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Agroportal

Alterações climáticas em Portugal: florestas num país mais quente e seco

por Florestas.pt
25-05-2026 | 14:08
em Últimas, Notícias florestas, Blogs
Tempo De Leitura: 7 mins
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Apesar do contributo da floresta como sumidouro de carbono ser positivo em muitos países, incluindo em Portugal (na maioria dos anos), o saldo entre gases com efeito de estufa emitidos e retidos está longe da neutralidade. Esta realidade tem acelerado as alterações climáticas em Portugal e no mundo, com impactes também para as florestas.

Os efeitos das alterações climáticas fazem-se sentir por todo o globo, com aumentos da temperatura, do número e dimensão dos fogos e da frequência de secas, cheias e furacões. Entre as principais pressões das alterações climáticas em Portugal estão as temperaturas médias mais elevadas, a diminuição da chuva, os períodos de seca mais prolongados e os fenómenos extremos, como as ondas de calor e as tempestades, com chuvas torrenciais e ventos fortes.

  • 2022, 2023, 2024 e 2025 foram quatro dos cinco anos mais quentes de sempre, desde que há registos em Portugal (o outro aconteceu em 1997).
  • 2025 foi o quinto ano mais quente de sempre, com 0,81°C acima do valor normal no período 1981-2010. Foram registadas seis ondas de calor: uma na primavera, três no verão e duas no outono. 60 a 99% do território esteve em seca meteorológica entre os meses de julho e outubro, apesar de 2025 ter sido o terceiro ano mais chuvoso desde 2000.
  • 2024 foi o quarto ano mais quente em Portugal desde 1931, com 0,94°C acima do normal registado no período 1981-2010. Houve oito ondas de calor, duas no inverno, quatro na primavera e duas no verão. Foi também o décimo quarto ano menos chuvoso desde 2000 e 70% da precipitação concentrou-se em quatro meses (janeiro, fevereiro, março e outubro).

Os dados são relevados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) nos seus “Boletins de Clima Anual”, relativos a 2024 e 2025.

O Relatório do Estado do Ambiente (REA), com dados até 2024, destacava também:

Dos 30 anos mais quentes registados em Portugal continental, 23 ocorreram depois de 1990. Entre eles, 17 aconteceram depois de 2000.
2022 e 2023 foram os anos mais quentes, em Portugal continental, desde 1931.

Desde 2000, mais de metade dos anos teve valores de precipitação média inferior ao valor normal 1961-1990. Entre 2019 e 2024, houve sempre uma anomalia negativa na precipitação.

Nos últimos 30 anos têm-se observado, em Portugal continental, mais eventos de ondas de calor extremos no período do verão. Os episódios mais severos de ondas de calor verificaram-se depois de 1990 na região interior norte e centro e depois de 2000 na região sul. Os verões com maior percentagem de estações meteorológicas que registaram ondas de calor no verão desde 2000 foram 2013, 2006, 2003, 2018 e 2022.

Em Portugal, as temperaturas médias poderão subir entre 3°C e 7°C entre 2080-2100, especialmente nas regiões do interior norte e centro, segundo projeções do projeto SIAM. Prevê-se também um aumento na frequência e intensidade das ondas de calor. Tudo indica que haverá mais precipitação nos meses de inverno e menos nos meses de primavera, sobretudo em abril e maio. Apesar da incerteza dos modelos climáticos, a redução da precipitação média anual poderá atingir os 20% a 40%, com o sul do país a ser mais afetado.

A Agência Europeia do Ambiente identificou 36 riscos climáticos principais para a Europa, distribuídos por cinco grandes grupos: ecossistemas, alimentação, saúde, infraestruturas e economia e finanças. Mais de metade (21 dos 36) exigem ações mais imediatas e oito são assumidos como particularmente urgentes:

– Ecossistemas – riscos para (1) ecossistemas costeiros, (2) marinhos, para a (3) biodiversidade e armazenamento de carbono devido a incêndios;

– Alimentação – (4) risco de redução da produção agrícola;

– Saúde – (5) risco de stress térmico para a população em geral e (6) riscos decorrentes de incêndios para a população e o ambiente construído;

– Infraestruturas – (7) risco de inundações devidas a chuva e ao transbordo de rios;

– Economia e finanças – (8) risco de insuficiência de mecanismos europeus de solidariedade.

A Europa é o continente que está a aquecer mais rapidamente, indica a primeira Avaliação Europeia dos Riscos Climáticos (EUCRA, 2024). O calor extremo, outrora relativamente raro, está a tornar-se frequente e os padrões de precipitação estão a mudar, com as chuvas torrenciais e outros eventos extremos de precipitação a aumentar de intensidade. O sul da Europa, as regiões costeiras de baixa altitude e as regiões periféricas são áreas críticas.

