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Agroportal

Fazem sentido as práticas de agricultura regenerativa nas culturas permanentes?

por AGRO.GES
26-03-2026 | 17:52
em Últimas, Sugeridas, Blogs
Tempo De Leitura: 7 mins
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Recentemente participei na conferência sobre frutos secos, promovido, em Almeirim, pela Vida Rural, inserido numa mesa-redonda acerca deste assunto. Essa conversa estará brevemente disponível, e recomendo que seja ouvida, no canal de Youtube da Vida Rural, até porque sou o menos entendido em agricultura regenerativa do painel. Ainda assim, esta participação motivou em mim uma reflexão sobre aquilo que me parece a abordagem estratégica mais adequada para introduzir a agricultura regenerativa nas áreas de culturas permanentes e que gostava de partilhar.

Primeiro, uma nota: as culturas permanentes têm aqui algumas condições de rigidez que não permitem que as acções no solo e na introdução de animais sejam usadas com a mesma flexibilidade que é possível nas culturas anuais e nas pastagens. Nessas outras áreas, onde a introdução de práticas regenerativas foi pioneira, parece mais fácil fazer este tipo de abordagem e os resultados prometem ser mais rápidos. No entanto, nas permanentes, a cultura “está sempre” na parcela.

Importa esclarecer que a definição de agricultura regenerativa é algo difusa e não consensual, pelo que me fico por uma abordagem técnica e que consigo compreender, a melhor abordagem que ouvi: “tentar tornar a parcela mais resiliente e mais viável, técnica e economicamente, para produzir aquela cultura, e por meios próprios”.

Ora, penso que o agricultor que queira fazer isto na sua exploração deve fazê-lo através do encadeamento lógico de três perguntas:

  1. Para quê? Quais os objectivos técnicos a alcançar?
  2. Usando quais práticas? Ou seja, como?
  3. Procurando quais objectivos finais, nomeadamente económicos?

1) Para quê?

Os principais objectivos, a meu ver, prendem-se com o solo e com a biodiversidade.

Cada um destes sub-temas (e outros ainda haverá) merece um aprofundamento que deve ser considerado seriamente pelos técnicos e gestores agrícolas. Afinal, atingir estes objectivos é o precursor dos melhores resultados empresariais, que são o foco da gestão agrícola. Mas lá chegaremos.

Como exemplo, podemos considerar um deles e aprofundar. O aumento da capacidade de retenção da água no solo permite criar uma maior resistência a potenciais momentos de stress hídrico no futuro, como estimam os modelos de alterações climáticas. Num estudo de 2025 feito para a Portugal NUTS e a OLIVUM,a AGROGES estimou, no cenário 4.1 do IPCC, um aumento de 4% das necessidades hídricas da amendoeira até 2050 e de 8% até 2080. Importa notar que  este estudo produziu cálculos para a zona de influência de Alqueva e que não serão necessariamente extrapoláveis para outas localizações. No entanto, estes resultados representam sinais fortes do aumento das necessidades futuras da cultura.

Nesta cultura, e claro que há diferenças entre culturas, especialmente relativamente às espécies que respondem bem à rega deficitária, o mesmo estudo determinou, através de uma revisão bibliográfica, que uma redução de 40% da dotação face às necessidades origina quebras de produção de perto de 33%. Ora este exemplo ilustra perfeitamente o impacto e a ameaça que a escassez de água representa para esta cultura, como acontece também para muitas outras e o benefício enorme que há em ter um solo com maior capacidade de retenção de água. Claro que para um solo reter água é preciso haver um aporte de água, da chuva ou da rega, mas com menor input haver a maior disponibilidade possível para as plantas é uma enorme mais-valia.

O que proponho é que este exercício seja feito para cada um dos objectivos técnicos que se apliquem a um caso particular.

2) Que práticas?

