Os polinizadores desapareceram de 34% dos territórios europeus em que estavam presentes em 1921, conclui um estudo liderado por cientistas espanhóis e publicado na revista científica PNAS.
Segundo os autores da investigação, o recuo ameaça a polinização, uma das bases dos ecossistemas agrícolas e naturais, embora as extinções continuem a ser raras.
Mais de 90% das espécies de abelhas e de sirfídeos [conhecidos como moscas-das-flores], foram observadas nos seus territórios já neste século. Segundo dados da União Internacional para a Conservação da Natureza citados no estudo, apenas 14 espécies de abelhas e uma de sirfídeos desapareceram da Europa nas últimas décadas. “Mas reduziram a sua ocupação e abundância”, afirma Carlos Martínez Núñez, investigador da Estação Biológica de Doñana (EBD-CSIC) e primeiro autor do trabalho.
O estudo assenta numa base de dados aberta, construída ao longo de vários anos por uma centena de cientistas europeus, com mais de quatro milhões de registos de polinizadores silvestres entre 1921 e 2020, abrangendo quase todas as 3.051 espécies de abelhas e sirfídeos existentes na Europa. É o primeiro trabalho a explorar um arquivo desta dimensão.
A análise divide a Europa em cinco grandes biorregiões. As maiores perdas registaram-se nas Ilhas Britânicas e na fachada atlântica, desde a Galiza até à costa norueguesa, e na Europa continental, do interior de França até à Rússia. Na faixa mediterrânica, o declínio é ainda incipiente. Apenas a região alpina e outras grandes cordilheiras, como os Pirenéus, viram aumentar a presença destes polinizadores, uma evolução que os autores atribuem à melhoria das condições térmicas em altitude.
A Península Ibérica integra a região mediterrânica, da qual há menos dados, embora mais recentes. “Em Espanha houve menos perda de abelhas”, afirma Ignasi Bartomeus, também da EBD e autor sénior do estudo, que aponta a maior diversidade geográfica ibérica face às planícies atlânticas e continentais, paisagens mais uniformes e muito afetadas pela agricultura intensiva. O abandono do campo poderá estar a ajudar as abelhas, segundo os autores, mas a recuperação do terreno pelas plantas com flor, em especial pelos arbustos, leva tempo.
Entre as principais causas do declínio, os autores destacam a perda de habitats naturais, o desaparecimento de espécies florais substituídas pelos campos de cereais e o uso de inseticidas na agricultura, que descrevem como o maior inimigo dos polinizadores.
As alterações climáticas também estão a agravar o cenário: “O declínio está a acelerar nos últimos anos: muitas espécies estavam já no seu limite térmico, e não é o mesmo passar de 10 para 15 graus no norte da Europa que passar de 35 para 40 graus na zona mediterrânica”, explica Ignasi Bartomeus. As espécies mais afetadas são as mais bem adaptadas ao frio, como os abelhões, do género Bombus.
Para os autores, o facto de o declínio não se ter ainda traduzido em muitas extinções deixa margem para inverter a tendência. “O momento de atuar é agora”, defende o investigador, apontando o cuidado com a paisagem, “com mais flores, desde as bordaduras dos campos até às zonas urbanas”, embora sublinhe que a grande ameaça, as alterações climáticas, exige trabalho a outra escala.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