O sul da Europa é particularmente afetado pelo calor e pela seca prolongada. Nesta região, os riscos relacionados com incêndios florestais (riscos 3 e 6) são classificados como “críticos”, e de “ação urgente necessária” e o mesmo acontece com o risco de perda de culturas agrícolas.

Consequências das alterações climáticas são graves para as florestas

Em termos globais, 800 milhões de hectares de floresta foram destruídos ou danificados, entre 1996 e 2015, por desastres relacionados com o clima, como furacões, tufões, cheias, secas e tsunamis, entre outros, estimou o “The State of the Word’s Forest 2018” da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). De lembrar que a destruição da floresta tem também consequências diretas no agravamento das alterações climáticas, criando assim um círculo vicioso.

Uma análise dos impactes das perturbações naturais nas florestas europeias mostrou um aumento claro das tendências de perturbação causadas por vento, fogo, escaravelhos e outras perturbações bióticas e abióticas entre 1950 e 2019. O vento (incluindo grandes tempestades de inverno e tempestades com raios e tornados) causou a maior parte (46%) dos danos florestais totais. Os incêndios representaram a segunda causa de danos, com uma alteração dos regimes do fogo nos últimos anos, eventos extremos e megaincêndios. Outra ameaça importante para as florestas são as pragas e doenças, agravadas pelos efeitos das alterações climáticas, que deixa as florestas mais suscetíveis.

Uma projeção de 2026 indica que a área florestal danificada por tempestades (vento), escaravelhos e incêndios poderá aumentar entre 31% e 122% até ao final do século XXI (face ao registado entre 1986-2000), consoante o cenário climático.

Espécies florestais portuguesas sofrem impactes na produtividade e distribuição

Os espaços florestais são afetados pelas pressões das alterações climáticas em Portugal. A partir dos resultados do projeto SIAM (Climate Change in Portugal: Scenarios, Impacts and Adaptation Measures), a equipa de trabalho responsável pela área de florestas da Estratégia Nacional de Adaptação às alterações Climáticas apresentou previsões para alguns dos impactes potenciais que se deverão fazer sentir na produtividade e na área de distribuição das diferentes espécies florestais:

Pinheiro-bravo com diminuição geral de produtividade

No norte litoral pode haver ganhos de até 10% em termos de volume de madeira, mas no resto do país prevê-se um decréscimo deste valor, com reduções entre 12% no norte interior e mais de 50% no sul do país.

Eucalipto com decréscimo geral de produtividade

No norte litoral, a produtividade pode aumentar em função do aumento das temperaturas, mas no resto do território a produtividade diminui. Na região centro a diminuição de produtividade será mais acentuada no interior (-30%) do que no litoral (cerca de -15%). Na região sul as reduções podem chegar aos 50%.

Em ambas as espécies (eucalipto e pinheiro-bravo) as simulações apontam para a diminuição da área de distribuição potencial, com retração a sul e aumento nas zonas de maior altitude.

Sobreiro com menor produtividade primária líquida (PPL) e diminuição da área potencial

No norte, a subida da temperatura pode levar a aumentos de até 25% na PPL. Na região centro, os aumentos máximos serão de até 10%. No litoral e no sul, a PPL poderá ter decréscimos de até 60%. A área de distribuição potencial desta espécie poderá ser afetada, em particular no sul e interior do continente, em resultado do aumento da aridez. A maior área de sobreiro está na zona sul do país, pelo que estas alterações poderão ter também elevados impactes económicos no sector da cortiça.

Azinheira com diminuição da área potencial

O agravamento do clima, aliado à situação de debilidade atual dos povoamentos, poderá levar a que a azinheira só consiga persistir em zonas mais húmidas, substituindo o sobreiro.

Carvalhos com menos área de distribuição potencial

A redução será mais evidente no Norte interior, embora se possa assistir a um aumento da produtividade no Litoral Norte, em zonas de maior altitude e de bons solos.

O projeto SIAM estudou os cenários, impactes e medidas de adaptação às alterações climáticas em Portugal. Os modelos de produção existentes para as várias espécies florestais foram utilizados em cenários climáticos, sem considerar novas formas de gestão ou tecnologias adaptativas. De acordo com as previsões, os aumentos de produtividade obtidos no Litoral Norte não serão suficientes para compensar as perdas no restante território.

Em  2026, um estudo de autores portugueses focado em três espécies de carvalhos ibéricos, concluiu que as pressões resultantes das alterações climáticas em Portugal deverão traduzir-se numa redução ligeira da área de distribuição natural do carvalho-alvarinho, numa redução mais acentuada da área com condições para acolher o carvalho-negral e num aumento das zonas adequadas ao sobreiro, com novas áreas de expansão no Norte e em altitude que compensam perdas ligeiras a Sul.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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