzirmos mais 70% dos alimentos que produzimos hoje. Ora, a terra não se fabrica mais e não vamos começar a destruir parques naturais para pôr culturas.

A única forma de alimentar estas pessoas é termos uma agricultura baseada em conhecimento cientifico e em tecnologia que consiga produzir mais na mesma área. A área de superfície agrícola do globo é de 3,5% e não se fabrica mais terra. Então temos de produzir mais, causando menos danos possíveis e aí o conhecimento científico tem evoluído muito. Há 20 anos quem falava em carbono? Ninguém.

De certeza que a ciência vai encontrar soluções para alterar a alimentação das vacas e vamos assistir a isso nos próximos 10/15 anos. A tecnologia já existe, não está é ainda aplicada em toda a sua plenitude. Temos um grande desafio pela frente que é a digitalização no setor.

O que é que isso vai provocar?
Vou ter sensores, meios de deteção, quer seja através de um drone, quer seja através de um satélite, que me vão dar dão informações sobre um campo. Imagine um campo de futebol multiplicado por 100, em que consigo tratar dentro de um campo de futebol metro quadrado por metro quadrado. Hoje não tenho tecnologia para isso. Tenho máquinas, semeadores, mas são mecânicos, não são digitais. Não conseguem alterar a sua forma de agir sobre o terreno metro quadrado por metro quadrado porque não têm informação para isso.

Preciso de ter uma gestão de dados que são fornecidos pelos satélites, pelos sensores, etc., um equipamento que traduza essas informações e que as coloque no campo. Em termos de tratamento é como se recuássemos 100 anos quando se trabalhava com muita gente no campo e se tratava das plantas com uma enxada pé por pé. Vai ser mais ou menos assim, mas com muito mais informação.

Vamos assistir a uma verdadeira revolução?
Exatamente. Vou poder, por exemplo, determinar a condutibilidade elétrica de um campo, o que é fundamental para a absorção dos

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