A Quercus relembra que a consulta pública da mega-central Sophia teve 12 693 participações com apenas 123 favoráveis ao projecto. Uma rejeição massiva, também das autarquias, com sólida fundamentação técnica e científica da Comissão de Avaliação. O parecer negativo fundamenta-se na “fraca compatibilidade do projeto com os princípios da sustentabilidade ambiental, do ordenamento do território e da justiça territorial, bem como uma desproporção entre os benefícios energéticos expectáveis e a magnitude, extensão e dos impactes cumulativos identificados”. A Comissão de Avaliação foi bastante clara sobre a inviabilidade do projecto, se a reformulação é economicamente viável é porque a sustentabilidade ambiental não está suficientemente assegurada. E será por isso que a BP promete agora um pacote de 20 milhões de euros às populações e sessões de esclarecimento com o apresentador televisivo Jorge Gabriel para disfarçar essa mesma insustentabilidade.
A Lightsouce BP (LBP) não disponibilizou à Quercus dados suficientes para confirmar a veracidade dos dados divulgados à excepção da salvaguardada da Rede Natura 2000 e das Áreas Protegidas. Mas a redução anunciada das áreas não elimina a escala da ocupação – cerca de 12 km de comprimento e 2,6 Km de largura, que continua inaceitável. A nível da fauna a redução das áreas de alimentação, reprodução e refúgio continua grave levando a uma diminuição acentuada da biodiversidade local e desmantelamento dos ecossistemas naturais existentes.
Sem dados objectivos para confirmar a versão cor de rosa a circular, a Quercus confirma o empenho e a criatividade com que a BP está a usar os mecanismos de sedução simbólica para manipular a opinião pública. A “prenda”, massivamente rejeitada, está agora embrulhada no brilho da cultura – “Sophia”, da simpatia e da confiança – Jorge Gabriel, da humildade “a principal lição neste processo é a necessidade de escuta ativa das populações” e da cooperação – veja-se a iniciativa “Luz Partilhada”. Mas estas “boas intenções” não resistem a um exame mais atento. A Quercus considera que:
1- O uso do nome da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen denota uma chocante falta de respeito. Trata-se de uma técnica antiga, que consiste em vestir um empreendimento económico “com a roupagem afectiva de um imaginário colectivo – a poesia, a identidade nacional, aquilo que uma comunidade reconhece como seu e ama sem reservas – para que a simpatia dedicada ao símbolo se transfira, por contiguidade, ao projecto”.
2- Não basta a apropriação abusiva da poetisa, por sinal muito ligada à Natureza, a BP recorre ainda à manipulação da opinião pública ao envolver uma personalidade que acolhe simpatia popular pela sua longa carreira televisiva. Convidar Jorge Gabriel para as sessões de apresentação representa a instrumentalização da simpatia e da confiança que o público nele deposita para as transferir, por associação, à Sophia. Um exercício de engenharia da percepção em que a figura pública funciona como aval afectivo, sobrepondo-o ao escrutínio técnico, ambiental ou económico.
3- A presença do apresentador Jorge Gabriel desloca o foco das sessões – de cariz supostamente técnico e científico – para o espectáculo televisivo de entretenimento apelando ao afecto e à emoção, inibindo a razão e o pensamento crítico.
4- Em relação à Luz Partilhada (LP) a Quercus considera que se trata de um novo negócio disfarçado de compensação às populações, o que pode criar condições para instalar novas centrais que escapam à Avaliação de Impacto Ambiental. Se não, vejamos: operacionalizada pela Enermatch e financiada pela LBP, esta iniciativa promete energia eléctrica a baixo custo que virá de uma Comunidade de Energia Renovável (CER). Esta terá por base novas centrais a instalar em Idanha-a-Nova, Penamacor e Fundão, com dimensão e localização ainda desconhecidas. A Enermatch não tem projectos de CER em Portugal , onde opera desde Junho de 2026 na área do desenvolvimento de software. Mas, mesmo sem experiência registada nesta área, vai assumir a função de Entidade Gestora do Autoconsumo Coletivo (EGAC). Ora esta entidade é o coração da CER, assumindo a responsabilidade jurídica, operacional e financeira em nome dos consumidores que agrega. Estes irão celebrar um contrato, com duração desconhecida, com a Enermatch mas mantendo o contrato com o comercializador anterior (p. ex. EDP, Endesa, etc). Ou seja, passarão a ter dois contratos de energia eléctrica a troco de uma poupança mensal insignificante e com a probabilidade de um acréscimo de custo.
Esta reformulação, ao contrário do que a LBP afirma e é público, não surgiu de um “processo de escuta ativa realizado no território, que envolveu cidadãos, autarquias, associações, entidades públicas e outros interlocutores locais” e merece novamente 12.570 NÃOS.
A Quercus relembra as recomendações da Resolução da Assembleia da República n.º 102/2025 ao Governo. Das quais destaca esta – “Adote uma estratégia clara e integrada para a localização de centrais solares e eólicas, que assegure a compatibilização da produção de energia renovável com a proteção do ambiente, a preservação da biodiversidade e a qualidade de vida das populações e reveja e reaprecie os processos de licenciamento em curso, assegurando o cumprimento destes valores”.
A Sophia reformulada será apreciada EM BREVE em NOVA CONSULTA COM A DURAÇÃO DE APENAS 10 DIAS. Precisamos manter o envolvimento dos cidadãos, tal como a coragem e a união do poder local. Saindo já beneficiado dessa união o Fundão vai certamente continuar solidário com as autarquias de Idanha-a-Nova e Penamacor na defesa do território.
A Quercus reconhece a importância da transição energética e defende a descentralização, o autoconsumo e a priorização de zonas artificializadas. Discorda de projetos megalómanos e da imposição às populações, feita ao arrepio da lei e da transparência.
Fonte: Quercus















