Existe um enorme número de práticas ditas regenerativas, nomeadamente em relação ao solo e à biodiversidade. Desde logo o enrelvamento, a incorporação de lenha de poda, a gestão e combate à erosão, etc., no caso do solo. Para a biodiversidade, a instalação de espécies melíferas no enrelvamento e nas bordaduras, a remoção dos fitofármacos com maior impacto, especialmente insecticidas, a utilização de armadilhas e a instalação de bebedouros e comedouros para a fauna.

Porém, mais importante do que saber uma lista de actividades, até porque o que apresentei não é exaustivo e não pretendo fazer recomendações, é saber como, porquê e quando aplicar cada prática de forma mais adequada à parcela.

Conheço casos em que produtores instalaram espécies melíferas escolhidas com floração simultânea à da sua cultura, e outras em que são escolhidas plantas com períodos de floração que se estendem no tempo de forma complementar ao da cultura. Ambas tinham excelentes argumentos para a sua escolha e há vários factores que podem ser determinantes, como por exemplo: se os pomares têm polinizadores instalados em colmeias ou caixas pelo agricultor, ou se o objectivo é maximizar a polinização pelos insectos que ocorrem na exploração.

Na realidade é preciso saber o problema que se quer resolver, o efeito da prática escolhida e os ajustes necessários para direccionar essa prática para os efeitos desejados nas condições específicas da parcela.

3) Que resultados são pretendidos?

Normalmente a resposta a esta pergunta é económica: o resultado pretendido é um aumento da rentabilidade obtida.

Faz sentido: se aplicarmos as técnicas regenerativas mais impactantes na parcela e conseguirmos com isso reduzir as necessidades de rega e de fertilização e/ou maximizar a polinização, ganharemos mais dinheiro por unidade de área, através de uma redução de custos e/ou um ganho de produtividade.

Assim, parece que o objectivo último é realmente tornar a parcela mais resiliente e viável por meios próprios.

Esta perspectiva ganha especial interesse num contexto de custos crescentes, como o que vivemos neste momento e como os que foram observados por diversas vezes nos últimos anos.

Será a regenerativa uma defesa contra tendências inflacionárias na economia?

Para além da redução ou controlo de custos, há duas outras formas que me ocorrem de procurar melhorar os resultados económicos:

  • o aumento da receita através de uma remuneração específica do mercado para produtos de agricultura regenerativa;
  • e o interesse (pago) pelos benefícios ambientais e sociais gerados por esta forma de produzir – quer seja por esquemas de pagamento de serviços dos ecossistemas ou por investimentos mandatados para incorporar práticas regenerativas na sua forma de produção.

Claro que, aqui, as motivações são cruzadas e os objectivos podem ser simultaneamente ambientais, sociais e económicos. Mas é perfeitamente legítimo que sejam mais de uma destas vertentes que das outras, ou até simplesmente só de uma.

Quem veja a discussão, através do link que mencionei acima, aperceber-se-á que não há soluções pró-forma e pré-definidas. É necessário entender o sistema vivo que se encontra em cada parcela em que se actua, projectar os efeitos sobre solo e biodiversidade, mas também água e sentido técnico-económico das operações, e assim tentar tomar as acções com maior sinergia positiva e o impacto mais favorável.

Penso que com esta estrutura e abordagem é possível resolver alguns dos problemas das nossas parcelas, de forma consistente, e atingir uma maior sustentabilidade na exploração.

Desta forma seremos mais resilientes a choques externos e caminharemos para o que o consumidor europeu parece querer: produtos alimentares mais seguros e com características socio-ambientais mais favoráveis.

Mais, esta abordagem regenerativa permite também enfrentar, pela redução de custos de produção, aquele que me parece ser o principal entrave a um maior consumo destes alimentos com atributos mais sustentáveis que os estudos de mercado dizem que o consumidor quer: o preço.

Assim, penso que podemos concluir que sim, que a agricultura regenerativa nas culturas permanentes faz sentido do ponto de vista económico e socio-ambiental e é algo que o sector deve aprofundar, utilizando uma abordagem estratégica e metodológica baseada nos princípios que aqui se apresentaram.

Ler o artigo completo em formato PDF


Miguel Vieira Lopes

O artigo foi publicado originalmente em AGRO.GES.

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