A associação ambientalista Zero considera que a construção da Barragem de Girabolhos, no concelho de Seia, é uma “falsa solução” para as cheias no Baixo Mondego e exige nova avaliação ambiental do projeto.
O concurso público para a concessão da nova barragem é lançado hoje, em Gouveia, distrito da Guarda, pela ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho.
“A Zero reafirma que esta infraestrutura é uma falsa solução para as cheias do Baixo Mondego e defende uma inversão de prioridades”, afirma num comunicado enviado à agência Lusa.
“Gastar centenas de milhões de euros [ME] a jusante do problema não é criar resiliência, é repetir, à escala do Mondego, o erro de planeamento que as cheias de 2026 vieram expor. A prioridade tem de estar onde a cheia nasce, na serra”, sustenta.
Para a Zero, “antes de comprometer, no mínimo, 300 ME de fundos públicos em betão, pelo menos parte desse investimento deve ser canalizado para a recuperação da capacidade de retenção de água da bacia hidrográfica a montante”.
A associação refere-se ao complexo formado pela serra do Açor e serras contíguas, devastado por incêndios recorrentes, “com particular gravidade em 2025”.
O concurso agora lançado deve incluir um novo procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental “que inclua uma verdadeira comparação das alternativas existentes, incluindo a reflorestação das serras a montante”, em particular as do Açor e da Lousã, advogam os ambientalistas.
“A Declaração de Impacte Ambiental (DIA) do Aproveitamento Hidroelétrico de Girabolhos foi emitida a 26 de julho de 2010, estando caducada desde 2014, tendo o projeto o objetivo de produção hidroelétrica e não o aproveitamento hidráulico de fins múltiplos que deverá agora ser colocado a concurso”, recorda.
“As cheias no Baixo Mondego terão resultado da combinação de dois fatores. O primeiro foi uma precipitação acima do normal entre 01 de outubro de 2025 e meados de fevereiro de 2026, (…) que saturou os solos”, considera a Zero.
Os fogos florestais foram o segundo fator, que “agravou dramaticamente” o primeiro.
“Os incêndios sucessivos, os últimos em 2025, reduziram a capacidade de infiltração dos solos, efeito que pode persistir entre dois e sete anos. (…) Em suma, sobre uma serra degradada, uma chuva já de si recorde transformou-se numa cheia sem precedentes”, alega.
A Zero alerta também para o facto de a futura barragem de Girabolhos deixar de fora mais de 85% da bacia do Mondego.
“A área que drena para Girabolhos é estimada em 980 km², o que corresponde a menos de 15% da bacia hidrográfica do Mondego. Os restantes 85% continuam a gerar cheias que a barragem não interceta”.
O movimento ambientalista lembra, a propósito, que o grupo de trabalho que analisou as cheias do Mondego de fevereiro deste ano “concluiu que a infraestrutura existente no rio rende abaixo do previsto devido à modificação do comportamento hidrológico da bacia, provavelmente em resultado da desflorestação e dos incêndios”.
Considera, por isso, necessária “uma política de reflorestação intensa das encostas, como resposta estrutural, em particular das serras do Açor e da Lousã”.
A Zero estima ainda que o investimento na construção da barragem de Girabolhos deverá “ultrapassar os 500 ME”, acima do custo indicativo oficial de 300 ME, de acordo com a Estratégia Água que Une, com execução prevista para 2026–2037.
“Em contraste, a intervenção florestal em Portugal custa hoje até cerca de 1.500 euros por hectare [ha]; mesmo assumindo um valor generoso de 2.000 a 3.000 euros/ha para uma intervenção integrada de restauro, os 300 ME da barragem permitiriam intervencionar entre 100.000 e 150.000 ha – o suficiente para abranger toda a bacia a montante”.
Opção que acrescentará “benefícios que a barragem não garante, antes pelo contrário: retenção de sedimentos, resiliência ao fogo, biodiversidade, sequestro de carbono e qualidade da água”, realça.
Como medidas alternativas, a Zero propõe, entre outras, a criação de uma sub-bacia-piloto demonstrativa, onde seja implementado “um sistema integrado de soluções de base natural”.
Sugere também uma “monitorização séria” de caudais, tempo de resposta, erosão e recuperação do coberto, “assumindo com transparência a incerteza à escala de bacia e construindo a base de evidência que falta em Portugal”.














































