Porque a soberania alimentar passou a ser uma questão geopolítica.
Durante décadas, a Europa habituou-se a olhar para os alimentos como uma garantia permanente. As prateleiras dos supermercados estavam sempre cheias, os mercados internacionais respondiam à procura e as cadeias logísticas funcionavam com uma eficiência que parecia inabalável. Essa abundância gerou uma ilusão perigosa: a de que a segurança alimentar era um dado adquirido. Hoje sabemos que não é.
Nos últimos cinco anos, o mundo mudou mais rapidamente do que em muitas das décadas anteriores. A pandemia de COVID-19 interrompeu cadeias de abastecimento consideradas invulneráveis. A invasão da Ucrânia demonstrou que cereais, fertilizantes e energia podem transformar-se em instrumentos de pressão geopolítica. A crise energética revelou até que ponto a dependência externa condiciona a autonomia política. Mais recentemente, as tensões comerciais, as restrições às exportações e os fenómenos climáticos extremos reforçaram uma evidência que durante demasiado tempo foi ignorada: quem controla a produção e o acesso aos alimentos possui um instrumento estratégico de enorme poder.
A Europa compreendeu rapidamente que depender de terceiros para o fornecimento de gás natural representava um risco para a sua soberania. Reagiu diversificando fornecedores, investindo em infraestruturas, acelerando a transição energética e tratando a energia como uma questão de segurança. No domínio alimentar, porém, essa mesma urgência parece ainda não existir.
Paradoxalmente, a União Europeia continua a ser uma das maiores potências agroalimentares do mundo. Em 2025, exportou cerca de 238 mil milhões de euros em produtos agroalimentares, mantendo a posição de maior exportador mundial e registando um saldo comercial positivo de aproximadamente 50 mil milhões de euros. O setor contribuiu com cerca de 37% do excedente comercial total da União Europeia, confirmando a sua importância económica e estratégica.
À primeira vista, estes números transmitem confiança. Mas uma leitura mais atenta revela sinais que não devem ser ignorados.
As importações agroalimentares cresceram mais rapidamente do que as exportações, impulsionadas pelo aumento dos preços internacionais e pela crescente dependência de matérias-primas essenciais, como café, cacau, frutas, frutos secos, oleaginosas e proteínas vegetais. O excedente comercial permanece robusto, mas tem vindo a diminuir face ao crescimento das importações.
Mais importante do que o saldo comercial é outra realidade: uma parte crescente do sistema agroalimentar europeu depende de cadeias globais altamente complexas para obter fertilizantes, energia, proteína vegetal para alimentação animal, matérias-primas industriais e diversos fatores de produção.
Esta dependência raramente é discutida como um problema estratégico. Mas deveria ser.
A História demonstra que, em períodos de estabilidade, os mercados internacionais funcionam de forma eficiente. Contudo, quando surgem conflitos, crises sanitárias ou ruturas logísticas, os países exportadores tendem naturalmente a privilegiar o abastecimento das suas populações. O comércio deixa então de obedecer apenas às regras do mercado e passa a responder a prioridades nacionais.
A alimentação transforma-se num instrumento de política externa. É precisamente por isso que a segurança alimentar deixou de ser apenas uma preocupação agrícola. Tornou-se uma componente da segurança nacional. Basta observar o que acontece atualmente no panorama internacional.
A China investe há vários anos na aquisição de terras agrícolas, infraestruturas portuárias, empresas agroalimentares e cadeias logísticas em diferentes continentes. Os Estados Unidos continuam a tratar a sua produção agrícola como um ativo estratégico. A Rússia utiliza regularmente as exportações de cereais e fertilizantes como elemento da sua influência internacional. Diversos países do Médio Oriente investem massivamente em produção agrícola no estrangeiro para garantir o abastecimento futuro das suas populações.
Todos compreenderam uma realidade simples. A segurança alimentar é poder.
Entretanto, a Europa parece concentrar uma parte significativa do debate agrícola quase exclusivamente na redução de impactos ambientais, frequentemente relegando para segundo plano a capacidade produtiva e a autonomia estratégica.
É evidente que a sustentabilidade constitui uma prioridade incontornável. Nenhum agricultor ignora a importância da conservação dos solos, da água ou da biodiversidade. Mas sustentabilidade não significa redução sistemática da produção. Significa produzir melhor, com maior eficiência e menor impacto ambiental.
A Europa dispõe hoje das condições científicas e tecnológicas para liderar esse caminho, como são os casos da Agricultura de precisão, a Inteligência artificial, os Sensores, a Robótica, o Melhoramento genético, a Bioeconomia circular, a Digitalização, entre outros. Nunca a agricultura europeia dispôs de tantas ferramentas para aumentar simultaneamente a produtividade e a sustentabilidade.
A questão fundamental é saber se as políticas públicas estão verdadeiramente orientadas para potenciar essa capacidade ou se, pelo contrário, correm o risco de fragilizar a competitividade do setor.
Uma Europa menos produtiva não significa necessariamente um planeta mais sustentável.
Pode significar apenas uma Europa mais dependente. Produziremos menos. Importaremos mais. Transferiremos a produção para países onde as exigências ambientais e sociais são frequentemente menos rigorosas. As emissões não desaparecem, apenas mudam de localização.
Ao mesmo tempo, perdemos rendimento agrícola, emprego, capacidade tecnológica, conhecimento acumulado e influência geopolítica.
Existe ainda outra dimensão frequentemente esquecida. Os agricultores não produzem apenas alimentos. Mantêm população nos territórios rurais. Gerem paisagens. Previnem incêndios. Conservam solos. Protegem recursos hídricos. Sustentam economias locais. Garantem ocupação do território.
Como escrevi há tempos, cada exploração agrícola que encerra representa muito mais do que uma simples redução da produção, representa uma perda de resiliência nacional.
Nos últimos anos, a União Europeia fez progressos significativos na construção de uma política comum de defesa. Reforçou a cooperação energética. Desenvolveu estratégias para reduzir dependências tecnológicas. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que a soberania alimentar merece exatamente o mesmo nível de prioridade. Porque, em última análise, nenhuma sociedade consegue exercer plenamente a sua soberania se depender estruturalmente de terceiros para satisfazer uma das suas necessidades mais básicas.
A verdadeira autonomia estratégica europeia não começa apenas nas fronteiras, nas centrais elétricas ou na indústria da defesa. Começa muito antes, começa nos campos, começa nas explorações agrícolas e começa na capacidade de a Europa continuar a produzir uma parte significativa dos alimentos de que necessita.
A energia alimenta as economias. A defesa protege os territórios. Mas são os alimentos que garantem a estabilidade das sociedades.
Ignorar esta evidência seria um erro estratégico de consequências difíceis de prever. Num mundo cada vez mais instável, a soberania alimentar deixou de ser apenas uma política agrícola.
É, cada vez mais, uma questão de soberania europeia.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































