No dia em que é lançado o concurso público para a construção da Barragem de Girabolhos, no concelho de Seia, a ZERO reafirma que esta infraestrutura é uma falsa solução para as cheias do Baixo Mondego e defende uma inversão de prioridades: antes de comprometer, no mínimo, 300 milhões de euros de fundos públicos em betão, pelo menos parte desse investimento deve ser canalizado para a recuperação da capacidade de retenção de água da bacia hidrográfica a montante, no complexo da Serra do Açor e serras contíguas, devastado por incêndios rurais recorrentes, com particular gravidade em 2025. A ZERO alerta ainda que o concurso agora lançado deve incluir um novo procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental que inclua uma verdadeira comparação das alternativas existentes, incluindo a reflorestação das serras a montante, em particular as serras do Açor e da Lousã.
A serra queimada deixou de segurar a água
As cheias no Baixo Mondego terão resultado da combinação de dois fatores. O primeiro foi uma precipitação acima do normal: entre 1 de outubro de 2025 e meados de fevereiro de 2026, Coimbra acumulou 1 238 mm de chuva — o valor mais alto de sempre na série de Coimbra, superando o anterior recorde, de 1966. Ainda que janeiro de 2026, isoladamente, não figure entre os janeiros mais chuvosos da série, foi a persistência da chuva ao longo de meses consecutivos — novembro com o triplo do normal, janeiro e fevereiro com quase o triplo — que saturou os solos. O segundo fator agravou dramaticamente o primeiro: os incêndios sucessivos que fustigaram a região, os últimos em 2025, reduziram a capacidade de infiltração dos solos, efeito que pode persistir entre dois e sete anos. A água que devia infiltrar-se escorreu à superfície, os picos de cheia aumentaram e chegaram mais depressa a jusante, enquanto o solo, sem coberto vegetal, foi arrastado para as linhas de água. Em suma, sobre uma serra degradada, uma chuva já de si recorde transformou-se numa cheia sem precedentes.
Uma barragem que deixa de fora mais de 85% da bacia do Mondego
A área que drena para Girabolhos é estimada em 980 km², o que corresponde a menos de 15% da bacia hidrográfica do Mondego. Os restantes 85% continuam a gerar cheias que a barragem não interceta: em 2019, com a Barragem da Aguieira a libertar o caudal mínimo, entravam no Mondego mais de 1 000 m³/s vindos apenas do rio Ceira. Mais ainda: os 315,6 litros/m² acumulados em nove dias de fevereiro de 2026, aplicados à área da bacia associada à barragem, geram cerca de 309,3 hm³ de água, um valor superior à capacidade total de encaixe de Girabolhos, de 244,7 hm³ (193 hm³ na barragem principal e 51,7 hm³ no contra-embalse de Bogueira).
O próprio grupo de trabalho que analisou as cheias do Mondego que ocorreram em fevereiro deste ano concluiu que a infraestrutura existente no rio rende abaixo do previsto devido à modificação do comportamento hidrológico da bacia, provavelmente em resultado da desflorestação e dos incêndios, e apontou, corretamente, a necessidade de uma política de reflorestação intensa das encostas, como resposta estrutural, em particular das Serras do Açor e da Lousã.
Mais resultado por euro investido
O custo indicativo oficial da barragem, de acordo com a Estratégia Água que Une, é de 300 milhões de euros, com execução prevista para 2026–2037 — a ZERO estima que o investimento deverá ultrapassar os 500 milhões. Em contraste, a intervenção florestal em Portugal custa hoje até cerca de 1 500 €/ha; mesmo assumindo um valor generoso de 2 000 a 3 000 €/ha para uma intervenção integrada de restauro, os 300 milhões de euros da barragem permitiriam intervencionar entre 100 000 e 150 000 hectares — o suficiente para abranger toda a bacia a montante —, acrescentando benefícios que a barragem não garante, antes pelo contrário: retenção de sedimentos, resiliência ao fogo, biodiversidade, sequestro de carbono e qualidade da água. Aliás, sem ações de restauro da serra, a barragem perderia rapidamente capacidade de armazenamento devido à acumulação de sedimentos.
A mitigação das cheias recentes do Mondego não depende da capacidade de armazenar água, mas sim de atrasar e dessincronizar o escoamento. É exatamente aí que as soluções de base natural são mais eficazes — e é aí que a barragem nada faz, porque não atua sobre a origem da cheia, o solo, os sedimentos ou a biodiversidade.
Nova avaliação de impacte ambiental é indispensável e deve incluir ponderação de alternativas
A Declaração de Impacte Ambiental (DIA) do Aproveitamento Hidroelétrico de Girabolhos foi emitida a 26 de julho de 2010, estando caducada desde 2014, tendo o projeto o objetivo de produção hidroelétrica e não o aproveitamento hidráulico de fins múltiplos que deverá agora ser colocado a concurso.
Dezasseis anos depois, com um território e um clima diferentes, uma infraestrutura desta dimensão não pode avançar sem uma avaliação de impacte ambiental nova, integral e atual, que inclua a comparação séria das várias alternativas possíveis.
O que a ZERO defende:
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Avaliação de impacte ambiental prévia a ações de execução: deverá ser feita uma avaliação de impacte ambiental (AIA) que considere as alternativas razoáveis – como exige o Regime Jurídico de AIA, no seu ponto 2 do Anexo V, antes de quaisquer procedimentos com vista à execução do projeto.
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Prioridade ao investimento a montante: canalizar recursos para a recuperação da capacidade de retenção da bacia do Mondego, começando pelo complexo do Açor e serras contíguas, antes de comprometer verba pública em nova betonização.
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Uma sub-bacia-piloto demonstrativa: implementar um sistema integrado de soluções de base natural (nucleação com espécies autóctones para recompor o coberto, retenção nas cabeceiras das linhas de água para laminar os picos de cheia, e aplicação de mulch para reconstruir o solo e devolver-lhe a capacidade de infiltração), faseado da estabilização de emergência à auto-organização do sistema.
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Não instrumentalizar as cheias: recusar que a fragilidade das populações afetadas sirva para justificar, sem avaliação técnica integrada e comparativa, uma infraestrutura de elevado custo e eficácia questionável.
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Monitorização séria: medir caudais, tempo de resposta, erosão e recuperação do coberto, assumindo com transparência a incerteza à escala de bacia e construindo a base de evidência que falta em Portugal.
Gastar centenas de milhões de euros a jusante do problema não é criar resiliência, é repetir, à escala do Mondego, o erro de planeamento que as cheias de 2026 vieram expor. Para a ZERO, a prioridade tem de estar onde a cheia nasce, na serra.
Fonte: ZERO














































